Figura que parece uma personagem menor, mas que, para mim, é uma das mais interessantes d'Os Maias. Tomás de Alencar. Ele é a única personagem que está nos três tempos do romance: no de Pedro da Maia, como jovem amigo dele, na década de 1850; no de Carlos da Maia, como um poeta consagrado, em 1875-1877; e no regresso de Carlos a Lisboa, em 1897, já ancião. (...) [Esta presença quase obsessiva] significa que o romantismo está em todos os tempos d'Os Maias, que não se libertam dessa figura tutelar, alegórica, chamada Tomás de Alencar. Por vezes, ele surge de forma caricatural, até ao ponto do risível. Costumo chamar a atenção para o episódio de Sintra, no capítulo VIII. Acompanhado por Cruges, Carlos vai lá à procura, em vão, de ver Maria Eduarda. A certa altura, encontram o Alencar, porque ele simboliza o romantismo e Sintra para aquela geração era o romantismo. No final do romance, Tomás de Alencar é a única figura em que Carlos e Ega acabam por reconhecer o valor do que é genuíno. [«Em primeiro lugar no meio desta Lisboa toda postiça, Alencar permanecia o único português genuíno. Depois, através da contagiosa intrujice, conservava uma honestidade resistente. Além disso havia nele lealdade, bondade, generosidade. (...) Um bocado de piteirice não lhe ia mal ao seu feitio lírico. (...) Em suma, um bardo inestimável»]. No final do século XIX, o genuíno tinha sido exilado pela praga do francesismo. Quem depois retoma essa ideia, de uma forma muito cínica, é o Fradique Mendes (o António José Saraiva viu isso muito bem); vinha a Portugal ver o que era genuíno e, como em Lisboa já estava tudo afrancesado, ia para o interior do País.
Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, para a Ler, nº151, Outono 2018, p.60.
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