
Com grande expressão e extensão no tempo e no espaço, estão aí mudanças recentes, não acomodadas por instituições forjadas e formadas para uma outra era, que ameaçam tornar-se placas tectónicas em colisão (a tensão já se sente): desde o Neolítico, o humano lidara com a natureza, vivera a seu lado, estava no mundo; em larga escala, até meados do século XX, os humanos dedicaram-se à agricultura. Num ápice, este mundo, que estava ligado por mais de 10 mil anos, desaparece, uma daquelas cisões determinantes na compreensão do - de um novo - humano (processo de hominescência, formação de um novo humano; "esta ruptura pode ser um acontecimento que ultrapassa, e de longe, a história vulgar", p.21). A ida para as cidades, a tornar-se hegemónica, concentração até em megalópoles, um fenómeno igualmente novo ("o esgotamento brutal da população rural constitui uma das rupturas mais importantes e mais raras do século", p.21), conduz a uma inaudita e inédita ignorância do mundo. Somos acosmistas - como que vinculados e praticantes de uma teoria filosófica que nega a realidade do mundo sensível. Sejam mais fisicistas, reclama Michel Serres. Não podemos integrar o mundo, se não conhecemos, como hoje sucede, o mundo ("marinheiros e aviadores dirigem-se agora ao GPS, sem estrelas; os próprios astrónomos trabalham diante de um ecrã. Para saber o tempo que faz, já ninguém observa o céu, toda a gente vê a meteorologia na televisão. Acredita-se na bondade da natureza e na indulgência dos tigres", p.23). Para a terra, para o mundo rural, para o campo vêm, agora, os ricos da cidade, com uma segunda casa.
De um mundo onde o patológico era o norma, a saúde passou a ser a regra; nunca a mobilidade, de pessoas, animais, mercadorias se imaginou chegar aos níveis actuais; a esperança média de vida, ainda há pouco mais de um século, na casa dos trinta (e algo), agora, nos países desenvolvidos do Ocidente, na casa dos oitenta (e a cada ano, ganhos de três a seis meses, em esperança média de vida, segundo os peritos). A dor, experiência geral e quotidiana, da qual derivavam também comportamentos e morais, ficou entre parêntesis com antálgicos, analgésicos e anestésicos. Os medium de então não serão, por consequência, os que experimentaremos por estes dias. E outras consequências gráficas: o alistamento voluntário em exército de quem sabia durar pouco vs quem tem uma esperança média de vida muito longa (face a um passado recente) e que vê a própria instituição (militar) com grande cepticismo. Os casais que eram para 15 ou 20 anos e que agora serão para bem mais décadas - ainda que, em rigor, nem a atracção pelo exército, nem o valor fidelidade tenha que estar resolvido ou medido com tais relógios.
E o mundo foi, impressivamente, ignorado a Ocidente. Mas o mundo rebela-se contra o esquema, inventado na Idade Média e desconhecido da Antiguidade, (dicotómico) sujeito-objecto. O senhor (o humano) recebe hoje reverberações, gritos esdrúxulos do escravo (mundo), com este dominar ou submeter o dito senhor (clima, enxurradas, etc.) que o ignorava/desprezava/desconhecia (atente-se no esvaziamento dos peixes dos oceanos, principal alimento dos pobres). Em vez de cívicos, devemos ser cívitos, implicar a política numa relação a três, não já sujeito vs sujeito, ou sujeito vs sociedade, mas agora impondo-se o mundo numa equação a três que, a ser de disputa, a ser de vitória-derrota, implicará a destruição do humano.
E quem fala pelo mundo? Não, seguramente, os políticos, que desconhecem, quase sempre, e quase por completo, a ciência, o saber que está em jogo; carecemos dos cientistas (Ciências da terra e da Vida), dos que conhecem, de há muito, o pulsar da terra e da vida; e no entanto, eles não poderão ser os novos aristocratas (e neste caso, tecnocratas), a nova classe que se impõe sobre os demais - sucedendo, historicamente, assim, na teorização de Michel Serres, a sacerdotes ("a religião geriu os homens", p.108), militares ("pretendendo defendê-los [às populações], o exército governou-os e, frequentemente, escravizou-os" e economistas ("a economia começou a reger as suas vidas, por vezes implacavelmente", p.109), as épocas de Júpiter, Marte e Quirino. Tais classes têm lugar, ainda que não em sentido impositivo e hegemónico (na cidade). No que é urgente estudar hoje, na necessidade de recuperar no filósofo o cientista que originalmente também incluía, na existência de grande parte de políticos sem esta preparação, no futuro, na dinâmica e inovação, nas grandes descobertas que hoje estão nas ciências duras, Serres faz aqui lembrar George Steiner.
Serres propõe o seguinte juramento aos cientistas: "No que depender de mim, juro: não pôr os meus conhecimentos, as minhas invenções e as aplicações que delas possa retirar ao serviço da violência, da destruição ou da morte, do aumento da miséria ou da ignorância, da escravidão ou da desigualdade, mas, pelo contrário, devotá-los à igualdade entre os homens, à sua sobrevivência, à sua elevação e à sua liberdade" (p.108). Laicos, jurem não servir nenhum interesse militar ou económico (p.109).
O filósofo que principiou por se licenciar em Matemática e do qual sai um tom optimista sobre o papel da internet enquanto fautora de democracia, acabando com inacessibilidades ao conhecimento, saber (este) que estabelecia hierarquias - porventura, diga-se, um optimismo que não tem tido correspondência na realidade, agora que constatamos um papel muito negativo das redes sociais nas democracias, e partindo, de resto, de um pressuposto igualitário altamente discutível no que concerne aos graus de conhecimento, aptidão para tratar/trabalhar informação/conhecimento/saber, sugestão que desemboca no participai!, que se deseja, mas acoplando um "a tempo e a destempo" menos compreensível: "gostaria de escrever narrativas, canções, poemas, mil textos entusiásticos para encorajar todas as mulheres e todos os homens a intervir, a tempo e a destempo, em todos os assuntos públicos que lhes digam respeito ou que não lhes digam respeito" (p.114) - é um crítico da separação das ciências duras das humanas e sociais, considerando estas últimas "uma espécie de subsecção das ciências da vida e da Terra. E reciprocamente"(p.102). E vê uma "traição dos letrados" na ausência de uma acomodação, de um aggiornamento, de um novo programa para o mundo que resulte das grandes mudanças ocorridas no século XX: "confrontados com alterações mínimas quando comparadas com as nossas, os pensadores do século XIX promoveram dezenas de novos programas políticos, utopias e pseudociências incluídas. Perante os nossos abalos gigantescos, os do século XX, nada" (p.115). Entre os grandes desafios do nosso tempo está o confronto do saber (conhecimento) e (com) da ética. A filosofia deve meditar muito bem nos conflitos inesperados entre a ciência e o direito, entre o bem comum e a verdade (p.108). E ao humano, sobretudo, compete mobilizar uma inteligência inteira: "Quanto ao Homo, detém a inteligência. Não cessou de utilizar o seu assinalável poder, mas a maior parte das vezes para dominar, ser o primeiro, tornar-se o mais forte, esmagar todas as coisas e todos os humanos à sua passagem, ganhar. Usando-a como uma arma, venceu a natureza e os seus pares miseráveis, no decurso de uma evolução guerreira que, de facto, se cumpre nessa vitória, mas é um triunfo tão paradoxal que pode desencadear a erradicação da espécie. Como evitar uma tal derrota? Mudando a arma nociva: sim, a inteligência. Ainda do lado da peçonha e da mordedura, ela deve mudar o mais depressa possível e sob risco gravíssimo, da vontade de poder à partilha, da guerra à paz, do Ódio ao Amor" (p.116)
A informática propõe novos modos de armazenar, tratar, emitir e receber informação. Antes dela, a impressão, no século XV e a escrita, antes de Jesus Cristo, haviam gerado mudanças igualmente de alcance tremendo. Tecnologias suaves, mais do que tecnologias duras na base de grandes movimentos. Entre 1960 e 1965 dão-se as últimas revoluções camponesas em França, da Bretanha a Avinhão; entre 1960 e 1962, dá-se o Concílio Vaticano II que, pela sua actualização, "perturbou, ou melhor, pôs em desequilíbrio a maior religião mundial"; em 1968, os movimentos estudantis espalhavam-se por toda a parte enquanto a bomba atómica se tornava nuclear. Muita gente que só raciocina com base na política e na economia, não reparava nestes três acontecimentos decisivos do século pretérito dado que "afectavam o que há, porventura, de mais longo e de mais profundo nas nossas tradições e nas nossas culturas: o religioso, erudito ou cultural, o militar, o económico" (p.43), ou seja, as classes enunciadas por Georges Dumézil que nos trouxeram até ao presente. Para lá, ou no subsolo da crise financeira que se tornou económica, outros elementos se tocam.
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