domingo, 6 de janeiro de 2019

Os alunos e "Os Maias"


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Uma coisa é certa e pode ser explicada e mostrada: é que Os Maias obedecem a uma arquitectura muito bem construída, onde tudo bate certo. Outra coisa é se o aluno tem ou não tem apetência para ler um romance com esta extensão, com longas descrições, etc. A esse propósito, digo duas coisas. A primeira tem que ver com um grande equívoco que existe no sistema educativo em Portugal. Nem todos os alunos têm de gostar loucamente de ler - até porque nem todos os alunos gostam de Física, de História ou de Matemática. Tem de se aceitar isto. O que não se pode é aceitar a ideia de que, como nem todos os alunos gostam de ler, se retire do currículo as obras difíceis - isso é uma desistência cobarde e politicamente irresponsável. Segunda coisa, e esta é talvez a mais difícil: é preciso recuperar na relação pedagógica e no ensino a ideia de esforço. O menino não gosta de ler? O menino senta o rabo e vai ler. O menino não desiste: tem que ler. (...) Dou como exemplo o caso do meu filho, que é engenheiro informático. Anos depois de o ler na escola, voltou ao Eça e hoje lê-o com gosto. É preciso insistir e dar a conhecer. Não se pode gostar daquilo que nem sequer nos é dado a entender. Há outra coisa que eu não consigo aceitar nestes traumas que se armam à volta das obras de leitura integral e das obras grandes. E se os alunos não gostam de fazer equações de três incógnitas ou de estudar certos teoremas? Vamos deixar de as fazer e de os estudar?

É como se o Português e a leitura fossem parentes pobres de tudo o resto.
De facto, a desistência só é tolerada e legitimada nestes casos. Porquê? (...)

São obras difíceis? [Os LusíadasMensagem, Peregrinação, Os Maias] Paciência. Ninguém disse que aprender era fácil ou que é uma festa.  (...)

[Aos jovens] Falta-lhes maturidade [para captarem o poder de sedução de Os Maias]. Por isso digo que a leitura d'Os Maias na escola não é aquela que se faz mais tarde. É mais um projecto de leitura para o futuro, e não há nada de mal nisso.


Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, Ler, nº151, Outono 2018, pp.61-62. 

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