Existe qualquer coisa
uma zona intermédia de sentido, região
entre experiência nua e linguagem consumada,
onde o entendimento faz doer. Porque aí crê,
mas não sabe dizer; porque conhece e no entanto
não sabe responder; porque é assente e todavia
oscila nas palavras e sem elas nada vê.
Menos que intuição, menos que fé, é já encontro.
Aí, que o entendimento é mais obscuro (uma nascente
que o matagal oculta e os silvados interditam),
aí, que as decisões, as mais terríveis, são tomadas
(e não nos é possível rastreá-las, tão secretos
se vão os seus meandros, que se perdem até Deus),
aí, onde algo fala e algo há que já escuta
(esse lugar do verbo, casa e campo do poema),
aí, na indefensão, nos entregamos e vivemos.
Carlos Poças Falcão, in Sombra Silêncio, Opera Omnia, 2018, p.12
[a bela capa, óleo sobre tela de João Filipe Bogalho, como que nos remete para esta zona intermédia, de cores não totalmente definidas, com o seu quê de cinzento e verde, porventura marinho, monte e mar, planície, lusco fusco, rumor, encontro, sem defesas; de onde vem o verbo, poço, fundo, subjetivo-obejctivo, sem cisões]
Sem comentários:
Enviar um comentário