A série "O sentido da Beleza", editada pela Rai 5, é, a meu ver e do que conheço, do melhor que, por esta altura, tem passado nos canais portugueses (no caso, na RTP2, terças-feiras, cerca das 23h30). No vídeo que aqui se partilha, no original italiano (sem legendas), a relação Ocidente/Oriente no que à beleza (e arte) diz respeito é o ponto. Trata-se do segundo episódio da série, do qual se deixa um pequeno apontamento:
Todos somos, à nossa maneira, ptolomaicos, o Sol gira à nossa volta: dêem a um Europeu um mapa e colocará a Europa ao centro, com a China encontrada, à direita, num ângulo inferior. E, sem embargo, já se vê, os chineses, nos seus mapas, têm a China ao centro.
Observa o narrador: em Itália, tudo é "bello"! Quer dizer, o vocábulo, ou os vocábulos que contendem com a beleza, são omnipresentes no discurso comum, do homem médio italiano. Algo correu bem, foi positivo? "Bello!". A comida estava boa? "Bello!". Para quem vem de um contexto anglo-saxónico, a estranheza é a nota dominante face a esta linguagem. Em Itália, de resto, mora uma cidade ícone de beleza por excelência: Veneza, a cidade europeia mais rica no séc.XIII. O comércio, naturalmente, fundamental a esse respeito. As trocas com o Oriente cedo foram um elemento importante da vida europeia.
O Professor Roberto Terrosi, autor de "Beauty in Orient", estudou, aprofundadamente, a perspectiva asiática de Beleza. É capaz, inclusivamente, segundo este documentário, de ser o único filósofo ocidental a fazê-lo.
A arte islâmica tem várias fases de desenvolvimento: a) a primeira é relativa ao mundo árabe e ao mundo persa; b) depois, há outra fase, relativa ao mundo otomano. São fases muito diferentes. Na 1ª fase, do mundo medieval, o universo islâmico exporta cultura e arte, influenciando muito a noção de Belo da Europa - algo que vai do amor cortês à arquitectura gótica; a partir do Renascimento, os papéis invertem-se e o Médio Oriente começa a importar a cultura de beleza e a estética do Ocidente; começa a seguir os cânones ocidentais. Veneza e Constantinopla uniam as culturas ocidental e oriental. Quando os turcos tomaram Constantinopla não se viram (auto-compreenderam) apenas como conquistadores (séc.XV), mas quiseram igualar ou suplantar o brilho e o prestígio do Imperador Bizantino.
Desde o século XVIII, e o Iluminismo, diz Edward Said, autor de Orientalismo, que a cultura ocidental oferece uma visão condescendente da arte árabe, retratando os árabes como inferiores, face a uma cultura ocidental apresentada como racional, flexível, superior.
Orientalismo não é uma corrente pictórica, mas uma nova visão que perpassa um conjunto de artistas europeus, estendida desde o Norte de África, ao Médio Oriente e ao Extremo Oriente. Alguns artistas foram testemunhas directas da realidade oriental, outros partiram de álbuns fotográficos. Os temas orientalistas de finais do séc.XIX eram vários: as odaliscas, cenas da vida quotidiana tais como mercados, banhos turcos e festivais religiosos. As odaliscas são mulheres ocidentais - porque o sultão viu nelas beleza. No Ocidente, a noção de que a mulher bela é burra é um estereótipo de mulher retratado em 1700. No mundo do Oriente Próximo, a mulher deve ser inteligente; isso, simultâneamente, dá medo (aos homens) e atrai. No mundo oriental, a velhice representa um momento (existencial) de poder e respeito. E, por outro lado, quando a beleza desaparece, a mulher torna-se importante, mais até do que antes. A magreza, a Oriente, é vista como algo negativo. Uma pessoa saudável deve ser um pouco rechonchuda. Isto é completamente diferente do padrão ocidental. Aqui, a mulher tem que lutar contra o tempo - que lhe altera o corpo; o modelo ideal de mulher não passa do 42.
Entre os artistas que fazem a ponte Ocidente-Oriente podemos encontrar Xin Yin. Vive em Paris, mas nasceu no noroeste chinês. Aprendeu a pintar, curiosamente, ao reproduzir os slogans comunistas da revolução cultural. (Re) interpreta obras de velhos mestres como Da Vinci e Boticelli - com um toque oriental (como podemos ver pela/na sua Vénus).
De Ocidente para Oriente, uma antropóloga como primeira mulher ocidental a ser gueixa no Japão. As gueixas são entertainers e anfitriãs. Tradicionalmente, tinham clientes do sexo masculino, mas actualmente também têm clientes do sexo feminino. A tradição da gueixa já remonta há mais de 1200 anos. Literalmente, gueixa significa artista. No caso desta primeira ocidental a receber (em 2007) autorização formal para ser gueixa o nome adoptado foi Sayuki.
Na língua japonesa, não há tempo verbal futuro. No Ocidente, o belo é uma filosofia; no Oriente, faz parte do dia-a-dia; o Japão não tem uma reflexão abstracta desenvolvida na estética. Os ocidentais fazem a distinção entre arte e ofício; entre a expressão e a filosofia da Beleza; no Japão, essa distinção não existe. Como explica o Professor Ken-Ichi Sascki, a teoria da arte não existe no Oriente; o conceito de arte não tem ali acomodação. Estritamente falando, (também) não havia conceito de arte no Ocidente até ao sé.XVIII. Havia pintores, arquitectos, músicos, literatura, poesia, mas não havia o conceito de arte. Antítese do mundo platónico, no Oriente as imperfeições não são uma ausência (de Beleza), mas a própria forma da Beleza.
Tóquio foi construída no início do séc.XVII, obedecendo à ideia de iki - elegante, sofisticado. Critério de beleza chique. Os japoneses adoram o que é giro, adorável, kawaii. Desde a guerra da Coreia (1950) que, na Coreia, a ideia de beleza se alterou significativamente. Os soldados americanos trouxeram filmes de Hollywood e, com a admiração pelas suas estrelas pelo público local, o ideal de beleza mudou. A Coreia do Sul tem o maior número de cirurgias plásticas per capita; é a Meca das cirurgias plásticas. Mais cirurgias faciais nos asiáticos, ante a procura por um corpo modelado, por banda dos ocidentais (que, tradicionalmente, mostravam mais o seu corpo do que os orientais).
[edição Massimo Brega]
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