quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Quotidiano



Na apresentação do novo livro de Afonso Reis Cabral, em Vila Real. Não li nenhum dos livros até agora publicados pelo escritor, mas, na sessão desta semana, fiquei a conhecer um pouco mais da sua biografia e do seu olhar para a literatura (nos termos do próprio). 
Iniciou-se na poesia, seguia estritamente Pessoa, nunca achou que tivesse grandes resultados por aí. Virou agulhas para o romance - libertando-se, achando incompatibilidades, do poeta que precocemente fora (para o romancista que pretendia ser em definitivo).  Na escrita, pode partir, e tem partido, da realidade, mas para a "deturpar, corromper"; é um exercício de que gosta, uma alquimia para ver onde desagua. O seu primeiro romance, "O meu irmão", fala de um menino com síndrome da Down - no fundo, um menino como seu irmão lá de casa (ele que tem também irmãs mais velhas). Para falar de como alguém com síndrome de Down que é invejado, na sua "felicidade inata", por quem não possui nenhuma "necessidade especial", colocou-se na pele de um irmão, ainda que com uma idade e perfil muito diferentes do seu. Ao escritor Afonso Reis Cabral interessa a narrativa, contar uma história; afasta-se de correntes para as quais é a linguagem, uma depurada construção frásica, que interessa; não quer reproduzir, é certo, por completo, o mundo tal como ele é, nos seus romances, mas assume partir dele para o "deturpar" depois. Entre os seus autores de eleição, conta-se John  Steinbeck e, na breve leitura de um excerto da nova obra vinda de publicar, logo uma leitora atentíssima descortinou a presença de As vinhas da ira. O autor não recusou, bem ao invés, a influência concreta de tal título.
Crescendo numa casa com farta biblioteca, Cabral confessa que das matemáticas sabe, se souber, a tabuada. Com naturalidade, cursou na área da Literatura e veio a trabalhar em editoras. Estava na Aletheia quando lhe ligaram a informar do Prémio Leya. Do outro lado da linha, estava Manuel Alegre. "O senhor que idade tem? Não sei...Como se chama? Sei lá bem como me chamo!...". Excitação e energia a disparar pelas ruas contíguas. Ainda o livro não tinha sido apresentado, e já lhe estavam a perguntar pelo segundo volume. Sentiu essa pressão, agora aliviada por uma obra que nasceu a partir de um encontro fortuito com uma peça de jornal, no décimo aniversário do caso Gisberta. Noutra altura, a situação passar-lhe-ia ao lado, não seria uma temática que o entusiasmaria sobre nenhum prisma, incluindo o social. Reis Cabral não critica uma escrita engajada, mas entende que quando o compromisso - político, social, etc. - é mais forte/importante (num livro) do que a escrita, a literatura, a coisa dá em panfleto. Ora, foi o modo como a peça estava escrita no jornal que o cativou e o levou a arrumar o que tinha já programado para um segundo livro. Muito organizado, o escritor delineia, sobre a secretária, o programa de cada capítulo. Todavia, agora é hora de encerrar uma página; fala com a jornalista que assinara a peça sobre Gisberta, tem acesso às fontes desta, e lê o processo judicial sobre o caso. Pergunto-me até que ponto a abordagem é sociológica - as vivências, com a família, a sociedade, as formas de socialização daquelas crianças/adolescentes até praticarem o mal -, filosófica - porquê o mal gratuito? -, antropológica - que é o homem? -, entre outras. Uma amiga sussurra-me que do que lera não lhe parece que o autor siga por aí. Insisto: lendo o processo, chegou (ou abeirou-se de) às motivações dos miúdos que acabaram a linchar aquela pessoa que era, também, travesti, seropositivo, etc.? Estaríamos perante um caso de aporofobia? No seu diálogo com a plateia, havia citado, a propósito, o Laranja Mecânica...Aceitou as eventuais explicações dos miúdos (a descrição destes sobre o que os motivou a fazer o que fizeram), escutados por um juíz? Leu-as à letra? Como romancista abalançou-se ao porquê de elas terem cometido aqueles actos? Penso que não vai por aí, pareceu-me um pouco naif, ainda não tem experiência de vida para isso...voltam-me a dizer. Experiência de vida integra, acho que deve integrar, experiência de leitura - o que tinha um significado para o caso (aquelas questões integrarem, ou não, a sua indagação, mesmo que múltiplos e plurais possam ser os ângulos a partir dos quais possamos olhar para o mesmo problema). Claro, estas questões que (me) colocava  - e não era o local exacto para as poder lançar, detidamente; não tinham a gramática das idades bem mais precoces das demais perguntas que, com naturalidade, vinham da plateia - continuam sem resposta e à espera que alguém termine leitura. Mas um dado pareceu-me prometedor na sua ambiguidade, complexidade, contradição e que não me recordava, já, dessa verdadeira tragédia, sobre a qual, à época, também li atentamente: os mesmos meninos que acabaram por linchar Gisberta, haviam sido aqueles que a haviam ajudado e mantido relações de afecto, de proximidade, de amizade com ela. Javier Marías diz que não devemos estranhar a traição dos mais próximos, o mundo e o homem sempre foram o mundo e o homem. Quando naturalizássemos o mal, digo eu, estaríamos tão adaptados como um corpo tão estragado que não sente a dor. 
A minha ida à apresentação não satisfez, afinal, as curiosidades que trazia em mim acerca deste segundo livro, mas confirmou um orador com inteligência emocional, metier a lidar com a plateia - "o gajo", "merda", e outros à vontades típicos do tempo, por entre casual do traje - e em termos estéticos afastado, pergunta inevitável, do (já longínquo) parente Eça de Queiroz. Quem quiser escrever hoje como Eça está votado ao fracasso, refere, aduzindo que, consigo, nunca um narrador afastado, longe de marcar presença na acção funciona.
Depois do primeiro livro, Afonso Reis Cabral despediu-se da editora para a qual trabalhava, para se dedicar a ser escritor a tempo inteiro.

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