Se conseguisse apenas caminhar, quando caminho;
apenas inspirar e expirar; orar apenas,
em estado de oração - seria um vivo; os meus sentidos
noticiavam Deus ao mesmo Deus, em transparência;
o Espírito viria a este lado como Ele é
do Lado Seu, encarnação sem mácula, trazendo
ao limite o que é ilimitado, a uma forma
o informal, à vigília o que é Sono Profundo.
Sono Profundo! O girassol aberto da existência,
a nitidez da paz de cada ser visto do centro!
E o milhão de grânulos imersos no fulgor,
moventes, semoventes, capturados no seu âmbar
de alegria, no seu arco vital de uma tontura.
Porém, quando caminho, faço escolhas - e o mal
não está no escolher, mas na fractura de me ver
em parte num caminho, em parte noutro e num terceiro
e em muitos mais ainda, dividido, em surda guerra
de mim comigo mesmo, acusado, amotinado,
desfeito por soberbas, estultícias, teimosia.
Também a oração é facilmente afugentada
devido à predação dos pensamentos, à batida
dos erros que há por trás dos pensamentos; ao fascínio
das frases que armadilham esses erros; e ao cerco
do código do mundo que fraseia os pensamentos.
E do Sono Profundo, inteligência transparente,
assim me troco em ânsia, espessidão, vigília e medo.
Se conseguisse apenas caminhar, quando caminho;
apenas inspirar e expirar; orar apenas,
em estado de oração - seria um vivo.
Carlos Poças Falcão, Sombra Silêncio, p.11
[antes e para lá das palavras, de todas as distracções, de todo o supérfluo; recriminação pelo que gizamos, do ruído que criamos, e nos afasta do Ser; nesse concentrado sem pensamentos, sem palavras para dizer, no silêncio, e apenas a sermos encontrá-Lo-íamos, encontrá-lo-emos; sem estratégias de fuga - o passado, o futuro -, sem circundar por objectos e objectivos, sem planos, sem gramática que não a do silêncio; estando no mundo, fazemos escolhas, e conseguir que elas estejam à altura do que professamos, do que entrevemos, do que intuímos e tocamos, sem nos fracturarmos sem vários que nos impedem de saborear a aproximação a esse concentrado em que nos realizamos; aqui, de novo, assoma, de algum modo, o Guardini de "O espírito da liturgia"]
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