domingo, 10 de fevereiro de 2019

Antologia de debates



Saiu, muito recentemente, um livro "Decidir sobre o final da vida. Ciclo de Debates", editado pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), que é uma antologia dos debates levados a cabo pelo CNECV em todo o país - ilhas evidentemente incluídas - com passagem por Vila Real (em sessão, na segunda das fotos que aqui deixo, reproduzida, em síntese; estive lá, na Biblioteca Municipal, numa tarde de 4 de Julho de 2017, neste blog deixei o bloco de apontamentos do que de mais relevante tomei nota; apareço ao fundo, na imagem).
Ora, na leitura que já me foi possível fazer, das primeiras páginas da antologia, pareceu-me muito bem captada e pertinente - e ainda não tinha lido, em debates múltiplos, este distinguo bem interpretado - a distinção feita pelo Professor Michel Renaud, na sessão ocorrida no Porto (a 5 de junho de 2017), quanto ao entendimento, diferenciado, ontológico ou fenomenológico, que podemos ter sobre a dignidade da pessoa, e que influencia também o nosso ponto de vista sobre estas matérias: "Para os adversários da eutanásia, a dignidade humana é ontológica. Isto é, nunca um ser humano pode perder a sua dignidade, qualquer que seja a sua situação física, mental. Para os proponentes da eutanásia, a dignidade humana é um dado que se pode chamar fenomenológico que depende também fortemente das situações concretas, que se avaliam pelos critérios e aspectos exteriores de sofrimento físico e moral e de dependência, de tal modo que se chega a afirmar que uma pessoa pode ter perdido toda a sua dignidade" (p.37). É certo que na mesma sessão, o Professor Rui Mota Cardoso deixa interrogação que pode parecer contender com esta - a saber, "é a dignidade humana algo que transcende a dignidade de cada homem e cada mulher?" -, mas, em realidade, não creio que seja vista, necessariamente, como objecção à perspectiva enunciada por Michel Renaud relativamente ao entendimento dos adversários da eutanásia quanto à humana dignidade, ou, se se preferir, não parece questionamento bastante - que, numa certa declinação do mesmo, poderia sugerir ser retórico - para liquidar aquele ponto de vista: a dignidade está estritamente ligada a cada homem e mulher concretos, sendo que, para o entendimento ontológico da mesma dignidade, cada rosto concreto, independentemente da situação física ou mental em que se encontra, tem valor; tem um enorme valor. É a isso que chamamos dignidade.
Ainda pelas páginas iniciais do livro publicado pelo CNECV, muito pertinente se me oferece um dos considerandos do Professor José Gil, em pensando a sociedade, a cultura em que vivemos e a morte (nela): "Há o apagamento progressivo do acontecimento da morte no meio dos acontecimentos da vida quotidiana: cerimónias fúnebres cada vez mais reduzidas, mais curtas e separadas, excluídas, escamoteadas, insignificantes. Os mortos que povoavam a vida dos homens nas sociedades arcaicas e mesmo modernas estão a desertar as nossas aceleradamente. Os mortos migraram para além da memória. (...) Quanto mais os mortos os vivos apagam das suas vidas, mais estas empobrecem, menos força vital e identidade têm. Isto reflecte-se na situação do doente terminal, cada vez mais só, cada vez mais excluído da sociedade, no hospital, anónimo, muitas vezes num deserto afetivo. Porquê?" (p.23)

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