segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Rousseau e o problema do mal


Apesar de a «profissão» argumentar contra as formas tradicionais de autoridade religiosa, defendeu claramente a fé tradicional na Providência. O motivo de Rousseau para a afirmação dessa fé foi claro: deve haver recompensa e castigo noutro mundo, ou as desgraças neste haviam de ser demasiadas para poderem ser suportáveis.(...) É justo dizer que Rousseau foi o primeiro a tratar o mal como um problema filosófico - e a propor a primeira coisa que se aproximou de uma solução. 
Antes de Rousseau, os pensadores  eram obrigados a tomar uma de duas posições. Declarar que este mundo é o melhor é considerar todos os males como fundamentalmente aparentes: qualquer coisa que consideremos um mal é de facto uma parte necessária de uma obra maior. Leibniz pensou que um dia acabaríamos por percebê-lo, mas Pope achou que não. Concordaram, no entanto, em que há uma ordem na qual tudo o que se parece com o mal leva ao bem de forma mais generalizada. Daqui resulta que nenhum mal particular é genuíno. (...) Esta era a chamada «doutrina do optimismo», e muitos pensavam que deu uma má reputação aos optimistas. (...) Foi o que expressou Rousseau (...): Negar a existência do mal é a maneira mais conveniente de desculpar o autor desse mal; os estóicos, antigamente, expuseram-se ao ridículo por menos. (...) Rousseau também observou que estas doutrinas levavam ao quietismo. (...) Na realidade, qualquer acção podia ser considerada ímpia. (...) Aqueles que admitiram que os males são genuínos descobriram que eles desafiam literalmente qualquer explicação. Não só todos os recursos do raciocínio falham ao explicá-los, mas além disso a persistência do mal faz-nos duvidar das capacidades do próprio raciocínio. (...) Antes de Rousseau, em suma, havia apenas duas opções: ou o mal não é um problema, ou não há qualquer resposta a dar-lhe.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005, pp.57-58.

*Para Rousseau, são os humanos que causam o mal, mas um mal societário, um mal que pode ser resolvido. Se atentarmos historicamente, veremos como o mal foi surgindo e como é possível procurar resolvê-lo (colectivamente). Sim, há uma consequência (um mal natural no reino político e social) de um mal moral (humano).  

Ciência séc.XVIII


Mas não foi apenas Newton. Cada nova descoberta parecia dar razão ao argumento do desígnio. De facto, para o século XVIII, essa tese era menos uma teoria que um dado adquirido. A sua afirmação central era apenas esta: a prova da existência de Deus não é mais nem menos que toda a criação. É que esta está tão impregnada de ordem e dos desígnios divinos que não poderia ter sido originada por acidente. Não há necessidade de apontar para algo tão grandioso ou distante como os céus; a estrutura das nossas mãos ou olhos também serve. Desígnios tão complexos requerem um autor. (...) A ciência não era vista como uma rival, mas como uma escrava da fé, já que cada nova descoberta o era da relação constante entre os fenómenos. Qualquer avanço na ciência era a indicação de mais ordem no universo. (...) No livro A Religião nos Limites da Simples Razão (...) Kant escreveu que o rei David jamais poderia ter adorado o Criador como nós, pois sabia muito pouco das maravilhas da criação. Assim, os seus salmos deviam ser ouvidos como um som vazio, pois a emoção que sentimos ao contemplar o trabalho da mão de Deus, agora manifestado na ciência moderna, é demasiado grande para se poder expressar. Estes pontos estiveram tão presentes na literatura como na Filosofia, tanto em francês como em alemão. (...) Newton encarava o seu trabalho como um testemunho da glória de Deus, e nenhum dos seus admiradores do século XVIII discordaria.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005, pp.44 e segs.

P.S.: Pope, ao escrever que "o estudo apropriado da humanidade é o homem", como que o precursor da passagem, quanto ao problema do mal, da metafísica e da teologia para o mundo da ética e da psicologia. 

Escolhas e superfície


1.Ao contrário do que é norma, no seu espaço de comentário semanal, aos Domingos, na TVI, sobre política internacional, Paulo Portas, há oito dias, aconselhou livros. Todos ensaios, e todos como contraponto à ideia de que tudo vai mal, de que estamos cada vez piores. Nesse sentido muito estrito, compreendo a opção por Steven Pinker (no caso, este livro) - ao contrário do que se pensa, isto nunca esteve tão bem e, por isso, não há motivos para os ressentimentos (populares), na base da ascensão dos populismos.  Mas talvez um maior cepticismo conservador fosse de esperar em Paulo Portas. Niall Ferguson, numa interessante conversa com Pinker (aqui, a partir do minuto 15.10), mostrou como 100 anos (ou um pouco mais) antes dos dois livros de Pinker mais recentes a garantir-nos que nunca estivemos tão bem se podia dizer exatamente a mesma coisa e não foi por isso que deixámos de ter duas guerras mundiais consecutivas. O que não deixa, ainda, de ser uma advertência quanto à linearidade histórica, ao problemático "progresso". Quando olhamos para a História, talvez todos procuremos uma sabedoria que combine o longo espectro, com um olhar de grandes tendências, com a observação microscópica e o colar-mo-nos/envolver-mo-nos nos acontecimentos: se, neste último dos casos, podemos hiperbolizar males que, comparados com a humana história, são bem mais leves do que aqueles que o Homem já suportou, no primeiro dos casos, com a lente tão longe do quotidiano, talvez tendamos a relativizar o sofrimento e as dores presentes. Pinker dirá, pelo inverso, que quis animar os homens e as mulheres do século XXI, face a um discurso muito recorrente em tons sombrios. Os usos políticos, no entanto, das suas conclusões, talvez estejam, contudo, nos antípodas do que um "liberal" (em sentido norte-americano do termo) desejaria.
Uma outra surpreendente escolha/sugestão de Paulo Portas foi o livro "Utopia para realistas", de Rutger Bregmanque citei aqui, ou aqui.

2.Revê-se na Doutrina Social da Igreja?, pergunta (cito de cor), a certa altura da entrevista, Vítor Gonçalves, a Paulo Rangel, na semana passada. Resposta: "É isso. (...)". Nas palavras do próprio, "cristão de cultura católica", Rangel escreveu um livro a sustentar que não existe uma justificação (na vida de Jesus de Nazaré) para haver uma "Doutrina Social da Igreja". Houve uma apresentação curiosa e conhecida da sua obra, no Porto, com Jaime Gama e João Taborda Gama, Paulo Rangel, e bem, traz estes temas para o espaço público - referindo, de resto, que isso é muito comum na Alemanha, por exemplo, no seio dos democratas-cristãos -, mas, ainda assim, e perante a afirmação do eurodeputado das suas preocupações de natureza social a pergunta surgiu - e o entrevistador deveria conhecer o escrito do entrevistado - e o entrevistado também não entendeu aprofundar e ser mais rigoroso, em função do que deixara escrito em livro, na resposta dada. 
Acontece muito na vida pública-mediática portuguesa não se gostar de ir a um questionamento mais radical das coisas.

Angela Merkel e a Alemanha por reconciliar


Não havia uma verdadeira igualdade na RDA. O facto de uma mulher ter sido membro do Politburo [comité central do Partido Comunista] , de nunca uma mulher ter dirigido um Combinat [grandes conglomerados de empresas estatais da era socialista], mostra bem que eram os homens quem ocupava os lugares onde se tomavam as decisões importantes. Havia, sim, uma atitude pragmática no que dizia respeito a cargos técnicos (...) Percebia-se imediatamente que, na maior parte das vezes, a educação dos filhos e as tarefas domésticas dependiam só das mulheres (...) Como sociedade - e era essa a natureza do sistema -, a RDA só se interessava pelo desenvolvimento colectivo, não pelo individual. Quanto menos expressássemos a nossa individualidade, menos problemas teríamos. Quanto mais a desenvolvêssemos, mais rapidamente seríamos considerados um problema. (...) Tenho reparado que mudou a maneira como nos referimos ao Leste. Retrospectivamente, vemos agora com maior clareza o imenso esforço que nós, alemães do Leste, precisámos para nos adaptarmos a um novo mundo em 1989. Foram anos de uma grande rutura. Algumas pessoas ainda hoje sofrem as consequências desse ponto de viragem. Digamos que, para elas, essa rutura não foi tão positiva quanto para mim. Eu encontrei rapidamente um trabalho e tive oportunidade de expandir os meus horizontes. Mas muitas outras pessoas, na sua maioria mais velhas do que eu, não tiveram este privilégio, embora também gostassem de fazer parte de uma sociedade livre tanto quanto eu. (...) Dos cerca de 11% de habitantes da RDA que trabalhavam na agricultura, apenas 1,5% e 2% conseguiram continuar a fazê-lo depois da reunificação [em 1990], Muitos sentiram-se inúteis - ficaram com a impressão de que nada servia o que sabiam fazer e o que lhes dava confiança. (...) A política [na RDA] impunha limites rígidos ao indivíduo, mas também não era omnipresente. Havia relações de amizade. Havia espaços de muito debate, onde se lia muito, onde se reflectia, onde se aprendia coisas e se fazia festas. Nenhuma destas facetas da vida aparecia na narrativa oficial. (...) E porque o sistema político nos vigiava, também era necessário confiar incondicionalmente nos outros. De outro modo, rapidamente enfrentaríamos uma ameaça existencial. (...) Há um sentimento crescente entre muitos alemães do Leste de que os seus méritos têm sido pouco valorizados. Esse sentimento é mais acentuado entre as pessoas que já tinham uma idade avançada quando caiu o Muro de Berlim. Até quem não pertence ao campo da direita partilha este sentimento. (...) Não acho que seja surpreendente haver frustrações na Alemanha de Leste. Isto deve-se à mudança de vida, ao desinteresse de que acabámos de falar e, também, ao número ainda insuficiente de figuras de referências positivas. Os alemães de Leste estão sub-representados em muitas áreas. Fico contente por o presidente do [instituto científico] Fraunhofer-Gesellschaft ser natural do estado oriental da Turíngia. A organização de assistência católica Caritas também teve em tempos um presidente da Alemanha de Leste. Mas estes são casos raros. Como tal, não me surpreende que as pessoas se sintam frustradas. (...) Eu [na questão do acolhimento dos refugiados] reagi a uma situação de emergência humanitária. Vi-me perante um desafio e tive de o enfrentar. Mas não me surpreendeu que uma grande parte da população nos novos Lander tivesse mais dificuldade do que noutras regiões em aceitar a minha decisão. Na RDA, havia muito pouca interacção com outras culturas. Os Vertragsarbeiter ["trabalhadores sob contrato" convidados para suprir a falta de mão de obra] de países longínquos não eram bem tratados e os seus contactos com os habitantes locais não eram encorajados. É possível que essa tendência se mantenha. (...) Por exemplo, durante muito tempo eles aceitaram que uma cuidadora de idosos na Alemanha Oriental ganhasse menos do que na Alemanha Ocidental. Partiram sempre do princípio que, um dia, haveria paridade salarial (...) Nalguns sectores, desapareceu a esperança de uma equalização rápida. (...) As heranças são menores, assim como as receitas fiscais, e as pessoas não conseguem acumular suficiente riqueza. (...) Os preços das rendas em Munique são elevados, enquanto no Leste, longe das grandes cidades, muitos apartamentos estão desocupados.

Angela Merkel, entrevistada por Jana Hensel, "Parece-me lógico haver paridade de género em todas as áreas", Die Zeit, 24-01-2019, traduzida para português por Maria Alves, e publicada no Courrier Internacional (edição portuguesa), Edição especial temática, Março 2019, pp.12-19. 

Futuro da Europa


Podem não ser as classes no sentido marxista, porque a sociedade industrial desapareceu. Mas é importante reler Marx e Montesquieu, que foi uma espécie de sociólogo avant la lettre, ou Tocqueville, que também nunca renunciou à ideia de classes...Até o próprio Aristóteles tinha a ideia de que é preciso uma ampla classe média para haver uma democracia funcional. É um ensinamento ancestral da cultura ocidental (...) No fundo, o seu [da UE] espaço comum era, por um lado, o espaço de alguma coesão social, aliviando a tal divisão de classes...Nunca podemos esquecer que metade da despesa social do mundo inteiro é feita na EU [para 7% da população mundial]. O que lhe dá uma grande coesão (...) Os dois [nacionalismo espanhol e nacionalismo catalão] precisam um do outro. Um fez despertar o outro, que estaria adormecido. (...) Uma vez ouvi Henry Kissinger em Barcelona, em 2010, dizer: atenção, o automóvel, entre 1989 e 2010, não mudou nada. Continua a ter quatro rodas, um volante, um motor a combustão. O que muda é a Internet e até o telemóvel, que já não é um telefone. Dizia ele: isto é que nos interessa, esta inovação disruptiva. E ouvi a própria Merkel dizer que o grande problema da inovação da Alemanha não é não haver investimento em inovação, é a inovação ser conservadora. Era sempre aperfeiçoar o que já se tinha, mas não romper com o que se tinha, enquanto os americanos estavam dispostos a perder muito dinheiro com experiências falhadas até romperem. (...) Devíamos estar no clube Med (...) São pequenas potências periféricas, são extrovertidas, são marítimas e têm interesses comuns. Era uma forma de Portugal se relacionar com os contribuintes líquidos. Foi o que a Irlanda fez - um eixo com a Dinamarca e a Holanda a propósito do "Brexit", que a levou depois para a Liga Hanseática, dos mais ortodoxos da zona euro. Podíamos ter um cavalo de Tróia nesses países a propósito do "Brexit", e criar um verdadeiro Clube Atlântico. (...) Talvez devêssemos ter um pouco mais as religiões no espaço público, incluindo as cristãs, que é uma forma de integrarmos mais as outras. O laicismo exagerado, às vezes, é contraproducente. (...) Fui apanhado de surpresa pelo grau de relevância que este anti-semitismo adquiriu. Se fosse uma questão episódica? Mas hoje vemos que há qualquer coisa de sistémico. É uma coisa que julguei que não ia ver na minha vida.

Paulo Rangel, entrevistado por Teresa de Sousa, Público, P2, 24-02-2019, pp.16-23. 

Bons negócios


E eu costumava [durante a crise na zona euro] dar sempre dar sempre [o exemplo de] a crise do pepino espanhol. (...) Que era alemão. A ideia de que o Sul não cumpria as regras fez com que produtos hortícolas da zona de Bremen fossem atribuídos a Valência. Sendo que Bremen  está falido há muito mais tempo que a Grécia. (...) Basta olhar para o superávit comercial alemão, que é três vezes superior em termos absolutos ao chinês. Em 2018, a Holanda tem um superávit comercial superior ao da China, um país com 16 milhões de pessoas. Basta isto para perceber que o euro não foi um mau negócio para estes países. (...) Esta ideia de que os outros se estão a aproveitar não tem sentido nenhum. É um preconceito fabricado. É um mito

Paulo Rangel, entrevistado por Teresa de Sousa, "Os estados-membros não confiam uns nos outros", Público, P2, 24-02-2019, p.20.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sobre "Vice"


"Vice" é um filme biográfico fora do comum e difícil de fixar num só género.  Retrata com fidelidade a factos e acidez crescente o trajecto de Dick Cheney (...) para muitos, foi ele o maior responsável por uma estratégia geopolítica pós-11 de Setembro que acabou por se revelar fraudulenta e de consequências desastrosas após as invasões ao Iraque (...) O filme cruza várias etapas, documentadas até à exaustão (há neste filme um trabalho jornalístico de fundo), da vida da personalidade política, e fá-lo (naturalmente à revelia desta) com uma liberdade de movimentos notável, cruzando vários narradores (voz off, por exemplo), documentos históricos, arquivos de tv, que se vão entrelaçando na interpretação de Christian Bale, num dos seus mais exigentes trabalhos. (...) Esta é a história de um zé-ninguém, não particularmente dotado para coisa nenhuma, e que dez da paciência e de uma continuada subserviência ao poder ao longo de décadas as armas do seu êxito. (...) Outro aspecto não menos importante é o papel determinante de Lynne Cheney (interpretada por Amy Adams), a esposa que o 'endireita' a tempo e o encoraja, sempre na sombra, a trepar na hierarquia do poder em Washington. (...) [Adam] McKay [o realizador], mesmo depois de ter feito o filme, ainda não sabe que é, de facto, Dick Cheney. "Se chamarem a "Vice" um filme biográfico, a única coisa que posso salientar é que a biografia não foi autorizada. Quer dizer, fomos rigorosos nos factos, escavámos mesmo em tudo o que podíamos escavar, tivemos até jornalistas a trabalhar para nós em entrevistas off the record a quem rodeou Cheney no poder (...)". Christian Bale (...): "será que os demónios ainda descem sobre Cheney durante a noite? Pode alguém dormir realmente em paz depois de ter dado origem a uma guerra grosseira e sem ética?". (...) McKay: "contámos esta história da forma mais honesta e verdadeira que soubermos (...) 'Vice' é uma comédia de factos, um filme de informação que consegue ser comovente e genuinamente triste.

Francisco Ferreira, O poder na sombra, Expresso, edição nº2416, A Revista do Expresso, 16 de Fevereiro de 2019, pp.62-63.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Job


Resultado de imagem para Job Bíblia

Afonso X tornou-se rei de Castela em 1252, mas Susan Neiman vê nele o possível primeiro herói do Iluminismo, na medida em que, depois de iniciado por judeus eruditos, na astronomia afirmou: «Se eu tivesse sido conselheiro de Deus no momento da Criação, muitas coisas estariam mais bem ordenadas» (p.30). Concluirá Neiman: "os observadores medievais não estavam inteiramente enganados ao interpretar o desejo de aconselhar Deus como o primeiro passo de um processo que levaria a algo que não poderiam imaginar: não só desejo oitocentista de afastar Deus, mas o anúncio de Nietzsche de que esse acto fora realizado, e já nem sequer era chocante"(p.33).
Afonso sofre a desventura de um dos seus filhos, Sancho, ter conspirado para o depor, sofrimento para muitos merecido como justa punição de quem duvidava da bondade da criação: "assim, o seu destino dificilmente poderá comparar-se com o de Job, cuja história de sofrimento interminável também foi paradigmática para os escritores preocupados com o problema do mal. É importante notar que, tal como os infortúnios de Afonso, os de Job não foram vistos como injustos até muito tarde. Durante o iluminismo, os comentadores deixaram de procurar maneiras de justificar os tormentos de Job. De acordo com Kant, que escreveu um ensaio fabuloso sobre o assunto, os pensadores tinham agido anteriormente na esperança de que Deus estivesse a escutá-los. Tendo perdido essa esperança, tinham menos motivos para experimentar as variações de possíveis teodiceias,  comprovativas de que afinal Job era secretamente culpado de alguma coisa, de modo que a perda de tudo o que tinha era um castigo justificado, ou estava a ser posto à prova para ser recompensado mais tarde. Autores mais antigos, identificados com os amigos de Job, foram os criadores da teodiceia que descobriu uma justificação. Os que vieram mais tarde, identificados com Job, não encontraram nenhuma. Descrever este desenvolvimento pode ser uma forma interessante de passar uma vida inteira, que nunca seria suficientemente longa para analisar a vasta literatura que o livro de Job inspirou" (p.32) [O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Certezas


Lamentar a perda absoluta de referências para julgar o certo e o errado devia ser supérfluo um século depois de Nietzsche, mas parece haver sempre alguém a fazê-lo, todos os dias. Quase toda a gente que alguma vez tenha ensinado cursos de humanidades terá conhecido estudantes que descobriram que palavras como «bom» e «mau» estão desactualizadas, pois são usadas por diversas culturas de maneira diferente. O que pode ter ficado por dizer é que, embora hoje poucos proclamem certezas sobre princípios éticos gerais, a maioria está quase certa sobre paradigmas éticos particulares. A perda de certezas absolutas sobre os alicerces gerais dos valores não afectou as certezas sobre os exemplos particulares; talvez tenha acontecido o contrário. Há três séculos, quando esses alicerces eram tidos como mais sólidos, a tortura e a morte públicas eram largamente aceites. Hoje são universalmente condenadas, apesar das diferenças de princípios. (...) Pode não haver um princípio geral que prove que a tortura e o genocídio são condenáveis, mas isso não nos impede de os considerarmos casos paradigmáticos de mal. (...) Assim, agrupei os pensadores segundo as perspectivas que defendem sobre a natureza das aparências: haverá outra ordem melhor, mais verdadeira, que aquela que experimentamos, ou tudo o que existe são os factos com que os nossos sentidos se confrontam? Está a realidade esgotada naquilo que existe, ou sobra algum espaço para tudo o que poderia ser? Dividir os filósofos de acordo com as suas posições sobre uma grande questão é fazer uma divisão grosseira, e produz estranhas alianças. Entre os filósofos que insistiram em encontrar uma ordem para além da ordem miserável fornecida pela experiência incluo Leibniz, Pope, Rousseau, Kant, Hegel e Marx. Entre aqueles que negaram a realidade de tudo o que fosse além das cruas aparências, identifico Bayle, Voltaire, Hume, Sade e Schopenhauer. Nietzsche e Freud não podem encaixar-se em nenhuma destas divisões.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno..., Gradiva, 2005, pp.23-26.

Sínteses - o mal no pensamento moderno


*Susan Neiman entende que a filosofia dos séculos XVIII e XIX foi guiada pelo problema do mal;
*A distinção entre mal natural (como o que acontece sem o concurso humano, como no caso de terramotos) e mal moral (aquele no qual o humano é decisivo para que o mal aconteça) desenvolveu-se no decurso deste debate (e, olhando agora, o que distingue, de forma abismal, Lisboa de Auschwitz);
*Do Iluminismo até ao presente, dois tipos de perspectiva, independentemente do tipo de mal em causa: de Rousseau a Hannah Arendt, a posição de que a moral nos obriga a tornar o mal inteligível; de Voltaire a Jean Améry, a noção de que a moralidade nos obriga a não o fazer. Susan Neiman simpatiza, sobretudo, com o primeiro destes dois pontos de vista.


O mal no pensamento moderno


O século XVIII usou a palavra «Lisboa» como hoje usamos a palavra «Auschwitz». Que peso pode uma referência cruel transportar? Não é preciso mais que o nome de um lugar para se obter este significado: o colapso da mais básica confiança no mundo, o ponto que torna a civilização possível. Ao perceberem isto, os leitores actuais podem sentir-se melancólicos: ditosa a época em que um tremor de terra podia fazer tantos estragos. O terramoto de 1755, que destruiu a cidade de Lisboa e matou milhares de pessoas, abalou o Iluminismo até à Prússia Oriental, onde um desconhecido académico menor chamado Immanuel Kant escreveu três ensaios sobre a natureza dos terramotos para um jornal de Konigsberg. Kant não estava sozinho. A reacção ao terramoto foi tão alargada como rápida. Voltaire e Rousseau encontraram uma ocasião para discutir o assunto, academias por toda a Europa criaram concursos para ensaios acerca do tema, e o sexagenário Goethe, de acordo com várias fontes, foi levado à dúvida e a ter consciência moral pela primeira vez

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno. Uma história alternativa da Filosofia, Gradiva, 2005, pp.15-16.

Radar


Ainda do GPS: O Zimbabwe foi o quinto país, este ano, a mandar cortar a internet, depois da existência, no país, de protestos por causa dos combustíveis. Antes, tinha sido o Congo. Devido à contestação após eleições. Também o Gabão, o Sudão e o Bangladesh cortaram a net. Em 2018, houve 188 cortes, totais ou parciais, de internet ordenados pelos Governos, de acordo com a Access Now. Em 2016, tinha havido 75. Mas ainda em países democráticos, como a Índia. Neste país, estima-se que esses cortes tenham custado à economia qualquer coisa como 3 mil milhões. Mas, mais importante: as promessas democráticas da internet não têm vindo a ser cumpridas. A China não permite o acesso a facebooks, New York Times, suspende a net em zonas de conflitos laborais, etc.


As redes sociais promovem a não violência (VII)



Não: devíamos ter direito ao “esquecimento digital”, ao “apagamento das nossas pegadas”. Elas não deviam perseguir-nos a vida toda. Há muita gente que, de modo inadvertido, coloca nas redes sociais imagens, fotos, sons, palavras da sua vida íntima de que mais tarde se vem a arrepender (T.Snyder: “Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o "teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal não acontece", p.69). Há quem tenha progenitores a colar fotos de quem ainda é menor nessas redes sociais, sem que este última intervenha e, pois, tenha nisso qualquer responsabilidade. Como é possível que não haja direito ao esquecimento digital? Como escreve o teólogo António Spadaro, “se a salvação, teologicamente falando, implicava, de algum modo, o 'apagar', ou 'esquecer', isto é, pressupunha o perdoar, já "a salvação digital, o «salvamento» é exactamente o oposto do cancelamento. Se um arquivo é salvo, tudo, até mesmo os erros permanecem fixados, não esquecidos. A salvação digital, portanto, cancela o olvido. E, hoje em dia, a Rede é o lugar onde o olvido é impossível" (António Spadaro, Ciberteologia, 34).

Sim: eis um ponto em que estamos de acordo: se temos direito a saber a informação que os Estados, e os Governos, têm sobre nós, como não obrigar a Google a dizer o que sabe a nosso respeito? O Facebook tem mais habitantes do que a China e as suas decisões acabam, muitas vezes, por ser mais importantes do que as dos governos de Alemanha ou França. E quem guarda estes guardas? (e que relação deles com as democracias?) Razão, aqui, ao politólogo Francis Fukuyama: "Até um certo nível, a regulação é apropriada e também me parece que há grandes problemas pelo tamanho destas organizações: se elas tentam comportar-se como empresas de média ou publishers, tomando decisões sobre o que é apropriado ou não, é um problema, porque estão a tomar decisões para o mundo inteiro!" (Francis Fukuyama, Visão, 27-12-2019).
O problema passa também por, na prática, em vez de uma única internet, termos uma “Chinanet”, ou uma “Russianet”, por exemplo (há muitas leis diversas, mas uma só internet).
Concluo, também, com uma das exortações do investigador Timothy Snyder que mais me tocam: “Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo, legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se leste, se estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo à leitura de artigos longos. Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...) Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao interagires com bots e trolls. Não nos é possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)

Sugestão cinematográfica: “A rede social”, de David Fincher (2010)

Encerramento dos trabalhos.

Daniel Sampaio, Do Telemóvel para o mundo – pais e adolescentes no tempo da internet (2018)           

Consideram o e-mail ultrapassado, e mesmo o tempo de entusiasmo com o Facebook parece ter ficado para trás - porque nele passou a haver demasiados adultos, demasiados familiares, demasiados professoresNão terá ficado completamente obsoleto, porque é utilizado para marcação de eventos, em especial para perceber a adesão que terão - e se vale a pena realizá-los (ou onde efectivá-los, em função do número de likes)Instagram, pelos vistos, é que está a dar, actualizado sucessivamente, especialmente no feminino (com o pico das 10 da noite, hora em que a maioria dos adolescentes está na net). Há pais que entram nas redes sociais dos filhos através de «truques» tecnológicos "pouco éticos" (p.146). Em havendo, como deve haver, uma relação familiar de confiança, faz sentido os pais perguntarem o que os filhos colocam nas redes sociais; no entanto, se os progenitores nada questionam, mas espiam às escondidas para, a partir de aí, proibirem saídas ou impedirem jogos na net, não estão a contribuir para esse aumento de confiança mútua.
Os jovens utilizam a sigla POS (parents over shoulder), para alertar a presença dos pais «sobre o ombro», quando o computador caseiro se situava na sala comum. Hoje a sigla foi substituída por PIR (parents in the room) ou por 99 (parents are gone) para que possam estar mais à vontade. Daniel Sampaio sugere a ideia de limitação do tempo em que um filho, em idade precoces, possa estar na internet e sem negociação ("mais dez minutos..."). Quando esta limitação não é posta em prática, a utilização da internet tende a ser crescente, podendo mais tarde a vir a causar dependência (p.138). O autor de Do telemóvel para o mundo, deixa ainda uma possível sugestão aos pais:
"Serge Tisseron, no seu interessante livro Computadores, Telemóveis e Tablets (Lisboa, Gradiva, 2013) faz uma proposta sobre o uso das novas tecnologias de informação, com etapas progressivas de acordo com a idade:

aos 3 anos podem começar a ver televisão;
aos 6 anos podem começar a usar jogos offline
aos 9 anos podem ligar-se à net, com supervisão parental;
aos 12 anos podem entrar nas redes sociais, também com algum controlo por parte dos pais.

Trata-se apenas de uma orientação, embora proveniente de um especialista de reconhecido mérito" (p.147)

Mais: "as novas formas de comunicação, ao contrário do que por vezes se afirma, podem ser importantes veículos de aproximação entre pais e filhos. A partilha de uma foto, um sítio na internet que se acaba de descobrir, um sms ou mensagem pelo WhatsApp a avisar para onde se vai, são tudo oportunidades para estar mais perto, para educar e para veicular valores. A conversa formal entre pais e filhos, típica da juventude dos avós dos adolescentes de hoje, tem de ceder o lugar aos diálogos de pequena duração, tantas vezes imprevistos e improváveis, mas que podem ser carregados de significado (...) Segundo a revista norte-americana Highlights, num inquérito a 1521 crianças entre os 6 e os 11 anos, estas revelaram achar os pais demasiado distraídos e pouco atentos às suas necessidades, considerando que os telemóveis dos progenitores são os principais responsáveis. Era como se os aparelhos estivessem entre pais e filhos e contribuíssem para uma distância que os mais novos desejavam transpor. No Brasil, outro inquérito revela que 70% das crianças entre os 3 e os 5 anos sabe ligar um computador ou tablet e 42% sabe usar um smartphone" (pp.69-70). O psiquiatra alerta ainda para um estudo que aponta para 80% de pais que colocam fotos dos filhos até aos 2 anos de idade destes no facebook, e sublinha  que muitos empregadores vão verificar tudo o que há na net sobre o candidato ao emprego, pelo que a pegada que fica na net deve ser olhada com grande cuidado: "o nosso menino vestido de índio pode ficar bem numa reunião social, mas pode comprometer a criança junto dos seus amigos. Uma festa familiar pode tornar-se motivo de troça no seu grupo juvenil. Uma angústia desabafada na net, no contexto de uma depressão juvenil, pode tornar o adolescente alvo fácil para cyberbullying" (pp.71).


Gustavo Cardoso, A sociedade dos ecrãs, 2013

A casa organizada sobre a sala (e seus sofás), partilha, controlo (parental), (foco no) colectivo, autoridade, hierarquia, passividade como valores latentes ou explícitos (em causa), deu lugar, em uma significativa medida, a uma “cultura do quarto” como espaço do indivíduo (e do individualismo), autonomia, emancipação, autoridade (parental) negociada senão desaparecida/diluída, responsabilidade (responsabilização), participação, liberdade, (auto) fechamento (no sentido, de isolamento no quarto; não por acaso, de 2003 a 2010, o tempo médio de uma chamada telefónica diminuiu quase para metade, de três minutos para um minuto e quarenta e sete segundos, Gore, 2013, 92), mas, igual e paradoxalmente, de conexão com o mundo (a fluidez público/privado será bem maior no novo caldo de cultura em que nos movemos; o adolescente, no quarto, a assinar uma petição em defesa de um povo geograficamente distante, ou a participar em uma conferência nos antípodas do globo; estamos, crescentemente, “sozinhos juntos”, no dizer da filósofa da internet Sherry Turkle).


Na desocultação dos significados simbólicos e sociológicos da proliferação dos ecrãs (tv, telemóvel, net, tablet, ipad, etc., etc.), importa, na verdade, compreender que os artefactos tecnológicos que construímos respondem a demandas que surgem em uma sociedade – a cultura da participação, da interactividade, da recusa da passividade, do multitasking, da responsabilidade, porventura alimentaram o surgimento da internet, ou, pelo menos, a sua massificação -, inserem-se em uma cultura e fazem bascular os marcos sociológicos anteriores à sua presença (com a comunicação de massas, o centro era o media, na comunicação em rede, o centro é o indivíduo; no seio de uma cultura em que a criança ou adolescente domina melhor que os pais/encarregados de educação os mecanismos informáticos e da net, o controlo sobre estes, sobre tais mecanismos e, não menos relevante, sobre os próprios jovens em maturação, tornam-se delicados – em não poucos casos, a ignorância sobre o fenómeno da internet e, em especial, o das redes sociais, faz com que muitos pais criem uma verdadeira mitologia acerca destas: um estudo de 2007, com jovens norte-americanos, mostra que a motivação destes, quando utilizam as redes sociais é exactamente a mesma de quando enviam sms ou fazem chamadas telefónicas: prolongar a conversação com o grupo de pares. Uma outra investigação com adolescentes norte-americanos, realizada no mesmo ano, conclui que 91% destes jovens utilizava as redes para falar com amigos. De 2011 a pesquisa que mostrou possuir cada utilizador do facebook, a rede social mais utilizada no mundo ocidental, mas também em inúmeros países da Ásia e América Latina, em média, 229 “amigos”, sendo que apenas 7% destes nunca ‘conhecidos’ fora do mundo online. Não se assistiu, pois, à profecia pessimista – diminuição do contacto rosto a rosto, entre as pessoas, em geral, e os mais novos, em especial; nem aos amanhãs (tecnologicamente) cantantes  – não se regista o previsto aumento de sociabilidade; antes, o reforço do contacto com aqueles que já eram os nossos próximos; em conclusão, e nas sábias palavras de Nélson Ribeiro, quanto mais próxima, ou intensa, a relação de mais meios procura servir-se. Mais do que digitais, o que temos são amizades com existência tanto online quanto offline (Ribeiro, 2013); registe-se como, ainda agora, os media mais controlados são a televisão e o telefone [Cardoso, 2013, p.151]). Na socialização actual da pessoa, o possível choque de valores entre grupos de pertença – a família, ab initio – e grupos de referência – os media, e a net em especial – pode fazer sentir-se com acuidade.

Pedro Miranda


(conclusão)

Atoleiro (ideológico)


Quando Robert Rubin era secretário do Tesouro de Clinton, gabava-se de ter convertido os défices da época de Reagan em consideráveis superávites  orçamentais. Desde então, com os republicanos, os EUA avançam com rapidez na direcção errada. Em junho de 2001, depois da queda das dot.com e de umas controvertidas eleições, a Administração Bush tinha aplicado uma redução fiscal que se estimava que custaria ao governo federal 1,35 biliões de dólares em dez anos. Isto beneficiou sectores chave, mas também acabou com os superávits de Rubin e foi feito intencionalmente. Os republicanos tinham-se convencido de que os superávits tendiam a fomentar um maior gasto público. O seu enfoque foi o inverso, aquilo que os estrategas republicanos da época de Reagan denominaram «matar a besta à fome». Ao consolidar os cortes tributários e expôr-se a uma crise fiscal, criariam uma imperiosa necessidade de diminuir a despesa, restringir o direito a prestações sociais e reduzir a marca do Governo
O problema é que os cortes de despesa que se supunha que se seguiriam às reduções fiscais nunca se produziram. Os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 puseram os EUA em pé de guerra. A Administração Bush respondeu com um enorme incremento de despesa em Segurança e Defesa. Depois, meteu os Estados Unidos, de um modo que espantosamente recordava o Vietname, no atoladeiro iraquiano. Em 2006, enquanto se reunia o grupo do Projecto Hamilton, o Iraque encontrava-se à beira de uma sangrenta guerra civil sectária. A questão era como sair dali. Não era apenas desmoralizador e humilhante, também era extremamente custoso. A Administração Bush fez todo o possível para manter os custos da guerra fora do Orçamento ordinário, pelo que um grupo de peritos do Partido Democrata decidiu fazer as contas. Para 2008, a factura, só para o Afeganistão e o Iraque, ascendia, no mínimo, a 904 mil milhões. Os cálculos menos conservadores situavam a cifra em 3 biliões de dólares. Era, sem dúvida, mais do que os Estados Unidos tinham gasto em qualquer guerra, desde a segunda guerra mundial. (...) Sem embargo, a Administração Bush não apenas não anulou os cortes fiscais, como, em maio de 2003, redobrou a aposta introduzindo uma nova ronda de desagravamento fiscal. Com a ideia de que o orçamento militar era sagrado e de que o resto dos gastos discricionários não bastavam para marcar a diferença, os republicanos propuseram reduzir a brecha com cortes muito pouco equitativos em «benefícios» sociais. No entanto, não puderam obter a aprovação do Senado, onde os republicanos tinham uma escassa maioria e os «moderados» eram decisivos. Este bloqueio foi o que converteu o superávit orçamental de Rubin, 86400 milhões de dólares em 2000, num défice sem precedentes de 568000 em 2004, sem que se visse houvesse um fim à vista

Adam Tooze, Crash. Cómo una década de crisis financieras ha cambiado el mundo, Crítica, Planeta, Barcelona, 2018, pp.39-40 [tradução minha]

Fernão de Magalhães nasceu em Sabrosa? Provavelmente, nasceu no Porto


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Muito pouco se sabe de Fernão de Magalhães antes da viagem que o celebrizou. O mesmo sucede à maioria dos navegadores do seu tempo, como Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e outros mais. Só Cristóvão Colombo é parcial excepção, pois era oriundo da República de Génova, ou seja, de uma sociedade mais mercantil e urbanizada do que as da nossa Península, onde, até para pequenas transacções, se recorria frequentemente aos notários, cujos arquivos são para nós um bom manancial de informações. Os nobiliários ou livros de linhagens, que só registam os nobres, pouco mais, em regra, nos ensinam que sua genealogia, raramente dando datas. Registos paroquiais, não os havia ainda ao tempo, pois foi só o Concílio de Trento (1545-63) que os tornou obrigatórios. É por isso assaz difícil determinar as datas e lugares de nascimento da maior parte das personagens, e Magalhães não é excepção. (...)
Tampouco se conhece com segurança absoluta o lugar da sua naturalidade. Aventou-se Lisboa, o Porto, Figueiró dos Vinhos, Tolões (perto de Amarante), Ponte da Barca, Braga, Aveiro e Sabrosa. (...) Sabrosa é a hipótese que goza de mais popularidade, mas assenta em documentos falsos: o testamento que Fernão de Magalhães teria feito em Belém, em 1504, e o que o neto de uma sobrinha sua teria feito em Pernambuco em 1578, de ambos os quais haveria cópia num cartório notarial de Fafe! Nem um nem outro resistem à crítica histórica, tornando-se evidente que foram ambos forjados em 1796 por António Luís Álvares Pereira que se pretendia descendente do navegador (de quem não há descendência directa) com direito à sua herança, e passou a assinar-se desde então António Luís Álvares Pereira Coelho da Silva Castelo-Branco de Magalhães. Residente em Madrid, este António Luís (...) apresentou as suas pretensões ao Consejo Real de Índias, para obter de Carlos IV não só a vintena dos bens trazidos das Filipinas, nos termos das capitulações celebradas por Carlos I com Fernão de Magalhães em 1518, mas também uma indemnização por todo o tempo em que aquela não fora entregue à família.
É desse testamento falso que consta a menção a Sabrosa, não como lugar da naturalidade do célebre navegante, mas da residência de supostos antepassados do requerente de 1795: Teresa de Magalhães, irmã daquele, e o marido desta, João da Silva Teles, «senhor da casa de Pereira de Sabrosa». De qualquer maneira, a casa que em Sabrosa é mostrada como berço do navegador não seria jamais a de seus pais, mas a de seu futuro cunhado, onde a probabilidade de ele ter nascido é praticamente nula
A hipótese apresenta maior de probabilidade é a da naturalidade portuense do nosso navegador. Com efeito, num documento notarial conservado em Sevilha e recentemente publicado por Juan Gil (a doação de certas propriedades herdadas da família, sitas em Gaia, feita pelo navegador poucos dias antes de largar para a sua viagem, a sua irmã Isabel, «vizinha do Porto»), o nosso homem identifica-se como «el comendador Fernando de Magallaes, capitán de Sus Altezas, fijo legítimo de Rodrigo de Magallaes e de Alda de la Mezquita, su muger, vezinos que fueron de çibdad del Puerto de Portugal, defuntos, que santa gloria ayan...». A sua ligação ao Porto ressalta também de uma verba do seu testamento, em que institui um legado a favor do «convento de Santo Domingo de las Dueñas», da mesma cidade.

Luís Filipe F.R. Thomaz, O drama de Magalhães e a volta ao mundo sem querer, Gradiva, 2018, pp.21-24.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

600 MIL MORTOS DEPOIS



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1."Mas, afinal, nós acreditamos em quê?". A pergunta a Donald Rumsfeld, Rummy ou Don para os amigos, era colocada, início dos anos 70 (era Presidente o republicano Richard Nixon, e Rumsfeld via-se ultrapassado por Kissinger na influência sobre a liderança) por um ainda desconhecido estagiário no Congresso, afecto ao gabinete do já durão Rumsfeld, um novato que aprende depressa (com o boss) e cedo se desengana, ouve calado, absorve tudo, Dick Cheney. A resposta de Rumsfeld, uma imensa e sonora gargalhada, uma gargalhada como se a pergunta tivesse sido retórica - não acreditamos em nada, claro; acreditamos em ter poder, se preferires - como que evocava a pergunta de Pilatos: "O que é a verdade?". Uma das cenas maiores, de "Vice", a meu ver.

2.Cheney, que acedera a Yale por força da (brilhante aluna e sua mulher) Lynne, é expulso da faculdade, como um "estróina", um "sacanazito" que bebe mais do que faz qualquer outra coisa e cujas notas o desqualificam. Continuará assim, até a sua relação ficar ameaçada pelas palavras da sua mulher que o obrigam/incentivam/instam a lutar e chegar ao topo da montanha (social-política-empresarial).

3.Com vários problemas de coração ("achaques" no miocárdio) ao longo da vida, em se encontrando a candidatar-se ao Senado, Cheney é acometido por novos casos de saúde e fica de cama. A sua mulher, como que o substituindo em comícios, discursa, então, no Sul e critica os "liberais snobes" de Washington que "não conhecem as pessoas reais como nós", lá onde as "mulheres queimam sutiãs" enquanto aqui "nós os usamos". Na genealogia histórica do populismo é como se o realizador Adam McKay quisesse sublinhar que aquele já vem de longe (aliás, bem antes dos anos 70, diga-se; mas o populismo, com aqueles traços e discurso concreto, repetido,desde então, como se passasse por aquele preciso tempo).

4.Embora o filme seja anunciado como tendo momentos de comédia, talvez, e mesmo assim não dá para grandes risadas, até porque fiel leitor de Orwell e portanto muito mais "científico" do que possa parecer, (a cena que, a esse propósito, o da comédia, se possa escolher seja a de) o génio do marketing, numa sessão do principal think tank americano de direita, mostrando, a um focus group, que a proposta republicana, em vez de ser "eliminar a taxação de heranças acima de 2 milhões de dólares", era acabar "com o imposto da morte" ("os liberais até mortos nos querem pôr a pagar impostos"). Aquilo que não passava [não era passível de ser aprovado, em termos políticos] como "eliminação da taxação de heranças acima dos 2 milhões de euros" passa [recebe a concordância de uma parte muito substancial do eleitorado] como "eliminação do imposto de morte".

5.Não sei se vem de antes, mas os "focus group" e os "think tank" como uma tendência crescente, de testar políticas, mensagens, palavras, reformas no final do século XX, início do século XXI. E, sobretudo, o filme mostra, como aliás descrito em vários outros lados, think tank financiados por multimilionários, como os irmãos Koch, para arranjar "intelectuais engajados" - muitas vezes, na verdade, propagandistas; no melhor dos casos, sofistas (na pior acepção acerca destes que nos chegou da antiguidade clássica) - de modo a encontrar justificações - ou jogadas de marketing - para fazer passar leis que até então parecia impensável fazer passar. Com vários idiotas úteis a alinharem em políticas que prejudicam a esmagadora maioria da população. E, esta, não raro, a "comprar" a propaganda.

6.Colocar pessoas em lugares-tenentes. O caso Antonio Scalia. O Supremo não permitiu a continuação da recontagem de votos na Florida. Bush filho eleito por uma diferença de 536 votos.

7.Cheney coloca a família em primeiro lugar, mesmo em permanência fazendo cálculo político. Uma das suas filhas, Mary, é homossexual. Cheney desiste de lutar por uma nomeação republicana, porque sabia que durante as primárias a descendente seria trucidada. A velha capa dupla, pai extremoso - compreensivo com a orientação sexual da filha, amando-a como ela é - e político implacável e sem o menor escrúpulo é aqui exposto à exaustão. Comparado com a mulher, Cheney chega a ser especialmente sensível nesse âmbito familiar.

8.Dedicando-se à vida empresarial, Cheney chega a CEO da Halliburton, empresa do ramo petrolífero. Quando, posteriormente, aceita fazer parte do ticket com George W.Bush, rescinde com a empresa, recebendo, para o efeito, 26 milhões de dólares. Inicialmente, pensava serem 13. "Não são burros", diz-lhe a mulher. Umas cenas adiante no filme: os generais informam o Vice e os seus apaniguados de que a Halliburton está a sobrefacturar. Estes afirmam-se não preocupados com o assunto. E mandam seguir com o briefing. Durante a guerra do Iraque, as acções da Halliburton chegam a valorizar 500%.

9.Apagões de emails das contas da Casa Branca, inacessíveis até hoje, nomeadamente as que contendiam com Dick Cheney. Um Presidente completamente dominado pela ala do Vice, que incluía o não menos falcão Paul Wolfowitz. Ou o agora discípulo - invertem-se os papéis, pois - Rumsfeld. Um Presidente pau mandado que quer a Presidência para impressionar o pai - tese que o filme corrobora. Os juristas essenciais para legitimar a tortura. A teoria jurídica para reforçar, praticamente sem restrições, o poder do Presidente. A decisão de invadir o Iraque antes mesmo da Presidência se iniciar. As mentiras deliberadas para justificar as armas de destruição maciça. O pior dia da vida política de Colin Powell, um homem que não acreditava no que foi dizer à ONU. Ausência de quaisquer registos, nomeadamente fiscais, de Cheney. As multinacionais a legislarem. O "aquecimento global" abafado e substituído pelas "alterações climáticas". Al Zarqawi a fazer nascer o Estado Islâmico, o ISIS, precisamente quando os serviços secretos eram manipulados para estabelecer uma inexistente ligação Al Qaeda-Iraque. O aproveitamento do clima de medo, por um lado, e de vontade de "vingança", por outro, de muitos americanos na sequência do 09/11. O fim da lei que exigia o contraditório, nos media, quando se dava cobertura a uma dada questão, tentando-se uma racionalidade a partir dos factos: eis o início da nova era das "verdades alternativas", das "fake news", de "a cada um a sua verdade". 

10.O filme contabilizou, em vítimas diretas da Guerra do Iraque, 600 mil pessoas. Mais 150 mil mortos na guerra civil da Síria, e no Iraque, às mãos do Isis. 

11.A monstruosidade, o dolo sem escrúpulos, a matança e a destruição de países, povos, culturas, património da humanidade precisava de um filme que ajudasse a fixar os acontecimentos e a cupidez pornográfica na origem dos mesmos para o grande público. Tudo se passou, como escreve o Expresso, com uma bateria exaustiva de entrevistas, de recolha de materiais, de uma biografia que meteu jornalistas contratados para o efeito, advogados que viram se o filme estava em condições de ser lançado. Que depois disto se tenha lido, por cá, nos sítios do costume, que faltava isenção, foi como que cair na armadilha daquele republicano que diz, na última cena do filme, "ah, isto é um filme com viés liberal". O crítico já não ouviu a resposta: "os factos são liberais?". Talvez seja o momento de mordacidade irónica que conservemos de um filme que mostra a miséria moral levada a um extremo absurdo, bem como o falhanço dos checks and balances e de como a concentração mediática deixa o liberalismo sem um dos seus tripés.


P.S.: sei que os "monstros" nacionais são sempre mais importantes, que o Iraque fica longe, etc. Mas vale a pena ter noção das coisas: quando olhamos, em termos ocidentais para o que foi este século XXI, convinha ter noção de quem perpetrou o quê. De quem continua à solta. De quem apoiou semelhante catástrofe e de qual foi o futuro de cada um. E comparar com os que recentemente foram obrigados a abandonar a vida política portuguesa pelo opróbrio em torno de si. E comparar o mal a que ficaram ligados. Recordar de quem disse Rumsfeld, imagine-se, ser "muito ambicioso". O retrato de concentração mediática também seria curioso de aplicar mais perto de nós. Dos anos da Guerra do Iraque, honra a Diogo Freitas do Amaral, por exemplo, que entre manter a pose bem comportada e defender a verdade, a moralidade e a legalidade internacional preferiu pagar o preço por recusar a primeira. Há momentos particularmente especiais em que se medem os homens. 
Os auto-proclamados "vigilantes", na época, assim se mantém, quase vinte anos volvidos como as grades cassandras do regime, sem um pedido de desculpa. 

Questões suscitadas a propósito da problemática da eutanásia (IV)


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A Associação Média Mundial acabou, em outubro de 2017, de rever, precisamente, a forma de juramente [hipocrático] e parece que, se lermos a nova formulação, não encontramos lá nenhuma reserva àquilo que é o suicídio medicamente assistido

Dentro do ordenamento jurídico europeu, a forma como o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem tem tratado esta questão é importante para percebermos que o Tribunal começou por afirmar uma margem de liberdade do legislador para regular ou não esta matéria, não obstante não determinar uma obrigatoriedade de legislar, mas que as últimas decisões do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem vão progressivamente no sentido de estreitar essa margem do legislador, na tal relação do sujeito consigo mesmo.

O que é isto de «vida digna de se viver»?

Parece-me que será uma questão de tempo até percebermos que o contrato social que temos uns com os outros e a forma como lidamos com o que o Estado pode ou não legitimamente impor-nos, tem também aqui uma questão central, e que provavelmente evoluirá para esse tipo de consenso.

Luísa Neto, Jurista, Professora Universitária, no debate, promovido pelo CNECV, em Coimbra, a 7 de Novembro de 2017, e recolhido em Decidir sobre o final da vida. Ciclo de debates, CNECV, pp.124-125.




Podemos incorrer numa espécie de falta de compaixão ou, pelo contrário, agirmos por compaixão de um modo precipitado.

O ponto central do debate da eutanásia, como está posto nos projectos em discussão, e como é normalmente assumido, é a autonomia. O termo autonomia tem o sentido kantiano, de dar a lei a si próprio, o que não é exactamente a mesma coisa que o livre-arbítrio ou a livre-escolha.

A noção de autonomia como uma escolha abstracta e vazia parece-me um princípio demasiado formal.

Admitir a eutanásia pode conduzir a uma sociedade onde a morte e a vida são tecnicamente administradas segundo uma «livre escolha» formal, apenas como mais uma commodity.

A posição da maior parte das associações de deficientes é contra a eutanásia.


Diogo Falcão Ferrer, Filósofo, Professor Universitário, no debate, promovido pelo CNECV, em Évora, a 10 de Outubro de 2017, e recolhido em Decidir sobre o final da vida. Ciclo de debates, CNECV, pp.104-105.




O que nós temos aqui não é propriamente o Estado a atentar contra a vida, ou seja, o Estado a não respeitar, a violar o direito à vida. O que temos, eventualmente, em termos de argumento de inconstitucionalidade, é, digamos, uma alegação de que se o Estado descriminalizar, se o Estado deixar de considerar crime aquilo que hoje é crime, então aí não está a proteger suficientemente a vida. Isto é, a inconstitucionalidade derivaria do facto de haver uma protecção insuficiente da vida. (...) E a pessoa nessas circunstâncias, depois de reiteradamente lhe serem dadas todas as alternativas, incluindo cuidados paliativos, se essa pessoa mantém a intenção de pôr termo à vida, aí estamos muito longe daquela situação de mínimo que o Estado tem que garantir.

Em termos de princípio, seria conveniente que os programas eleitorais de cada um dos partidos considerassem, pelo menos, as questões essenciais que serão depois discutidas na legislatura. Não o fazendo, há sempre um défice de legitimação, mas não mais do que isso.

Se a constituição diz «a vida humana é inviolável», se se permite, apesar de ser uma situação extrema, que a pessoa seja morta, não estará aqui o Estado a deixar de defender este princípio constitucional? A meu ver não. Aquele enunciado que diz «a vida humana é inviolável» é o mesmo enunciado que permite que, por exemplo, hoje uma pessoa recuse uma transfusão de sangue em nome de uma convicção religiosa e o Estado não se vai meter nisso, mesmo sabendo que aquela pessoa vai morrer. (...) O que eu entendo é que, se tudo ficar na mesma [criminalização da eutanásia], aí sim, é que há violação da dignidade.

Se o legislador liberalizasse totalmente, em qualquer situação, não estaria a proteger suficientemente a vida; se o Estado, nestes casos extremos, não der o mínimo de possibilidade de ouvir qual é a minha posição acerca da minha morte, não está a reconhecer a dignidade da pessoa humana e está a violar a Constituição

Jorge Reis Novais, Jurista, Professor, no debate, promovido pelo CNECV, em Coimbra, a 7 de Novembro de 2017, e recolhido em Decidir sobre o final da vida. Ciclo de debates, CNECV, pp.126-127.



A autonomia da vontade tem limites no nosso ordenamento jurídico, todos aprendemos nas universidades. Os contratos, as declarações de vontade fundadas na autonomia privada nem sempre são válidos, porquê? Porque põem em causa a dignidade da pessoa humana. 

Ninguém pode, por força de um contrato, perder a sua liberdade tornando-se escravo de outrem. Significa que há um bem superior à liberdade. Por maioria de razão, um contrato ou declaração que peça a extinção da vida não pode ser atendido. Não há espaço para suicídio assistido nem morte a pedido.

Fernando Soares Loja, representante da Aliança Evangélica Portuguesa, no debate, promovido pelo CNECV, na Covilhã, a 12 de Setembro de 2017, e recolhido em Decidir sobre o final da vida. Ciclo de debates, CNECV, pp.82-83.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A propósito de revisionismos históricos (e dos ignorantes que os aceitam)


Pouco mais de dois meses após o assassinato de[Vladimir] Herzog, a morte do operário Manoel Fiel Filho, nas dependências do Codi DOI paulista, produziu versão idêntica [pela polícia: a tese do suicídio]. Fiel Filho foi o 39º caso de suicídio de prisioneiro político da ditadura e o 19º a se enforcar - em dois desses casos, os presos teriam se enforcado sentados.

Ibidem, p.480.

P.S.: como se deixa de ler livros, e se segue, clubisticamente, uma dada linha ideológica, e é apenas a propaganda de facebooks amigos que se recebe, e mesmo à distância de um oceano se importa o fanatismo dos tresloucados, é preciso voltar aos factos e respeitar as vítimas de todos os regimes despóticos, sejam estes de direita, de esquerda, teocracias, o que for. Reescrever-se a história contemporânea brasileira, dizendo que nela não houve ditadura, e ter uns marmanjos ignorantes, por cá, a repetir é dessas faltas que não podem passar em claro.

Sergio Ricardo - Calabouço (1973)



A situação da economia nutriu a politização da sociedade, mas a oposição também havia mudado o ritmo, a forma e a linguagem do enfrentamento político com a ditadura. Em Março de 1973, o estudante Alexandre Vannucchi Leme foi sequestrado, torturado e morto no Codi-DOI de São Paulo. Vannucchi era aluno da Universidade de São Paulo (USP), tinha liderança no meio universitário paulista, militava numa organização revolucionária - a ALN -, e o sequestro ocorreu dentro da Cidade Universitária. Sua morte comoveu a população e devolveu o movimento estudantil às ruas. Três mil estudantes compareceram à missa em memória do colega assassinado, celebrada em plena catedral da Sé, pelo Cardeal D.Paulo Evaristo Arns, uma das principais referências religiosas dos brasileiros na defesa pelos direitos humanos. A polícia cercou a USP, montou barreiras policiais em pontos estratégicos da cidade e um aparato de guerra em frente à catedral. Quem conseguiu furar o bloqueio e entrar na Igreja, porém, viveu um dia para não esquecer: 24 padres oficiaram com o cardeal Arns uma missa que emocionou o Brasil inteiro. Pouco antes da comunhão o compositor Sérgio Ricardo surgiu no altar, violão em punho, e cantou, pela primeira vez, a canção "Calabouço", unindo dois assassinatos: o de Alexandre Vannucchi Leme e o de Edson Luís de Lima Souto, morto pela polícia cinco anos antes, como vimos, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro.

Lilia M.Schwarcz e Heloísa M. Starling, Brasil. Uma biografia, Circulo de Leitores.Temas e Debates, Lisboa, 2015, p.479.


Venezuela em análise


Na mais recente edição do GPS, de Fareed Zakaria, Moisés Naím (ex-ministro do Comércio e ex-Diretor do Banco Central da Venezuela, e um reputado intelectual) colocou em três níveis fundamentais os problemas que se vivem na Venezuela de hoje:

a) a ajuda humanitária, enviada pelos EUA e outros países da América Latina e que o Governo Maduro não permite que entre no país. Face à fome vivida na Venezuela, e com a população desesperada por estes alimentos e medicamentos, a tensão na fronteira com a Colômbia fez sentir-se e poderá tornar-se ainda mais incandescente;

b) sistema financeiro internacional. O auto-proclamado novo presidente da Venezuela, Juan Guaidó, tentou tomar o controlo de bens venezuelanos no exterior do país, nomeadamente os que contendiam com a petrolífera estatal venezuelana; 

c) disputa nos quartéis e nas bases militares. Entre soldados e oficiais de topo. "Os oficiais de topo estão bem, são corruptos, alguns traficam droga". Recebem incentivos do Governo para se manterem leais. Mas os militares (de base) sofrem como a restante população.

Fareed Zakaria lembrou Samuel Huntington, quando este asseverava que a transição surge quando surge a cisão na elite do regime. Para já, ainda não há generais a desertarem, p.ex., com uma ou duas excepções. 

De acordo com Shannon O'Neil, o motivo pelo qual as Forças Armadas não se afastaram do regime radica no facto de o próprio regime ser militarista. Muitos ministros são generais, quem dirige o programa alimentar também, quem dirige a empresa estatal de energia, idem aspas. As Forças Armadas mandam no Governo e, por isso, são elas que vão decidir se Madura fica ou cai. 

Outro dos motivos pelos quais o regime venezuelano de Nicólas Maduro não cai é pelo suporte externo de que dispõe, em particular da China e da Rússia. 

Em breve, os recursos financeiros à disposição do Governo serão escassos e isso poderá fazer com que os oficiais revejam o apoio que têm dado ao regime. 

Cruz, símbolo

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A fé dos outros não me diz respeito; aquilo em que acredito ou não acredito já é um trabalho a tempo inteiro. Mas admito que me faz alguma impressão a total indiferença religiosa. Não a indiferença à fé ou às igrejas, mas ao sagrado enquanto facto antropológico e alegoria do humano. Entendo, e às vezes acompanho, as críticas às intolerâncias e iniquidades das religiões organizadas, incluindo as cristãs, mas sempre achei bizarro que alguém declare, por exemplo, que nunca leu a Bíblia porque é ateu, como se a Bíblia fosse imprestável para incréus
Uma refutação veemente desse tipo de recusas encontrei-a num artigo que a escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991) publicou no jornal comunista "l'Unitá", a 22 de Março de 1988. Nascida numa família laica de origens judaicas, filiada no PCI, Ginzburg interveio inesperadamente na polémica sobre os crucifixos nas escolas. Não é a questão concreta que aqui me interessa, até porque defendo que num Estado não-confessional os edifícios públicos não devem ter símbolos religiosos; mas impressionou-me a valorização simbólica que a escritora faz da cruz de Cristo, que ela não interpreta exclusivamente como um artefacto religioso. Admitindo que, se fosse professora, preferia ter a cruz na sala de aula, Ginzburg assevera que "o crucifixo não gera nenhuma discriminação". E que é, bem pelo contrário, a imagem de uma revolução, a "revolução cristã que espalhou pelo mundo a ideia de igualdade entre homens". E, então, pergunta: vamos negar que essa ideia mudou o mundo? E vamos negar que é justo celebrá-la?
Pode contrapor-se que a cruz simboliza para muita gente alguns aspectos do cristianismo bem menos benévolos. Mas o argumento do artigo é que o crucifixo é igualmente um símbolo de todo o sofrimento humano. Os pregos e a coroa de espinhos e a cruz evocam a dor, a solidão, a morte, males aos quais ninguém está imune. Quem é aquele condenado na cruz? Filho de Deus para uns, judeu perseguido para outros, é para tantos a imagem viva de um homem martirizado pelo amor a Deus e ao próximo. E esta ideia do "próximo" não pode ser indiferente nem a um ateu, muito menos a um progressista. Jesus na cruz representa todos aqueles que sofreram e morreram pelos outros, escreve Ginzburg, e esclarece logo que não vê escândalo nenhum nessa afirmação: "Porque antes de Cristo ninguém tinha dito que todos os homens são iguais, e irmãos; todos, ricos e pobres, crentes e não crentes, judeus e não-judeus, negros e brancos; e ninguém tinha dito que no centro da nossa existência deve estar a solidariedade entre os homens. E ser vendido, traído, martirizado e morto por causa da fé é uma coisa que pode acontecer a todos. Acho que é bom que os rapazes, as crianças, aprendam isso nos bancos da escola".
A autora de "Léxico Familiar" diz que olhamos para o crucifixo como coisa muda que está numa parede ou faz parte da parede, mas que o crucifixo não é mudo nem inócuo: é um símbolo que traz consigo palavras. Palavras cristãs mas que há muito fazem parte da consciência colectiva, palavras como "bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados". Pergunta Ginzburg: "Como serão saciados? No Céu, dizem os crentes. Enquanto os outros não sabem nem quando nem onde, mas estas palavras fazem com que sintam, sabe-se lá porquê, a fome e a sede de justiça de forma mais severa, mais ardente e mais forte".

Pedro Mexia, Imagem viva, Expresso, Revista do Expresso, Edição 2415, 09-02-2019, p.106.

A vida como ela é

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A Lídia, professora, podia esperar que os insultos que lhe foram dirigidos sob anonimato - mas cuja autoria, afinal, não tardou a descobrir - viessem, ainda que mal, ainda que tristemente, do Guilhemundo, o rapaz da última fila da turma mais conflituosa do ano anterior, com quem mantivera acesas trocas de palavras, diálogos duros, por vezes excessos mesmos (de que se arrependia imediatamente, e pelos quais se torturava enquanto percorria os vinte minutos a pé que mediavam entre os portões escolares, e os de casa). Sucede que as palavras grosseiras, ordinárias, lhe vieram do Reinildo, o campeão das boas notas, o rapaz dos "100%" teste sim, teste sim, o homem dos quadros de excelência. Ele, a quem tanto elogiara, ele a quem tanto se apegara, chamava-lhe, agora, os piores nomes, ainda que pensando encontrar-se em lugar escondido e sem hipóteses de ser apanhado - como é o digital dos nossos dias. A Lídia chorou, sentiu-se atraiçoada como só quem esteve na pele deste muito mais que ofício pode saber. Talvez, semanas depois, a Lídia se convença - "eu quero acreditar..." - que se tratou "apenas" de uma imbecilidade, de um arroubo (cobardolas) de uns fedelhos entusiasmados na necessidade de dedilharem no ecrã a sua virilidade tão banal e rasteira, eles - "eu quero acreditar..." - não pensam isso dela, não sentiram o que escreveram. E talvez não tenham pensado, nem sentido isso, quem sabe?, na verdade nem os próprios. Apeteceu-lhes dizer uns palavrões, mostrarem-se másculos, mesmo que com o gorro electrónico metido para não se dar por eles (como diz o ti Aníbal, "um homem quer-se com génio, nem que seja debaixo da cama..."), e identificaram um alvo que lhes pareceu adequado, ou fácil. Mas, recuando ao momento da notícia, ao choque, ao rompante a Lídia reviu toda a forma de se relacionar com os alunos, ao longo dos anos. A Lídia desconfia agora de um elogio, de uma palavra amiga, de uma simpatia, de uma benévola troca de olhares dos "discentes". Os novos alunos nada têm a ver com o que se passou, desconhecem, aliás, a existência desse passado, não têm culpa. Sim, claro. Mas é impossível, psicologicamente, até o luto interior estar feito, dar-se, como até ali, por inteiro. O que se encontrará por detrás de cada palavra "amiga"? Por isso, note-se a responsabilidade do Reinildo (e do Fonseca), o como o seu gesto afecta tanto os seus colegas (que aparentemente nada teriam a ver com o assunto). Uma vez mais, a verdade de que a pessoa é relação e de que afecta, para o bem e para o mal, com os seus gestos, os demais. 
É certo que, por vezes, pode ser difícil ao Reinildo dizer que não a uma aproximação simpática de um professor - vai responder com frieza, indiferença ou agressividade a quem o solicita? Sucede na sala o que reina no humano mundo: gostamos mais de umas pessoas do que elas nos apreciam e, por vezes, o inverso calha a suceder: têm por nós um afecto mais intenso do que nós por elas. O que, em qualquer caso, se deveria procurar evitar, era cair-se na crueldade: por o aluno Reinildo não gostar, porventura, tanto da professora Lídia gosta do aluno Reinildo, não tem este o direito de lhe atirar os piores insultos, mesmo que às escondidas.
Há, ainda, a noção dos papéis e dos lugares de cada um; estes são importantes, e deles se há-de ter consciência bem clara. Mas, por outro lado, a ideia de que, ainda assim, há um plus além destes no relacionamento quotidiano professor-aluno, parece-me inevitável, num quadro entre dois humanos. A não ser que tenhamos chegado, de facto, a um paroxismo tal nas relações humanas que estas se limitem a funções e papéis, burocraticamente assumidos. Sem uma vírgula, um ponto, uma adversativa.
Contam-me, por fim, que a prática de cyberbullying se dá, em boa medida, por parte dos que nasceram bem, habituados, portanto, a falar de cima (para baixo).
Quando digo à Lídia que mesmo ter pessoas (alunos) com quem estávamos/nos sentíamos tão próximos em Junho que chegam, vá lá, a Outubro e nos viram olhos, já é suficiente pena - "quanto mais isto..." - ela responde-me: "a isso de virar a cara já estamos habituados...". E fico a pensar que a frase "com a idade ficamos mais tolerantes..." anda ali numa perigosa fronteira com "com a idade deixamos, muitas vezes, passar o mal, como se não fosse nada". Um cumprimento, só isso, é um "quero que tu sejas". A recusa dessa mínima troca, pode ser a antítese desse bordão. O Peguy dizia que as crianças ainda não foram derrotadas pela vida. A Lídia vai ter que conviver com mais uma - e a Lídia é ela e nós.

Se as pessoas passam a duvidar sobre se conseguem transmitir, para além dos conhecimentos técnicos, alguma coisa (ao nível da relação humana), ou se duvidarem mesmo do próprio ser humano, em casos como estes, aquilo que fazem (dar aulas) pode perder para elas o sentido e isso é muito complicado.