terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Armados em super-homens


Sinto que [os pais] passam [aos filhos] muitas vezes a mensagem "tens de ter, tens de ter, tens de ter". Às vezes fico a pensar nesses casos todos que vemos: para quê querer ter tanta coisa? Muitas pessoas passam a vida a trabalhar e nem gozam nada, não têm tempo. E isso é outra coisa que vejo: as pessoas pensam a certa altura que são imortais, aquela ideia que se tem na adolescência. Ora, não vamos viver para sempre, é uma ilusão. A nossa vida é limitada. Mais, é quase ridícula quando comparada com uma árvore ou um saco de plástico. Até coisas tão banais vivem largamente mais tempo que nós. Ainda noutro dia estava em Serralves a olhar para uma oliveira. Aquela oliveira carcomida tinha mais de mil anos. Se uma pessoa se puser a pensar no que era isto quando aquela oliveira nasceu, como era o mundo, relativizamos muita coisa. Faz-nos sentir ridículos, não num sentido pejorativo, mas mostra como a nossa existência é pequenina. Não vale a pena estarmos armados em super-homens porque não somos.

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.23.

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