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É de salientar que Fradique Mendes não existe nas páginas de um romance: existe proto-heteronimicamente.
Ou seja, Eça antecede Pessoa na heteronímia?
Os pessoanos não gostam de o ouvir, mas sim. Fradique é uma figura que escreve cartas a várias pessoas e até ao próprio Eça.
Porque não é ele já um heterónimo?
Não foi desenvolvido no plano do estilo. Nesse aspecto, o Fradique ficou o Bernardo Soares, isto é, ficou-se pela prosa, que é igual à do Eça. Às vezes, o Fernando Pessoa é tratado em Portugal como uma espécie de prodígio de circo. Não, ele é um escritor genial, mas que ampliou até às suas últimas consequências tendências que vinham do século XIX...
...e estudou tudo.
Por isso é que o Pessoa quis silenciar o Eça. Porque sabia muito bem que certas coisas vinham de trás e que outros já as tinham feito ou começado. Tenho a absoluta certeza de que ele, a quem não escapava nada, sabia muito bem que o Eça tinha criado uma figura chamada Fradique Mendes. O Pessoa escreveu a Mensagem. Tinha o projecto de ser o supra-Camões. Sabe um nome que nunca aparece na Mensagem? Camões. Os escritores têm esta tendência para silenciarem as suas referências ou para tentarem desconstruí-las ou menorizá-las, porque querem ter eles a prerrogativa do original.
Têm de matar o pai, é lógico.
Sim, sim. Mas acontece que, às vezes, há coincidências terríveis. O Eça escreve várias cartas ao Oliveira Martins em que explica que vai retomar o Fradique (que, não esqueçamos, vinha de 1869) e o Oliveira Martins não o percebe, porque ele explica aquilo como se estivesse de facto a acontecer: «Olha, o Fradique, não sei se te lembras dele, morreu. Tinha umas cartas, agora vou publicá-las». Até que o Eça escreve uma terceira de três cartas, em que explica ao Oliveira Martins que o Fradique Mendes não existiu e que ele, Eça, está apenas a inventar uma figura e a escrever cartas em nome dela; portanto, trata-se de cartas que nunca foram escritas por um sujeito que nunca existiu. Aí fica tudo claro. Qual é a data desta carta? É de 12 de Junho de 1888. Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888. Ou seja, o Eça inventou o Fradique num dia e o Pessoa nasceu no dia seguinte.
Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, Ler, nº151, Outono de 2018, p.60.
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