segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Política portuguesa


1.Sempre que o líder de uma bancada parlamentar que apoia um dado Governo, seja ele qual for, fala, é certo e sabido: vem aí propaganda, ataque às oposições (!), perguntas previamente combinadas com o PM, escrutínio zero ao Executivo.

2.Claro está que sendo o partido (que sustenta o Governo) e o Governo duas entidades distintas, é indispensável dar também tempo de intervenção ao partido (maioritário). Todavia, legislatura após legislatura, debate quinzenal após debate quinzenal, nada com o menor interesse ou relevância é perguntado pelo partido-almofada ao seu Governo, com excepção de algo que sirva para exaltação do próprio governo, um anúncio a fazer pelo PM, a deixa necessária para este brilhar.

3.Luís Montenegro foi líder parlamentar da bancada do partido mais votado, e um dos que sustentava o Governo, na legislatura 2011-2015.

4.Até esse momento, creio que poucos, mesmo entre os mais atentos à vida política portuguesa, tinham reparado (a sério) em Luís Montenegro.

5.Houve, depois disso, quem invocasse os tempos e medidas difíceis (para os que delas foram objecto) desse consulado para justificar uma "autoridade" em alguém cujo cargo consiste em tecer loas, cantar glórias dos Governos a que assiste. Nem isso me pareceu minimamente substantivo para preencher uma "personalidade" política relevante (que não se vislumbrava).

6.O conjunto insuportável de banalidades, debitado durante longos e penosos 20 minutos, por parte de Luís Montenegro, no momento de apresentação da sua candidatura à liderança do PSD,  na última quinta-feira, corroborou a imagem cinzenta de 4 anos de entusiasmos garantidos à partida.

7.Mas corroborou, ainda, uma outra ideia que ficara de semanas de textos no Expresso onde nada adiantaria. Nesse sentido, José Eduardo Martins foi corrosivo, mas certeiro: então, o companheiro tem uma coluna quinzenal, permanente, e nela nada diz, e agora candidata-se porquê/para quê?

8.Evidentemente, a "autoridade" de Montenegro provinha do facto de, desde a parte final do passismo, percorrer as distritais mais recônditas, fazendo o circuito necessário ao modo como se forjam líderes no - em parte do - nosso sistema partidário. 
Por outro lado, é certo que Montenegro se apresentava tão "guerreiro" e "basista" quanto necessário, surgindo, ademais, como segunda figura de uma corrente que cristalizava no PSD, depois de 4 anos de intenso combate político e de muitas críticas - o que tende a reforçar a coesão interna.
Foi, ainda, qual Napoleão, a Congresso, mostrando o que Abreu Amorim prometera desde o dia menos um da liderança de Rui Rio: este, iria ter oposição interna e não era a brincar.
Mas, apesar de se filiar na mesma corrente que a do passismo, fica clara a falta de autoridade vista a partir das "elites": Vasco Pulido Valente, regressado ao espaço público, desfia um sem número de entrevistas nas quais garante que a única figura com "autoridade" é o próprio Passos Coelho. Isto não significa, bem entendido, que essas mesmas "elites", dado o seu próprio posicionamento (ideológico), à falta de Passos, não condescendam com Montenegro. Para elas, tudo menos um Rio de um perfil mais centrista.

9.Embora muita gente do PSD profundo desconheça Miguel Morgado, e tenha escutado com surpresa a disponibilidade da sua candidatura, trata-se de alguém com um perfil bem diverso. Dele, não poderia surgir uma descrição como aquela que, sobre Montenegro, a RR publicava na sua página, na passada sexta-feira: "há quem o acuse de nunca ter lido um livro até ao fim...". Intelectual, elaborado, com obra publicada com densidade, interessante, pretende que a ida do PSD para o poder não seja apenas para gerir. Sem visão. Pode até entender-se que, por via da sua forte dimensão intelectual, Miguel Morgado possa deslocar-se em demasia de um patamar de algum pragmatismo e consenso governativo (supra-governos), ao serviço de um projecto de uma transformação muito significativa do partido e do país. Morgado não pede, aliás, menos do que uma "vitória cultural" prévia - de uma perspectiva de centro-direita ou de uma direita mais claramente assumida como tal - a uma vitória eleitoral (porque entende que, sem aquela, esta não serve de nada) por parte desta. Neste sentido, de resto, Morgado, ironicamente e apesar de se situar, porventura, no pólo ideológico oposto no interior do PSD, não se afasta de Manuela Ferreira Leite: ambos afirmam o primado doutrinário - e das consequências do mesmo para a polis - sobre o resultadismo dos lugares (ainda que, verdade se diga, o programa de Manuela Ferreira Leite, em 2009, não fosse propriamente o que um cientista político chamaria de social-democracia pura e dura, tendo, em realidade, um claro lastro liberal, com o qual nunca é confrontada; ainda que haja obras de natureza científica que o tenham identificado). Morgado considera que o Governo de que participou, o de Passos Coelho, já não foi propriamente gestionário - no que bem contraria as teses, como as de João Miguel Tavares, de que tal Executivo se limitou, de modo mecânico, à aplicação das medidas exigidas pela troika, envolvendo, mesmo, e ao invés, uma dimensão "revolucionária". Parece, o programa de Miguel Morgado, ir, aliás, na linha e no credo muito liberal (ao nível da economia) do Governo Passos, e a maneira como fala do "socialismo" - que chega quase a sugerir com uma conotação "comunista" - acentua um certo tom carregado (tanto na forma como no conteúdo); mas que o seu modo de encarar a política traz, ainda, o aroma de quem está ao serviço de um ideário, e não se limita ao poder pelo poder, isso parece-me claro.

10.Marques Mendes, como se sabe, pretende ser Presidente da República. Seria, aliás, um Presidente, estou em crer, que, longe de personalidades grotescas que vão emergindo e pululando pelo mundo, asseguraria, como outros felizmente também na nossa vida pública, um inequívoco módico de dignidade e defesa de um conjunto de valores consensuais na sociedade portuguesa que respeitariam a função. Mais: penso que foi dos melhores líderes da oposição enquanto ocupou esse dificílimo cargo em Portugal.
Outra coisa é o modo como procura chegar a Belém. Ora, relativamente ao método, desde logo, é demasiado, confesso, by the book, na versão olf fashion (mas a responsabilidade e o retrato não é só, nem fundamentalmente dele, mas do modo como funcionamos como sociedade e como fazemos emergir os nossos principais representantes): anos seguidos de comentário na televisão; camisolas de Ronaldo para a moderadora; elogios e caneladas distribuídas salomonicamente, entre partidos, como modo de afirmação de isenção (trata-se não de um ponto de chegada depois de observados os problemas, mas de um a priori para garantir o centro movediço); seguidismo do popular Presidente Marcelo; comentário tudólogo; apreciações bastantes sobre o clube da luz e a selecção nacional; ida, como grande senador supra-partes, a programas como, por exemplo, o "Bloco Central", da tsf; lançamento de um livro; prefácio de Jorge Sampaio, posfácio de Marcelo Rebelo de Sousa; apresentação da obra por parte do treinador Fernando Santos (19 dos 20 programas mais vistos, no ano de 2018, em Portugal, foram jogos de futebol).
Acontece que a preferência pelo "brilhante futuro" de Montenegro, há muito tomada, levou Mendes, sempre com a linguagem e as metáforas de antigamente, a ir um pouco longe de mais na procura do seu contributozinho para a remoção de Rio, em favor do advogado de Espinho: Rio e Sócrates, afirmou Mendes no soundbite preparado e pensado completamente, "são irmãos siameses" (sabendo que os pormenores do como, e em que assim seriam, já não ficariam tanto na memória dos telespectadores). Como não poderia ser de outra forma, a Direção de Rio empertigou-se e jurou nunca mais. Os comentários de Marques Mendes aos desastrosos discurso e timing de Montenegro não podem, pois, ser vistos e lidos de outra forma: a perspectiva de que Montenegro esteve bem, e de que saem a ganhar ele e Rio com esta disputa, mais não é do que wishfull thinking destinado a toldar os incautos - já que não podemos ganhar, ao menos que empatemos. Montenegro, que foi reactivo à intriga e não a susteve, até pode vir a ganhar o Conselho Nacional que, ainda assim, não deixa de se ter diminuído com a (impressionante) falta de conteúdo e de espessura do seu desafio.
Os que se abespinharam e rasgaram vestes com a avançada de António Costa, no PS, frente a António José Seguro, num período pós-eleitoral (europeias), são os mesmos, em vários casos, que agora rumam com toda a convicção contra Rio (mesmo que este não tenha ido ainda às urnas). 
Não vejo nenhum "golpe de estado" em desafios que têm acomodação estatutária; vejo um duplo padrão de muita gente, isso sim, e não me admira.

11.Erros meus, má fortuna... Rui Rio, ao abdicar do histrionismo, de cavalos de batalha permanentes, da demonização dos adversários, da possibilidade de chegar a alguns acordos (que assinou), recentrou, por essa via, o partido. Bem mais na forma, registe-se portanto, do que no conteúdo que, se nas políticas demográficas parecia, de algum modo, ir numa linha mais social-democrata, o mesmo se passando no que diz respeito à questão da especulação imobiliária, por outra parte, quer nos protagonistas quer no que preconizou para a Saúde, pareceu ir em sentido diverso. E mesmo na questão da demografia deixou a ideia de que os números da proposta que apresentou não estavam bem estudados ou consolidados, e pouco insistiu no tema. Inábil, imensas vezes, mau a comunicar - incluindo falar alemão para desviar atenções -, com uma equipa que escolheu e que lhe trouxe enormes engulhos e quase arrumou o prometido "banho de ética". Deixou demasiadas vezes o palco vazio, ao qual a política tem horror, mesmo se teve sentido de estado ao não aproveitar cada catástrofe para fazer política com o sofrimento alheio (e nisso a comparação com o antecessor é-lhe francamente favorável). Poucas causas, poucas bandeiras, poucos actores para falarem pelo partido, um amorfismo pouco compreensível, bem como um conflito, como que desejado por ambas as partes, com o grupo parlamentar que nada lhe trouxe de positivo. Muitos erros próprios, é verdade, a somar a uma campanha de choque e pavor, diária, e antes do minuto zero do seu mandato pelos saudosos do consulado anterior.

12.PSD e CDS somaram, juntos, em 2015, 38% dos votos. A PaF perdeu cerca de 700 mil eleitores em 4 anos, entre pensionistas e camadas sociais desfavorecidas, que assim reagiam à legislatura 2011-2015. Não é muito especulativo dizer que o CDS terá contribuído, se a votação rasou o habitual, com 8 a 10% dos 38% mencionados. Isso é o mesmo que dizer que o PSD terá rondado os 29-30% dos votos de então. 
À época, não existia o partido Santana Lopes, aliás Aliança. Agora, este, surge nas sondagens com 4%. Quase todos os militantes conhecidos (da Aliança), do nível nacional ao local, resultam de cisões no PSD. Quem de 29% tira 4% fica com 25%, sensivelmente o que as sondagens atribuem, hoje por hoje, ao PSD. Rio não conseguiu ir buscar pessoas para além dos 29% com que, mais coisa menos coisa, partia; isto é, a ideia que entraria nos "abstencionistas" ou de que iria buscar votos ao "centro" não parece ter, até agora, dado resultados.

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