
A verdade é que os muros nunca deram bom resultado. Nem a Grande Muralha da China impediu os ataques dos mongóis, nem o Muro de Adriano evitou as invasões bárbaras. Assim como os 28 anos que durou o Muro de Berlim não impediram o colapso do comunismo e a reunificação da Alemanha. (...) Um muro não regula a imigração legal. Pode limitar, mas não trava a imigração ilegal. Sobretudo se a guerra ou a pobreza continuarem na origem e o mercado de trabalho oferecer uma vida melhor no destino. E, finalmente, não só não resolve como agrava as relações de cooperação necessárias entre o país de origem e de acolhimento. Trump sabe tudo isso e muito mais. Sabe, porque as estatísticas oficiais o dizem, que o fluxo migratório para os Estados Unidos caiu constantemente na última década e atingiu em 2018 o seu nível mais baixo. Sabe, porque os serviços de imigração o explicam, que a maioria dos imigrantes ilegais não entra a salto no país. Entra de forma legal com visto turístico e permanece ilegal com o visto expirado. E também sabe, porque o Departamento de Estado recentemente o confirmou, que não há "evidência credível" da passagem de terroristas na fronteira do México. Porquê, então, a obsessão do Muro? Porque o Muro se tornou na metáfora do seu governo. E não é o Muro em si. É a polémica do Muro. É a polémica que serve a sua estratégia ideológica e política. A ideia do Muro serve, primeiro, para tornar visível a separação entre o nós e o eles e alimentar a sua ideologia nativista e proteccionista. E serve, depois, para polarizar a sociedade americana, porque é da polarização que vive a sua estratégia populista.
Nuno Severiano Teixeira, Muros nunca deram bom resultado, Público, 16-01-2019, p.9.
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