domingo, 20 de janeiro de 2019

Em tempo de fúria(s), um filme a (re)ver


Resultado de imagem para 12 homens em fúria

Como com um único espaço cénico, e com um filme a preto e branco, se consegue captar e fixar as atenções adolescentes durante (um pouco mais de) hora e meia. De 1957, 12 homens em fúria, o filme de Sidney Lumet, desenrola-se num único espaço cénico: a sala na qual decorre a deliberação de 12 jurados (cidadãos norte-americanos) acerca da autoria de um crime de homicídio, supostamente cometido por um rapaz de 18 anos contra seu pai. Mal entram na sala, os jurados não têm dúvidas: o jovem cometeu, mesmo, o crime em causa e a condenação deve avançar. Apenas um dos jurados, um arquitecto (Henry Fonda), prefere a dúvida metódica, não se abalando à pressão de ser o único a responder not gulty no grupo; o seu não conformismo é suficientemente convicto para evitar que as certezas inabaláveis do grupo, ao fim de dois minutos somadas, terminem na cadeira eléctrica para o réu. Desmancha prazeres, este jurado, de ar distinto e com suficiente auto-confiança, não permitirá que a querela termine e um dos homens possa ir para casa ver o jogo de futebol do seu clube, que um outro aplaque o ressentimento das suas relações com a descendência, aqui projectadas; que um terceiro faça do desprezo social para com os de baixo a motivação do seu voto. As pequenas-grandes questões (subtileza, nuance, ambiguidade e complexidade são muito bem convocadas), a divisão do grande caso em pequenas partículas/problemas, que este jurado irá, paulatinamente, levantando, somará, sucessivamente, novos cépticos, ao longo de horas, de um calor abrasador e de uma tensão notavelmente construída (não faltam os cata-ventos, as pressões psicológicas para o voto ir num dado sentido, o tolo que apenas se quer despachar e ir embora e tanto lhe faz qual seja o resultado [o caso de banalidade do mal mais destacado no filme], as discussões ad hominem, o ostracismo das pequenas identidades: o velho da sala, o tipo que veio de um bairro de lata, etc.), pela diversidade de ascendência social, caracteres, histórias de vida, estruturas psicológicas e mundividenciais. Uma elegia à dúvida, à racionalidade, à não aceitação de dados não devidamente questionados e escrutinados, um ataque ao non-sequitur, às verdades aparentes, às conclusões tiradas precipitadamente, às falácias. Quando podemos dizer que temos conhecimento sobre algo (?) é, ainda, questão epistemológica que ressalta desta obra. Um filme que acredita no poder da palavra, que reclama a validade da argumentação, que insiste, apesar de todos os condicionamentos, na possibilidade de se chegar à verdade - mesmo que esta seja "não sabemos"; há uma "dúvida legítima", "razoável" e, nesse caso, não se pode condenar. Além do mais, pedagógico - que não moralista. Em tempo de fúria, como aquele que vivemos, não raramente sem espaço para um módico de conversação decente, um filme, decididamente, a (re)visitar.

Sem comentários:

Enviar um comentário