Dizemos "a minha mãe era, o meu pai era". E basta começar a descrever os nossos pais, sobre quem achamos saber muito, para perceber que conhecemos pouco sobre quem foram antes pais. São cerca de 25 anos da vida de uma pessoa. Desconhecemos que infância tiveram, que ambições alimentaram, como se encontraram. Damos por adquirido que se casaram porque se amavam, mas pode ter sido apenas uma compensação, uma saída perante a rejeição de um terceiro. Não sabemos quase nada. Por isso, um dos ardis para não cometer enganos é falar sobre o que fizemos: estudei tal coisa, fui a tal universidade, escrevi estes livros.
E não chega.
Não, porque falamos de nós omitindo o que não fizemos - os fracassos, o que não tive a coragem de fazer ou correu mal, a pessoa com quem não casei, o filho que não tive, o livro que não consegui escrever ou publicar. Tudo isso, que faz parte do que somos, é como se não contasse. Mas conta.
(...)
O para quê da vida. Aparece muito no início do romance, quando o Professor Wheeler fala sobre quem molda o mundo. Talvez alguns dos tremendos ditadores que surgiram o tenham moldado, um Hitler ou um Estaline, mas fora disso nenhum de nós toca sequer na superfície, nem tem qualquer influência em nada do que se passa. Este é o argumento principal da personagem: talvez haja uma dimensão onde seja possível moldar, pelo menos um pouco, o mundo em que vivemos. Talvez as pessoas que estão na sombra, que são completamente desconhecidas e clandestinas, que "estão mas não existem", como um espião, consigam mudar alguma coisa. Muito mais até do que as figuras publicamente expostas, como os chefes de governo, os políticos ou as celebridades, que estão sempre sob escrutínio cerrado - da Imprensa, dos meios de comunicação ou de qualquer indivíduo que tenha uma câmara.
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As decepções não me impediram de continuar a confiar. Há um lema de Stevenson que diz mais ou menos assim: "Greatheart foi enganado. 'Muito bem', disse Greatheart". Nessa linha tenho um lema próprio: por vezes, um cavalheiro tem de deixar-se enganar. Sabemos que estamos a ser enganados, mas deixamos. (...) Não te transformas num ingénuo, apenas concordas. E continuas. Porque, no fim de contas, é o normal. Num romance antigo meu, "Pensa em mim", lembro-me de ter questionado porque é que sofremos tanto quando somos enganados. Sendo parte essencial da vida, deveríamos estar habituados.
Javier Marías, entrevistado por Luciana Leiderfarb, para o Expresso, 12-01-2019.
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