A do populismo como emenda, ou «correcção» à democracia. A evocação de uma crise está sempre presente na génese do populismo: no caso da Europa, por exemplo, a crise evocada é sobretudo da democracia, e de confiança das pessoas no sistema que as governa, e da descrença generalizada. E nesse caso, a irrupção populista pode ser positiva. Perante uma classe política autista, enclausurada sobre si própria e incapaz de se renovar, o movimento populista - reafirmando o papel central do conflito ideológico na política - pode contribuir para abrir o sistema político quando este se encontra fechado. (...) Ora, quando o pêndulo democrático está demasiado próximo das elites políticas - e os anseios e preocupações dos cidadãos, sobre temas diversos, estão a ser negligenciados -, o populismo pode ajudar a empurrá-lo para o «povo» (ou para os segmentos da população desencantados e defraudados por um sistema que sentem não os representar). Neste caso, e ao contrário do que se costuma pensar, em vez de ser um sintoma de «doença» na democracia, o populismo pode ser uma manifestação de vigor e saúde, ajudando na sua regeneração. Nesse caso, é a ausência do populismo que deveria causar apreensão, e não a sua presença.
José Pedro Zúquete, Idem, pp.121-122.
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