
Um estudo europeu divulgado esta semana evidencia que os trabalhadores portugueses de escritórios estão entre os que mais se sentem descontentes com o local de trabalho. Nada menos do que 92% dos portugueses que trabalham em escritórios, segundo um estudo da Staples conhecido esta semana, experimentam fortes sentimentos de frustração no seu local de trabalho. 84% destes mesmos trabalhadores admitem mudar de emprego. 10% pensa constantemente nesta possibilidade. 22% começam a dar mais atenção aos anúncios de emprego; 15% tentam equilibrar-se através do apoio de amigos, a quem fazem queixas frequentemente; 15% sonham, por exemplo, com evasões, como uma escapadela até à praia.
E, no entanto, quando, de facto, trabalhadores nestas circunstâncias mudam de emprego, mostra o estudo da Staples, apenas experimentam uma alteração de curto prazo. Segundo os autores do estudo, "esta pesquisa revelou um problema. Mostrou-nos que demasiados trabalhadores em Portugal estão frustrados. Encontram-se prisioneiros de locais de trabalho que não resultam para eles (...) ter o local de trabalho certo pode ter um impacto inédito nos trabalhadores. Porque quando o seu local de trabalho funciona, os trabalhadores sentem-se mais produtivos, realizados e felizes (...) A forma como as pessoas são geridas (por elogio e reconhecimento, em vez de atribuição de culpas), uma carga de trabalho razoável e trabalho flexível, se necessário, bem como um local de trabalho de boa qualidade, são factores fundamentais para atingir satisfação no emprego (...) Quando iniciam um novo emprego, um quarto (23%) ficam frustrados no seu novo local de trabalho logo nos primeiros seis meses". E, de acordo com Cary Cooper, especialista em Psicologia Organizacional, "a maioria das pessoas passam mais horas no trabalho do que em casa, pelo que o local de trabalho é mesmo importante para a saúde, o bem-estar e o desempenho. Como conclui este relatório, 89% dos trabalhadores procuram a realização no trabalho, e o ambiente físico e psicológico são essenciais para atingir isso". Em síntese, "a situação é tão má que, de facto, são muitos os trabalhadores de escritório em Portugal que estão regularmente à beira de entregarem a carta de demissão no trabalho; em busca de um escape ou de um ambiente diferente".
[a partir de Sofia Martins Santos, I, 16-01-2019, pp.22-23]
P.S.: a obra de Philippe Van Parijs, Real Freedom for all, que relançou o debate acerca do Rendimento Básico Incondicional que alguns faziam remontar, por exemplo, às ideias de Thomas Paine (sécs.XVIII-XIX), procurava, em primeira instância, como o próprio título indica que cada um pudesse ter a liberdade real de se dedicar à actividade que lhe aprouvesse, ou para a qual tivesse vocação. Antes, pois, de considerações acerca da complexa relação entre a automação e o emprego, por exemplo, estava em causa a liberdade (de a pessoa se dedicar a algo de que efectivamente gostasse), sendo que, para tal, considerava o autor, precisava de possuir um rendimento mínimo que o pudesse dispensar empregos que o não realizariam e que o frustrariam inclusivamente.
Mesmo que se entenda que o remédio para a enorme frustração que vai nos trabalhadores portugueses, o que resulta, de resto, em elevadas taxas de absentismo ao trabalho, não seria este, ele aponta para uma realidade muitas vezes elidida, silenciada, ignorada mas que passa por muito do que, para tantos, é a sua qualidade de vida, a sua satisfação com a existência. Não, evidentemente, o único factor, porventura não o mais decisivo, mas seguramente entre os mais determinantes.
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