Descobriu-se, nas prisões que foram feitas depois das manifestações, que, embora houvesse militantes de extrema-esquerda e de extrema-direita, mais os segundos de resto, que uma grande parte das pessoas presas, por exemplo nos actos de pilhagem, eram gente comum que nunca tinha participado em manifestações ou em partidos políticos. Deve manter-se a distinção entre o movimento e os casseurs, mas não é só isso. Os gilets jaunes perceberam muito bem que o seu eco nos media e a atenção constante da sociedade se devia apenas ao facto de manterem um elevado nível de violência. Compreenderam que havia uma correlação muito forte entre o ritual dos sábados e a atenção dos media. Perceberam que ocupam as cadeias de televisão em contínuo justamente porque praticam a violência. (...) Em democracia, a forma de resolver os conflitos é a negociação. Mas como negociar com gente que recusa qualquer representação? Eles eliminaram imediatamente aqueles que, numa ou noutra altura, quiseram arvorar-se em porta-vozes. Em segundo lugar, como iniciar uma negociação com um movimento cujas reivindicações são um catálogo absolutamente diverso em que cabe praticamente tudo, incluindo coisas que são absolutamente contraditórias entre si? Foi talvez para contornar este problema que Macron lançou o seu grande debate. Neste momento, o único sítio onde pode haver algum debate são as mairies (as câmaras municipais), com presidentes que são democraticamente eleitos e que são, aliás, o pessoal político que, em França, recolhe maior confiança por parte dos cidadãos. Foi uma escolha inteligente de Macron, mas é uma descoberta tardia do Presidente, que tinha ignorado os municípios - é este, de resto, o outro aspecto importante do debate actual. (...) Há muitas causas para os gilets jaune, mas uma delas é o desaparecimento dos corpos intermédios - sindicatos, patrões, associações profissionais, mas também câmaras, que são os mediadores entre os cidadãos comuns e o sistema político. Macron desdenhou-os ao ponto de se recusar a participar no Congresso dos Maires da França e reduziu os seus meios financeiros. Escolher agora as câmaras é uma coisa boa. Não haver temas tabu também é. Aliás, Macron participou agora [na semana passada] no primeiro debate numa câmara da Normandia, que durou sete horas. Esteve sete horas de pé numa sala apinhada de gente comum, mas também pelos chamados "notáveis locais". Diz-se que se saiu muito bem. Mas a maior dificuldade vai ser ultrapassar o cepticismo reinante perante a política e perante as elites políticas. (...) Temos a questão da fiscalidade e um conjunto de problemas sociais ligados ao que podemos chamar de classes médias baixas, que sofrem um pouco por toda a parte no contexto da mundialização. E que não são diferentes das pessoas que votaram pelo "Brexit" ou que alimentaram o Tea Party na América. É o mesmo perfil de pessoas, acompanhado pela mesma rejeição do peso dos impostos e da sensação de que o dinheiro resultante do crescimento vai não sabem bem para onde, mas nunca para elas. (...)
Em Paris, a moda entre os BoBo [designação dada a uma parte das elites citadinas: "Bon chique, bon genre"] é não ter carro. Eles podem dispensá-lo porque dispõem de uma rede de transportes eficaz. Para as pessoas das cidades, a questão política mais importante deste século são as alterações climáticas e o ambiente. Do outro lado, há este movimento que não tem o mínimo interesse pelas alterações climáticas e que apenas diz: eu preciso do meu carro para ir trabalhar, levar os filhos à escola e ir fazer as compras do mês à periferia. (...) Há dois mundos. A França urbana das grandes cidades que é bastante próspera, e a França periférica. Mas o que deixou as pessoas ainda mais espantadas não foi tanto o carácter súbito do fenómeno, mas esse ódio, essa cólera que se exprimiu espontaneamente e sem disfarces. Esta raiva às elites é nova e atinge as elites, mas também as instituições, que exige a dissolução do Parlamento e que se exprime contra um Presidente que foi eleito há menos de dois anos. Mas é preciso pôr as coisas na sua dimensão. Hoje, é um movimento que reúne 50 mil a 60 mil pessoas num país de 66 milhões. O que eles conseguiram, através da violência, foi ocupar o espaço público e isso é novo. (...) Outra coisa muito importante. Normalmente, quando há uma crise como esta numa democracia, as pessoas viram-se para a oposição. (...) Hoje ninguém pode dissolver a Assembleia, a não ser alguém que queira dar o poder a Marine Le Pen. Basta olhar para as sondagens para ver que nenhum outro partido conseguiu beneficiar com os gilets jaunes. Nenhum. Os republicanos, que estavam em 10%, continuam aí. Os socialistas mantém-se à volta de 6%. Além disso, ninguém os ouve. Desapareceram. Nesse contexto, se a opção fosse eleições legislativas, não haveria qualquer alternativa. (...) Ela [Le Pen] pode ganhar as eleições mas não tem meios para governar. As sondagens não chegam a dar-lhe 25%. (...) Acreditou-se que [Marine Le Pen], com o seu duelo perdido com Macron, estava acabada. Está de regresso. Por enquanto, parece ser a grande beneficiária da crise.
Jacques Rupnik, Professor de Ciência Política, politólogo da Sciences Po, entrevistado por Teresa de Sousa, Público, P2, 20-01-2019, "Hoje temos uma espécie de balcanização a Ocidente", pp.4-9
P.S.: apenas uma precisão: de acordo com dados publicados em diferentes jornais, os "coletes amarelos" reunirá cerca de 80/90 pessoas (o que, de qualquer forma, não implica nenhuma alteração do argumento aqui citado, apenas se procura o maior rigor possível).
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