Temos de pôr isso [esquema clássico da tragédia presente em "Os Maias"] num contexto já de desgaste da crença positivista e naturalista. (...) Depois, enquanto o Sr.Guimarães corre acima a buscar os papéis, o Ega fica solitário a pensar que, num século onde tudo é tão organizado, não podia ser que duas crianças se desencontrassem na vida e depois se reencontrassem...[«Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia-Idade! Mas numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escriturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papéis, com tanto registo de baptismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser!]. E este «não podia ser» é, de facto, o que há de mais trágico nesta história. É a posição de um Eça cada vez mais convencido de que a ciência não chega e de que há forças superiores e algo em que eu, pessoalmente, cada vez mais acredito: a intervenção do acaso nas nossas vidas. Carlos é sobretudo um herói que tinha tudo para ser uma figura excepcional, mas a quem o destino mostra que ninguém está ao abrigo do trágico. Como se sabe desde a Antiguidade, os deuses têm inveja de quem é feliz ou superior, entendem isso como uma espécie de ousadia que é preciso reprimir.
Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, «São obras difíceis? Paciência. Ninguém disse que aprender era fácil ou que é uma festa», Ler, nº151, Outono 2018, pp.55-56.
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