Macron está à espera há ano e meio. Foi eleito, criando um forte élan europeu, fez quatro discursos sobre a Europa de grande fôlego: na Sorbonne, em Atenas, no Parlamento Europeu e em Aix-la-Chapelle. Tem uma ideia. Não houve resposta alemã. (...) Se Macron não consegue fazer a Europa com quatro discursos, ela [Angela Merkel] também não pode fazê-la só com um gesto generoso ou porque a Alemanha é a economia mais poderosa. E aí faltou-lhe uma visão. Se me perguntassem hoje qual é a visão da Europa de Angela Merkel, eu não saberia responder. (...)
Na Itália, por exemplo, incluindo no interior do Governo, há os que querem mais despesa pública e os que dizem que não querem mais impostos. A Catalunha é uma revolta fiscal disfarçada de reivindicação identitária (...) É isso [a Catalunha não quer partilhar a sua riqueza com o resto da Espanha]. A Bélgica é um pouco a mesma coisa. Na Grã-Bretanha, há a questão escocesa. Acreditámos que a balcanização era um fenómeno apenas do Leste. Hoje temos uma balcanização também a Ocidente. (...) A Europa não está preparada porque, durante demasiado tempo, manteve a convicção de que a relação transatlântica lhe permitia prosseguir a integração europeia sem ter necessidade de se preocupar muito com as questões de natureza geopolítica. (...) Aliás, havia uma visão britânica, que também convinha aos países da Europa de centro-leste, mais ou menos assim: a soberania é nossa; a segurança é dos EUA e da NATO; e a prosperidade é da União Europeia. E agora descobre-se que isto deixou de funcionar. (...) A leste, Putin mantém esta espécie de guerra híbrida na Ucrânia, algo que é visto como uma ameaça, sobretudo pelos países como a Polónia ou os países bálticos, que estão na primeira linha. E há a ameaça a Sul, com a decomposição dos Estados, a guerra, o terrorismo, a imigração. A isto soma-se a incerteza sobre o nosso aliado americano. Se, nestas circunstâncias, os europeus não são capazes de pensar que o seu destino comum deve exigir uma resposta comum, então estão condenados. (...) Seria preciso uma liderança política forte e é precisamente o que nos falta. Não é o problema de a Comissão fazer isto ou aquilo, é o problema da vontade política dos Estados. Estamos perante uma mudança brusca na História - se a Europa escolher sair da História, acabará dominada por um mundo onde contam a China, os EUA e outras grandes potências como a Rússia ou a Índia. Acabará irrelevante. (...) O que idealizámos depois da Guerra Fria acabou. Quem não compreender isto, está condenado. Continuar a dizer que a Europa é apenas a prosperidade que saiu da história é renunciar a tudo. E isso, mais tarde ou mais cedo, conduziria ao apagamento e à fragmentação. Se queremos ter alguma influência, comecemos pelo Leste e pelo Sul. (...) O que é novo nesta situação é que acreditámos que o centro difundia os seus valores e as suas normas para a periferia, incluindo a estabilidade e a democracia. Hoje é o inverso que se verifica. A interpenetração é tal que quase deixou de haver centro e periferia.
Jacques Rupnik, Professor de Ciência Política, politólogo da Sciences Po, entrevistado por Teresa de Sousa, Público, P2, 20-01-2019, "Hoje temos uma espécie de balcanização a Ocidente", p.9
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