terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Adolescências


Nunca se achou imortal? 

Não, nem mesmo nessa fase da adolescência. Os meus amigos gostavam muito da borga, mas eu preferia estar num bar que desse para conversar. O Procópio, o Tostão, o Foxtrot. A Primorosa de Alvalade, que agora apareceu outra vez. Eram sítios onde havia hipótese de conversar e onde discutíamos coisas filosóficas, a existência de Deus. (...) Estávamos no antigo regime. Ouvíamos discos clandestinos, Léo Ferré, havia sempre alguém cujo pai ou mãe ia a França e lá trazia na mala do carro os vinis. Livros de Simone de Beauvoir que eram censurados mas alguém trazia. (...) Lembro-me de ter ido ver o Maurice Béjart ao coliseu no dia em que o Robert Kennedy foi assassinado. No final, ele foi chamado ao palco, altamente aplaudido, falou do Kennedy e disse "vive la liberté". Mal chegou aos camarins, a PIDE agarrou nele e mandou-o para França. Lembro-me de esse episódio me ter chocado muito. Mas o livro que mais me marcou e que li em francês foi o "Les Miserables". A percepção das injustiças. 

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.24. 

Sem comentários:

Enviar um comentário