sábado, 19 de janeiro de 2019

Refundações


Ora, a massa dos excluídos desatou a votar em quem falava a linguagem deles, deselegante, inculta, grosseira e, para nós, chocante. Essa massa nunca teve voz: nunca teve direito de cidade. Pois conquistou-a na segunda década do século XXI (...) A "lumpenpopulação" é radicalmente, essencialmente heterogénea. O que a aglutina não é de esquerda nem de direita, porque não são de esquerda nem de direita a desilusão, a frustração, o ressentimento e o sofrimento. Uma hipotética refundação da "direita clássica" já não tem cabimento. Precisa-se de uma nova direita que começasse por banir um ideário e um discurso comprovadamente falidos. Como falidos estão o discurso e o ideário de esquerda, que agridem ainda mais porque pressupõem um humanitarismo exuberantemente desmentido pelo passado, e pelo presente. A "direita clássica", se quer ter uma palavra a dizer na sociedade futura, tem de inventar um novo esperanto perceptível e apelativo aos descamisados do mundo ocidental

Maria Fátima Bonifácio, Que futuro para a "direita"?, Público, 19-01-2019, p.9.

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