domingo, 13 de janeiro de 2019

Da televisão como instrumento de poder


Num conhecido artigo publicado em 2007 no Quarterly Journal of Economics, os economistas Stefano Dellavigna e Ethan Kaplan analisam o impacto da cadeia de notícias conservadora Fox News nas eleições de 2000. Como o canal, difundido por cabo, não estava disponível para todo o território americano simultaneamente, os autores calculam o ganho eleitoral do Partido Republicano entre as eleições de 1996 e 2000, comparando as localidades em que a Fox News estava disponível com as restantes. Os autores calculam que a Fox News terá convencido cerca de 200 mil eleitores a votarem republicano. Na Florida, onde depois de uma recontagem seguida ao minuto em todo o mundo George W. Bush ganhou a AlGore por 537 votos, estimam que a Fox News terá convencido cerca de dez mil eleitores a votar em Bush. Isto não acontece apenas na democracia americana. Outro artigo influente, publicado na American Economic Review em 2011 por Ruben Enikolopov, Maria Petrova e Ekaterina Zhuraskaya, economistas russos, mostra que a introdução da televisão independente na Rússia levou o Partido da União, de Putin e Yeltsin, a perder um quarto do seu eleitorado nas legislativas de 1999, em favor dos partidos da oposição.

Susana Peralta, A televisão é um instrumento de poder. Não brinquem com ela!, Público, 11-01-2019, p.8.


P.S.: Não costuma merecer especial escrutínio a escolha dos comentadores, pelas televisões nacionais, de modo muito especial as que emitem "em aberto", para perorarem sobre a nossa vida colectiva. E, no entanto, a cada comentador convidado oferece-lhe-se, pelo menos, cerca de 1 milhão de telespectadores (e cidadãos) a quem doutrinar ou entreter. A que eles, os ditos opinadores, podem acrescentar umas dezenas de milhares, uma, duas centenas de milhares - mas a base de um milhão e qualquer coisa existia sem eles. Uma coisa é certa: longe vão os tempos de Popper/Condry em que se esperava que quem fosse falar conhecesse, soubesse, lesse, acrescentasse, fosse alguém bem mais preparado do que o receptor, fundando aí - nesse lastro intelectual - a sua legitimidade, autoridade para se pronunciar. Essa atitude, hoje ainda mais do que então, seria rotulada de "paternalista". E as obrigações de pluralismo, de contraditório político, ou de elevar as plateias, acolhidas com um esgar de desprezo.

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