Já no século XX, Os Maias foi objecto de uma adaptação ao teatro por José Bruno Carreiro, encenada em 1945 e em 1962, com algum sucesso, mas não muito. Depois, essa peça de teatro foi adaptada à televisão, ainda a preto e branco, numa série de cinco episódios, realizada por Ferrão Katzenstein e que, a meu ver, foi um desastre. Mais tarde, Os Maias foram objecto de outras tentativas semelhantes. Uma delas foi levada a cabo pela Globo, em 2001, com argumento de Maria Adelaide Amaral, dramaturga e romancista com notoriedade no Brasil (aliás, portuguesa de nascimento) e realização do cineasta Luís Fernando Carvalho. Foi uma adaptação muito apurada, mas que não teve grande sucesso do público, talvez porque era muito sofisticada do ponto de vista técnico e de figurinos ou por outros aspectos de produção e exibição (foi exibida às 23h). (...)
Podemos analisar o que lhe [a João da Ega] aconteceu, por exemplo, no filme e minissérie Os Maias, de João Botelho [2014], em que é interpretado pelo actor Pedro Inês (numa versão muito caricatural), e na série da Globo, em que é feito pelo actor Selton Mello (de uma forma mais contida, mais próximo do Carlos da Maia). É interessante ver qual destes castings, com rostos e discursos diferentes, prolongou melhor a personagem [original]. Hoje, este tipo de reflexão mantém os romances vivos e mostra que eles não foram escritos para ficarem só encerrados num medium, o papel, mas que têm hipóteses de continuação e até de utilização pedagógica noutros media. (...)
Outro cuidado que transmiti à equipa da Globo [foi consultor do referido projecto de adaptação], é o de sublinhar a necessidade de termos presente que no romance existem planos de acção diferentes: há personagens que estão em todos esses planos, e que são cruciais naquela intriga do incesto, e outras que não, que só participam na vida social, por exemplo. Temos cruzamentos de personagens em múltiplos planos de acção. Os Maias é uma obra de uma complexidade notável.
Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, Ler, nº151, Outono 2018, p.64.
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