
Acho que tudo isto vai criar uma clivagem entre os produtos jornalísticos baseados na tradição e os produtos de qualidade superior, feitos no respeito da ética, que estão disponíveis para quem estiver disposto a pagar, e tiver dinheiro para isso, e tiver interesse pela informação. (...) O resto das pessoas ou não tem meios ou não está interessado num jornalismo de qualidade, e há muita gente que vai passar a consumir cada vez mais um jornalismo de terceira categoria, e a clivagem vai tornar-se cada vez maior. (...) Os historiadores dos media diriam que uma das maneiras de encarar esta viragem é não a considerar como um universo radicalmente novo, mas sim como a continuação do que o jornalismo era dantes. O digital é um estranho mundo, mais estranho do que a época dos «meios de comunicação social», em que as massas tinham acesso a uma informação completamente subsidiada e com o mesmo nível de qualidade - essa é que é a excepção. Sempre houve uma diferença entre a quantidade de informação e de saber que está disponível para os ricos e os pobres, para os que, por motivos profissionais, precisam de saber tudo sobre o resto do mundo e para os que não precisam, para quem tem acesso ao poder e para quem não tem. E acho que em muitos aspectos estamos a regressar a essa época. (...) Vamos supor o seguinte: imagine uma cidade nos EUA de há trinta anos, antes de a Internet se tornar determinante, e imagine que ordenou todos os habitantes da cidade segundo o seu grau de informação, da pessoa mais informada à menos informada, e vai observar o percentil 90 e o percentil 10. É claro que a pessoa posicionada no percentil 90 está muito mais informada do que a pessoa no percentil 10. Essas duas pessoas tinham acesso aos mesmos noticiários; basicamente, viviam no mesmo ambiente informativo e mediático. Quer as pessoas estivessem extremamente interessadas nas notícias, quer não tivessem interesse nenhum, o produto não variava grande coisa, porque não havia muito por onde escolher. Voltamos ao presente: imagine a mesma cidade. A pessoa posicionada no percentil 90 vai ter de pagar as assinaturas online de vários jornais, ou já subscreveu dez newsletters por email, ou tem uma lista de contas fiáveis do Twitter, contas de pessoas inteligentes nas suas áreas de interesse; e a pessoa no percentil 10 estará provavelmente a jogar Candy Crush no telemóvel. O fosso que separa a pessoa muito bem informada da pessoa menos informada, aumentou; e é nesse sentido que há um regresso a uma época pré-massificação, antes de de a publicidade ter permitido a criação dos meios de comunicação de massas. Um dos elementos-chave do velho modelo era o pacote de variadíssima informação que se comprava. Mesmo quem estivesse interessado só numa parte, tinha de comprar tudo; portanto, se o que lhe interessava era saber o resultado do jogo de véspera, tinha de comprar o jornal inteiro, porque era no jornal que estava a informação. (...) Acho que não há maneira de recriar a experiência que foi a comunicação de massas. (...) Há pessoas que preferem a chamada soft news, lêem as notícias das celebridades, estão no Instagram o dia inteiro; há outras que vão exclusivamente à procura das últimas notícias da política e do governo.
Joshua Benton, investigador do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, entrevistado por Cristina Margato, O irreversível declínio dos media tradicionais, Electra nº4, Dezembro 2018, p.55-57.
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