Claro que o egoísmo acompanha a história da humanidade, não há aí nada de novo, mas nas sociedades antigas havia sistemas de referência que enquadravam o indivíduo, ao passo que nesta terra do vazio cada um é enviado a procurar-se a si mesmo. (...)
Quando o escrevi [A era do vazio] ainda não havia internet. Já falo de computadores pessoais, mas eram uma coisa de engenheiros. A Internet terá um papel maior nas transformações da nossa sociedade. Nos anos 50 havia o carro e a tv, eram esses os objectos-farol, e a partir dos anos 90 vieram os telemóveis e depois os smartphones. Hoje temos uma cultura do telemóvel. A tv e o automóvel já tinham favorecido o nascimento do individualismo, mas de tipo mais limitado. A tv remete para a vida privada, cada um a vê em sua casa, mas em família. E também o carro era a viatura familiar. A sociedade de consumo está no centro disto, mas no início era semi-colectiva. Hoje o individualismo é mais solitário. (...)
Se dissermos aos jovens que não comam carne, pode ser que alguma juventude urbana consuma menos, mas como é que vamos pedi-lo aos chineses ou aos africanos, que ainda mal começaram a comer carne? (...) As frustrações materiais são muito importantes para muita gente. As pessoas não querem reduzir o seu estilo de vida. Queixam-se de que não podem partir para férias, como se isso fosse uma violação dos direitos humanos. Dantes não iam de férias. Agora até os reformados, que costumavam ser os avós tranquilos que ficavam em casa a ver televisão, querem ir à Tailândia. E ao restaurante. E se não podem ir, é a barbárie. É claro que o consumismo transformou a nossa maneira de viver, e para as pessoas que ficaram fora da globalização, e que vêem o seu nível de vida a descer, há uma contradição entre necessidades e recursos que lhes torna a vida insuportável. É isto que explica o que se está a passar com os "coletes amarelos". A França é a 6ª economia mundial, a idade de reforma é baixa, a educação é gratuita, há segurança social, mas o capitalismo cria necessidades de tal modo fortes que as pessoas sentem que vivem num inferno. (...) Uma das fontes de mal-estar é o individualismo: "estou sempre a discutir com a minha mulher, não consigo exprimir-me no trabalho, detesto os meus colegas, não tenho a vida com que sonhei". O individualismo rompeu com o mundo da tradição e da religião, que regulava os comportamentos. As pessoas não eram felizes, mas aceitavam. Agora não aceitam. Uma parte dos "coletes amarelos" é gente que tem razões para ter medo, porque a sua situação se está a degradar. Mas vejo à minha volta jovens plenamente integrados na dinâmica da globalização, que vão trabalhar para Nova Iorque, têm agências de advogados, ganham muito dinheiro, e também eles dizem que têm uma vida de merda, porque não têm tempo para viver. (...) Veja o que aconteceu no Brasil. E na Europa já há gente que diz: se vivemos mal, estamo-nos nas tintas para a democracia liberal. Tocqueville dizia que havia uma tendência nas sociedades para preferirem a segurança à liberdade, e hoje há um movimento que vai nesse sentido. Se as democracias não são capazes de criar emprego, de oferecer perspectivas de futuro, as pessoas podem começar a achar que a democracia não funciona e preferir um sistema autoritário. (...) Macron foi eleito e um ano depois é verdadeiramente odiado. (...) [O voto flutuante] é mais uma manifestação do individualismo. Havia um voto de classe. O meu avô era operário e votava comunista, nunca votaria na direita. Hoje temos um eleitorado pouco ideológico, que olha e experimenta, um pouco na lógica do self-service. (...) Uma das patologias do individualismo é o de nos colocarmos no papel de vítima. (...) Acho que mesmo sem o Maio de 68, esta dinâmica do hiperindividualismo ter-se-ia produzido. Porque a força que dissolve a tradição, a comunidade, é o capitalismo. Marx percebeu isso muito bem. O capitalismo destrói tudo. Por trás do Maio de 68 está uma coisa mais forte do que a contracultura: o novo capitalismo, que não cessa de criar necessidades, de convidar ao prazer, de renovar constantemente o nosso quadro de vida. O capitalismo é que é a grande força revolucionária. (...) A esquerda pode continuar a falar, mas não vejo alternativa ao capitalismo. Íamos substituí-lo por quê? Quem tem essa chave? Que tipo de economia vamos colocar em troca? (...) Até percebo que se diabolize o capitalismo, mas não temos nada para pôr em seu lugar. (...) A nossa sociedade livrou-nos de um modelo de educação detestável, autoritário, em que às crianças cabia obedecer. Eu gosto de autoridade, mas não de autoritarismo (...) Não podemos ser nostálgicos, porque o que havia antes, com os professores e pais autoritários, era pavoroso. Agora a escola é demasiado livre e isso também não é bom. (...) O que nos impede de criar uma escola diferente? Não há nenhum sistema de educação obrigatório na Europa. (...) Se calhar é preciso estabelecer quotas para a imigração, um sistema que diga para onde vamos (...) Isto poderá ser chocante, mas creio que é a melhor solução política.
Gilles Lipovetsky, entrevistado por Luis Miguel Queirós, "O capitalismo é que é a grande força revolucionária", para o Ípsilon, Público, 25-01-2019, pp.18-21.
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