Nunca se achou imortal?
Não, nem mesmo nessa fase da adolescência. Os meus amigos gostavam muito da borga, mas eu preferia estar num bar que desse para conversar. O Procópio, o Tostão, o Foxtrot. A Primorosa de Alvalade, que agora apareceu outra vez. Eram sítios onde havia hipótese de conversar e onde discutíamos coisas filosóficas, a existência de Deus. (...) Estávamos no antigo regime. Ouvíamos discos clandestinos, Léo Ferré, havia sempre alguém cujo pai ou mãe ia a França e lá trazia na mala do carro os vinis. Livros de Simone de Beauvoir que eram censurados mas alguém trazia. (...) Lembro-me de ter ido ver o Maurice Béjart ao coliseu no dia em que o Robert Kennedy foi assassinado. No final, ele foi chamado ao palco, altamente aplaudido, falou do Kennedy e disse "vive la liberté". Mal chegou aos camarins, a PIDE agarrou nele e mandou-o para França. Lembro-me de esse episódio me ter chocado muito. Mas o livro que mais me marcou e que li em francês foi o "Les Miserables". A percepção das injustiças.
Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.24.
Sem comentários:
Enviar um comentário