A fraternidade de horizonte universalista é de origem cristã. Basta abrir o Novo Testamento. O Evangelho de S.Marcos atribui a loucura de fazer família com quem não é da família ao próprio Jesus de Nazaré. S.Lucas vê no Espírito de Pentecostes o começo da autêntica união na diferença. Para S.Paulo, os que foram banhados no Espírito de Cristo devem testemunhar que o mundo de separações e privilégios acabou: não há nem judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher. Mais ainda, a humanidade inteira é um só corpo de muitos membros, uma comunidade de muitos carismas. (...) As pessoas todas precisam umas das outras para afirmarem a própria identidade, pois esta é uma identidade de relação e não de isolamento. (...)
O papa Francisco, ao insistir, com ênfase, na reabilitação da política, toca numa urgência. Quando alguém diz não quero nada com a política, está a tornar-se sua vítima. O melhor talvez seja trabalhar na sua modificação. (...)
[O Papa] não só não se cala, como ousa dizer coisas atrevidas. Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos Não a uma economia da exclusão e da desigualdade, em que o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata! Esta economia exclui. Esta economia destrói a mãe Terra.
A economia, continuou o Papa, não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Implica cuidar zelosamente da casa e distribuir, de forma adequada, os bens de todos. A sua finalidade não é apenas garantir alimento ou um decoroso sustento. Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos T3 pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária - poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã - deve garantir aos povos dignidade, prosperidade e civilização nos seus múltiplos aspectos. Implica acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recriação. (...) É uma posição que se prende com a crença no destino universal dos bens. (...) Acontece que na Bíblia há passagens nas quais é Deus que interroga. No Génesis é Ele que pergunta a Caim: o que fizeste do teu irmão? Na simbólica do juízo final, o senhor da história julga os seres humanos não pelo que fizeram a Deus, mas pelo que fizeram, ou não fizeram, aos outros em situações de precariedade. Deus identifica-se com estes. Tomás de Aquino dirá: ninguém ofende Deus directamente, mas os seus filhos, os nossos irmãos. (...)
Em nome da identidade nacional, está a desenvolver-se um espírito de exclusão do outro, como uma ameaça à nossa segurança e bem-estar. Perdeu-se a fraternidade que se começou a ganhar no início do cristianismo, o esforço para não contrapor unidade e diversidade (...) Não há alternativa feliz à união na diferença. Fora desta só podem existir dominadores e dominados. (...) A febre de construção de muros é um atentado contra a civilização.
Frei Bento Domingues, Contra os muros, Público, 27-01-2019, p.7.
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