Eu sou a noite
eu sou a espera inútil, a vasilha que ressoa.
A minha alma é nova, mas espero desde sempre.
Como o deserto espera pela gota que há-de vir
eu não procuro e abro-me em espera, eu acredito
no cálice vazio, na cisterna por encher.
Eu sou a obediência, a saudade em sua teia.
Podem correr mil anos: eu cá estou como na origem
no tempo da promessa, na alegria então vertida.
Porque eu sou a memória transparente que não cessa
lembrança do desejo de um Um só, coisa nenhuma.
Em mim nada se cumpre a não ser a própria espera
silente e confiada, impecável e segura.
Em mim todos procuram, sem saber, alguma aurora
- mas só eu sou a aurora. Sou a noite e sou a aurora.
Carlos Poças Falcão, Sombra Silêncio, Opera Omnia, 2018, p.9.
[Deus presente no desejo de Deus, não na 'posse' (idolátrica): "em mim nada se cumpre a não ser a própria espera silente e confiada, impecável e segura"; que o Nada seja outro nome de Deus, escreve Halík, na esteira de Mestre Eckhart: "eu acredito no cálice vazio, na cisterna por encher"; aposta: "Eu sou a obediência, a saudade em sua teia"; precisamos de adimplemento: "como o deserto espera pela gota que há-de vir", completude que advém somente do exterior fundamento da pessoa, O Deus único, amor, não um ente entre os entes, não uma coisa: "lembrança do desejo de um Só, coisa nenhuma", e a "alegria então vertida", permanece, como na origem, a confiança existencial "no tempo da promessa". No que se tacteia sem forma completamente divisada, sem definição exacta, na fuga a uma completa "compreensão", "noite"; na promessa que permite o dia inicial, a alegria da promessa, "aurora"].
Sem comentários:
Enviar um comentário