O fim da Quadratura do Círculo, para mim, é o fechar de um encontro semanal, um ritual constantemente renovado, que durava desde meados dos anos 90. Não segui o programa desde o seu início, sou demasiado novo para os tempos de Vasco Pulido Valente e, depois, de Miguel Sousa Tavares no Flashback. Mas, dado o prazer da política - apetece dizê-lo assim hoje, mais do que nunca -, mal superada a infância, escutava o trio composto por José Magalhães, José Pacheco Pereira e Nogueira de Brito (sempre moderados por Carlos Andrade). Não se descia do carro, aos Domingos, antes de os microfones da tsf passarem o genérico, por vezes atribulado, entre altercações verbais, do programa. O momento, talvez mais marcante, da era radiofónica que acompanhei, foi a cara pintada a preto de José Magalhães, cumprindo a promessa de assim, literalmente, se apresentar, se o Governo Guterres, por si apoiado e defendido, falhasse o défice - como, então, falhou. Das intensas discussões sobre o rendimento mínimo, passando, já no meio televisivo, pela guerra do Iraque - altura, hoje pouco menos do que impensável, em que Pacheco Pereira varria a testada com as mais recentes elocubrações da imprensa e think tanks neoconservadores nos EUA -, culminando com as duras lutas ideológicas em tempos de de Governo Passos e de troika, a Quadratura foi sempre companhia indispensável.
Achei, sempre, um bocadinho excessivo considerar Jorge Coelho, que fala mal português, um intelectual - e de cada vez que ele estava residente no programa, a coisa perdia um tanto de graça. Desde há 7 anos, sensivelmente, as grandes disputas verbais (político-ideológicas) fazem-se entre Pacheco Pereira e Lobo Xavier, com António Costa, primeiro, e Jorge Coelho, depois, a terem dificuldades de posicionamento face à assertividade de Pacheco Pereira relativamente à "direita". Este último, foi, a meu ver, dos importantes actores no espaço público português durante a legislatura 2011-2015, capaz de a) representar uma parte do eleitorado português que, tendo fortes críticas a fazer ao Governo PaF, não se sentia representado pelos partidos à esquerda no espectro político português; b) gizar um argumentário, uma crítica original que depois, por si próprio, alimentava as discussões políticas que se produziam no país, sendo replicado constantemente; c) porque, sendo ainda militante do PSD, as suas críticas virulentas ao Governo Passos eram escutadas com especial atenção. Uma coisa seria um membro, ou senador, do BE reproduzir, ipsis verbis, tais críticas - tal era esperado e não seria propriamente notícia; outra, eram pessoas como Pacheco Pereira (ou Manuela Ferreira Leite, Diogo Freitas do Amaral, Silva Peneda, Adriano Moreira) a causticarem o Executivo Passos. De aí, muito do azedume de então, e que ainda hoje pode ser encontrado nas redes sociais - nos comentários a propósito da notícia do fim da Quadratura -, o que, em realidade, só reforça o carácter especial que o programa tinha. Aliás, ainda ontem, um sénior e ferrenho militante do PSD me confidenciava ao café que desde há uns anos deixara de ver o programa, amargurado com Pacheco. Neste sentido também, trata-se de um programa que documenta o devir sócio-político português, na medida em que este tipo de reacções é expressão de um tempo extremamente carregado e polarizado na sociedade portuguesa. A dita cuja crispação. E de uma evolução - neste caso corporizada em Pacheco Pereira - política/ideológica que a crise iniciada em 2008 suscitou em tanta gente.
Não menos importante, o programa deu um PM ao país, sendo certo, evidentemente, que o currículo de António Costa - que, diga-se de passagem, declarou cerca de 7 mil euros de remuneração mensal no programa de debate político de que vimos falando; o "programa de prestígio" fazia-se pagar bem; houve um tempo em que o DN, pagando também por isso bom preço, reproduzia, às sextas, o que fora dito na tv na noite anterior, a que acrescia um comentário de Carlos Andrade - era extenso antes da presença semanal nos ecrãs; mas não é menos verdadeiro que o programa o catapultou, lhe deu a possibilidade de entrar em eleitorados que poderiam vir a alargar a base do PS; lhe conferiu uma respeitabilidade e uma gravitas que caucionaram o seu avanço face a Seguro. No dizer de António Costa Pinto, ao I, "em Portugal, as televisões são - mais do que noutros países - não apenas locais de debate político entre comentadores e representantes dos partidos, mas plataformas de lançamento de políticos. Muitas vezes a participação de políticos nestes programas serve para rampa de lançamento para congressos partidários, para eleições internas nos partidos ou para outros lugares de destaque"(p.11).
Invocado, constantemente, quando alguém queria referir-se a um programa político respeitável e com nível, a Quadratura do Círculo, na SicNotícias, cairá, no dizer de José Magalhães aos pés de um tempo que troca "o debate livre pela zurrapa" (p.10). Para Costa Pinto, o espaço público preenchido a crime, escândalos e futebol levou para longe a política - agora com escasso espaço.
Ficámos a saber, pelos dados da GfK, que em 2017 viam, em média, o programa, 72100 espectadores, números que baixariam para os 52600 em 2018 (e, nas duas emissões de 2019, 44400 espectadores). Não conheço os dados de 2011-2015, mas, face a um tempo tão conturbado e muito mais politizado do que antes e depois, suspeito que as audiências eram, então, mais robustas - e que alguma "normalização" posterior fez alguns milhares dedicarem-se a outras àreas de interesse e actividade nos serões de quinta-feira.
O I sinaliza, a "amarelo", Daniel Oliveira, como responsável de programas da Sic, como o profissional que decidiu o fim da Quadratura, em virtude dos números das audiências, e conclui: "era, apesar de tudo, um dos poucos espaços civilizados na Tv" (p.48). Espera-se/deseja-se agora que outro canal de notícias/informação, ou uma estação de rádio possam recuperar tal civilidade.
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