domingo, 13 de janeiro de 2019

'O fim do fim do mundo'


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Se o leitor se detiver no meio de uma floresta do Sudeste Asiático, é possível que ouça e a seguir sinta no peito um sibilo ritmado e profundo. Parece meteorológico, mas é o bater das asas de calaus-bicórnios que voam em direcção a uma árvore de frutos maduros. Têm uns enormes bicos amarelos e umas possantes coxas brancas; parecem um cruzamento entre um tucano e um panda gigante. Ao vê-los de ramo em ramo, comendo tranquilamente fruta, talvez dê consigo a chorar, movido pela mais rara de todas as emoções: a de pura alegria. Não tem nada que ver com aquilo que deseja ou possui. É o simples e maravilhoso facto do calau-bicórnio, a quem a sua presença não podia ser mais indiferente.
A radical singularidade das aves é parte integrante da sua beleza e do seu valor. Estão sempre entre nós, mas nunca nos pertencem. São os outros animais dominadores do mundo que a evolução produziu, e a sua indiferença para connosco devia servir-nos de lição e recordação de que não somos a medida de todas as coisas. As histórias que contamos sobre o passado e imaginamos para o futuro são construções mentais que as aves dispensam. As aves vivem pura e simplesmente no presente. E no presente, apesar de os nossos gatos, os vidros das nossas janelas e os nossos pesticidas as matarem anualmente aos milhares de milhões, e apesar de algumas espécies, em particular nas ilhas oceânicas, terem desaparecido para sempre, o seu mundo ainda continua bem vivo. Em todos os cantos do globo, em ninhos pequenos ou grandes como medas de feno, há crias que rompem o ovo à bicada e saem para a luz do dia.

Jonathan Franzen, Da importância das aves, in O fim do fim da Terra, D.Quixote, 2018, p.55

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