Gorbatchev não fumava e limitava o uso de álcool; essencialmente, alguém que é visto como educado e assisado (p.168). Ao contrário da maioria de líderes locais do Partido Comunista, Gorbatchev leu, mesmo, Marx e Lenine (p.173). Ironicamente, a URSS dava aos seus melhores quadros a possibilidade de viajar para o Ocidente (ir ao Ocidente era, pois, como que uma prenda para os melhores do partido). Até 1970, as viagens de Gorbatchev haviam-se limitado ao bloco soviético - Alemanha Oriental, Checoslováquia e Bulgária -, mas, entre 1970 e 1977, ele fará 5 visitas à Europa Ocidental (p.175). A primeira viagem ao Ocidente, dos Gorbatchev, foi, em 1971, a Itália - sendo que, em Moscovo, recebendo uma delegação de comunistas italianos, durante o Festival Mundial da Juventude, de 1961, se apercebera do carácter extrovertido e descontraído dos seus visitantes (no que contrastava com a sua experiência russa quotidiana) e, bem assim, que aqueles nunca cumpriam horários -, país no qual, observando as «contradições do capitalismo» - calçado a preços proibitivos, casas vazias porque os pobres sem dinheiro para pagar as rendas, as desigualdades brutais que constatou na Sicília entre os bairros de luxo dos endinheirados frente aos bairros imundos dos periféricos -, mas do qual levou, essencialmente, não reflexões de tipo ideológico, mas muito mais impressionado por os italianos falarem a várias vozes, terem opiniões divergentes sobre todos os assuntos e, nomeadamente, a política, em claro contraste com o falar a uma só voz do povo russo - se exceptuarmos o que se sussurrava nas cozinhas. "Abertura", "afabilidade", "frontalidade" foram traços marcantes dos italianos para o casal Gorbatchev. Este, sentiu-se inesperadamente bem, confortável no Ocidente, surpreendentemente em casa, apreciando, ainda, de sobremaneira, a cultura e as artes (italianas; p.176). Em 1972, visitariam a Bélgica e a Holanda; em 1975, a Alemanha Ocidental e, em 1976, a França. Numa quinta perto de Toulouse aprendeu três lições que lhe pareceram preciosas: "a vantagem, para os camponeses, de participarem em cooperativas que lhes fornecessem tecnologia moderna e conselhos sobre processamento e marketing; como a prática de contrato direto de processadores aumentava o incentivo para um trabalho de qualidade; como o interesse próprio os levava a organizar a criação de gado de modo adequado às condições climatéricas" (p.177).
As viagens ao Ocidente proporcionaram a Gorbatchev uma informação que era muito escassa na URSS e gerida com pinças pela nomenklatura: "o que mais o espantou foi a prontidão dos europeus ocidentais de falarem livremente acerca de tudo um pouco, até mesmo o seu governo e os líderes políticos. «Discordavam amiúde entre eles sobre estas questões, ao passo que nós tínhamos de mostrar uma unanimidade total de opiniões em todas as questões - tal como acontecia no nosso país, salvo durante as conversas privadas que mantínhamos à mesa da cozinha" (p.178). Todavia, Gorbatchev 'ocultou' a forma como aquelas viagens «abalaram a nossa crença a priori na superioridade da democracia socialista sobre a democracia burguesa». Ele e a esposa concluíram que «as pessoas lá vivem melhor. Porque viverá o nosso povo pior do que os de outros países desenvolvidos? Esta questão sempre me atormentou» (p.178).
Os Gorbatchev não colocaram a filha numa escola de elite (como poderia supor-se, dada a sua condição), mas numa normal; a filha dos Gorbatchev, Irina, ajudava a engomar as camisas, em casa, local onde discutiam tudo. Pensou ir para a Faculdade de Filosofia de Moscovo, replicando o trajecto da mãe; mas, perante a insistência dos pais que a não queriam longe de casa visto ser filha única, acabou por candidatar-se, e ser aprovada, na Faculdade de Medicina de Stavropol - ela que no Secundário tinha nota máxima a tudo, excepto a Desenho. Já no decorrer do curso, o pai nunca quis privilégios e excepções para a filha (como acontecia com descendentes de outras figuras gradas do regime).
Nesta biografia de Gorbatchev, também as grandes questões sobre o homem, e a relação entre a barbárie e a cultura, podem ser colhidas em pequenos passos, como este sobre Yuri Andropov, líder da KGB, um homem que gostou de Gorbatchev e dele deu boas indicações: "que tipo de chefe de polícia secreta cantava músicas de Vysotsky ao mesmo tempo que enviava dissidentes para hospitais psiquiátricos?" (p.166)
[a partir de William Taubman, Gorbatchev. A biografia, Saída de Emergência, 2018]
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