sábado, 5 de janeiro de 2019

Sumário semanal


*De acordo com as contas de Nuno Garoupa, no Público, o PS precisa de obter 1,5 milhões de votos nas europeias de Maio, para chegar aos 40% nas legislativas de Outubro. Sem o milhão e meio de eleitores, então a maioria absoluta nem sequer se considerará como possível. Já Paulo Sande, da Aliança, para ser eleito, deverá conseguir alcançar 120 mil votos.

*Um dos mais reputados especialistas em Direito do Trabalho, em Portugal, o Prof. Fausto Leite, ainda no Público, qualificou a greve dos enfermeiros, nos termos em que tem sido levada a cabo, como "escandaloso abuso do direito à greve".

*A Ler, apresentando Identidades, de Francis Fukuyama: "Fukuyama no seu melhor momento, com um tema fundamental". 

*Bruno Vieira Amaral, também na Ler, recordando recente notícia de The Guardian que dava conta do fecho de 130 Bibliotecas, no Reino Unido, no último ano: "quando é preciso cortar nos custos a tesoura das autoridades tem uma atracção especial por bibliotecas. Os custos destes cortes para toda a sociedade só serão visíveis dentro de alguns anos. Acabarão por afectar hábitos de leitura, sim, e acabarão por contribuir para o esquecimento de obras e de autores que, hoje, já só sobrevivem nas estantes das bibliotecas públicas. Mesmo que as editoras possam recuperar alguns nomes do passado (...) é sempre muito maior o número daqueles que não encontram espaço no mercado editorial e, como tal, vão desaparecendo lentamente da memória colectiva" (p.15). 

*"Também há várias correspondências que parecem ser dignas de nota, da perspectiva da Arquipatologia de Montalto, na poesia portuguesa quinhentista. Por exemplo, a "insânia dos amantes" é uma designação compatível com a caracterização que Camões faz n'Os Lusíadas, na voz da ninfa Galateia, do comportamento do vento Bóreas: 'Se já não pões a tanta ânsia freio/ não esperes de mi daqui em diante,/que possa mais amar-te, mas temer-te,/ que amor, contigo, em medo se converte'. Ou quando Sá de Miranda conclui um poema que começa com o verso 'Não vejo o rosto a ninguém' com a asserção 'na meta do meio dia/andais entre lobo e cão'. O poeta talvez não esteja simplesmente a referir-se às constelações, como tem sido interpretado, mas a comportamentos designados por Montalto como "a insânia lupina ou canina"(Hélder Macedo, Arquipatologia, JL, nº1258, 19 de Dezembro a 1 de Janeiro de 2018, p.35)

*João Pereira Coutinho, na Sábado (03-01-2019, p.130), repetindo os clássicos: "O ócio é a base da civilização. Sem esse tempo de repouso, de escuta e de imaginação, tudo o que uma sociedade produz são seres estéreis e esgotados, incapazes de pensar, conversar ou criar. Animais, em suma, que vivem entre a charrua e o curral, até ao dia do matadouro"

*Hannah "Arendt estudou com bastante profundidade a física contemporânea e encontrou-lhe o centro nevrálgico: orgulhosa da sua objectividade, da sua capacidade de aparente neutralidade analítica, da sua linguagem pura e simplesmente quantitativa, fazendo uma economia absoluta de emoções, a física actual) que é uma metonímia da Ciência no seu conjunto) tornava-se cúmplice da devastação da Terra, tornada visível como força avassaladora e aparentemente sem mecanismo interno capaz de a refrear, através do industrialismo e do consumismo. A ciência contemporânea cometia dois erros muito graves. Em primeiro lugar, reduzia a condição humana à capacidade cerebral, ou melhor ainda, à capacidade cálculo. A criação de indicadores como o quociente de inteligência (QI) dava expressão operacional a essa extrema redução, que só poderia constituir um factor de humilhação para a humanidade já que as máquinas são capazes de efectuar esses cálculos muito mais rigorosa e celeremente do que os seres humanos. Tudo o que sucedeu depois da morte de Arendt (1975), apenas acentua a sua exactidão. Os supercomputadores, a inteligência artificial, a robótica, as nanotecnologias, as imensas possibilidades da eugenia através da bioengenharia, apenas reforçam a sagacidade de Arendt. O segundo erro por ela detectado no "pensar" da ciência contemporânea, reside na perda total da linguagem natural em favor de uma linguagem formal, partilhada por homens e suas máquinas em prol da objectividade e da eficiência de desempenhos operacionais. Com isso, caímos no perigo da perda do "senso comum" (sensus comunis). A ciência contemporânea tende - por isso e sem disso ter uma clara consciência - a cortar as raízes da humanidade com a Terra, como única morada da humanidade no Universo, desprezando as consequências profundas que tal estado de coisas acarreta para a nossa existência e a nossa condição de criaturas mortais. Não admira, portanto, que a ciência contemporânea, ao degradar a relevância, singular e insubstituível, da Terra e a estatura do homem como ser mortal, tenha contemporizado com a máquina de destruição do planeta, que se encontra concentrada numa redução da esfera social à esfera da economia, e desta à esfera das transacções, culminando esta no puro conceito de um caital que apenas se quer a si próprio" (Viriato Soromenho Marques, Hannah Arendt, a pensadora da Terra, JL, nº1258, 19 de Dezembro a 3 de Janeiro de 2019, p.33).

*Bolsonaro afirmou na primeira entrevista após a sua tomada de posse que há "demasiados direitos trabalhistas" - portanto, demasiados direitos dos trabalhadores nas leis laboras brasileiras - e que a sua equipa está a estudar acabar com os tribunais de trabalho. Paulo Rangel sublinhou, bem, que um dos traços dos populistas dos nossos dias tem sido procurar cumprir todas as promessas de campanha. O que em poucos dias foi dito pela nova Administração brasileira sobre porte de arma, terras para a agro-indústria, acicatar da repressão policial, despedimentos da função pública em função de uma vinculação ideológica (?) ao socialismo ou comunismo, culminando na questão do direito laboral só confirma essa tendência. E como as promessas foram sinistras...

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