quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O percurso de Gorbatchev


Enquanto os seus colegas de partido corriam atrás de mulheres, bebiam até cair para o lado, participavam em grandes caçadas, Gorbatchev afirma-se por estar acima desse provincianismo. Era, por exemplo, muito respeitador das mulheres, mesmo que a sua atitude não pudesse ser propriamente rotulada de feminista (à maneira ocidental), o que na Rússia, aliás, seria mal visto e compreendido. Além do mais, os Gorbatchev eram dados a uma intelectualidade que nas províncias não era acompanhada pelos apparatchick. Raisa e Mikhail, por exemplo, prescindiram, deliberadamente, de ter televisão e o futuro homem da Perestroika orgulhava-se de ter uma filha apaixonada pela leitura - já Raisa, "com a ajuda do marido, na década de 1960, conseguiu adquirir exemplares da Bíblia, dos Evangelhos e do Corão, tudo obras difíceis de encontrar num estado ateu", p.140). Possuíam um apartamento modesto, quando comparado com quem tinha idênticas funções partidárias na então Checoslováquia - assinala um comunista checo que então os visita. E será, precisamente, a um checo comunista que lhe havia garantido que aquele país iria a caminho da democracia que Gorbatchev dirá que isso não seria possível de suceder na Rússia (p.143).  Mas Gorbatchev não deixou de ser apontado a dedo por a sua mulher, Raisa, não ser uma grande trabalhadora doméstica. E dele sempre se dirá que se deixava convencer pelos outros, que os ouvia sempre, a sua mão não era de ferro (o que numa cultura autoritária como a soviética não deixará de lhe valer críticas). Depois de ter cursado Direito, Gorbatchev fará um segundo curso, também motivado por este poder ser instrumento de ascensão pessoal no partido, por correspondência, no Instituto Agrícola no qual a sua mulher lecciona. Por momentos, hesitará em prosseguir uma vida intelectual/académica em vez de prosseguir a sua via política-partidária. Mas muito novo, será escolhido como chefe regional do partido em Stavropol (sendo que Fyodor Kulakov, que assumiu a liderança em Stavropol em meados da década de 1960, foi determinante na ascensão de Gorbatchev). E rapidamente ascende a Secretário do Comité Central em Moscovo, fazendo parte do Politburo. Ainda que com reserva mental crescente, em 1968 condenará os reformistas checos e elogiará a intervenção soviética (na repressão da Primavera de Praga). Acima da média, porventura, em vários comportamentos e no desassossego intelectual, mas também, evidentemente, cumprindo o roteiro que o manteve no topo do partido (o que o levará a dirigente máximo da URSS, que contava com 15 Repúblicas; a Rússia tinha 83 regiões).
Tendo, durante anos, entendido que a estratégia para melhorar o sistema, a economia, a produção, a Federação era promover novos quadros, gente mais empreendedora no Partido, Gorbatchev irá notar, paulatinamente, que tal antídoto não irá ao fundo do problema quer era de raíz estrutural: "o grave excesso de centralização da economia, em que todas as decisões cruciais eram tomadas no topo. Como resultado, ele e outros líderes regionais eram obrigados a fazer «inúmeras viagens à capital», onde tinham de adular os grandes chefes e «suportar linguagem abusiva e má-criação por parte dos oficiais». «A tentativa supercentralizada de controlar cada pormenor da vida de um estado imenso drenava a energia vital da sociedade.» Muito mais tarde, depois de se tornar líder soviético, Gorbatchev iria ainda mais fundo, remontando os problemas que via em Stavropol à essência mais básica do socialismo estatal soviético, ou seja, o monopólio do poder político e económico pelo partido comunista. Nesse processo seria informado por uma série de livros heréticos de autores ocidentais esquerdistas, traduzidos e publicados em edições extremamente limitadas pela Progress Publishing House de Moscovo, obras essas que conseguiu obter na sua condição de chefe regional do partido. Muitos anos depois, Gorbatchev afirmaria orgulhosamente que ainda guardava alguns desses volumes nas suas prateleiras: História paralela da URSS, de Louis Aragon, O modelo francês de socialismo de Roger Garaudy, História da União Soviética e História do Marxismo de Giuseppe Boffa, bem como livros sobre o líder comunista italiano Palmiro Togliatti os famosos cadernos da prisão de Antonio Gramsci" (p.153). B.Sadykov preconizou reformas que nos anos 80 Gorbatchev levaria a cabo, mesmo que, a quando da publicação dos escritos daquele, tenha sido este um seu crítico implacável (p.151).

[a partir de William Taubman, Gorbatchev. A biografia, Saída de Emergência, 2018]

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