terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Arquétipos


Tínhamos uma boa vida e não vou negar isso mas tínhamos o que precisávamos, não mais do que precisávamos. [O meu pai] era uma pessoa altamente espartana, tinha vindo sozinho de Goa aos 14 anos, para casa de um tio jesuíta, muito rígido, rigoroso e exigente. Herdou um bocado isso. Quando tínhamos boas notas, enquanto alguns pais ofereciam prendas aos filhos, o meu pai dizia sempre "têm livros, andam numa escola boa - andava no Pedro Nunes - e portanto não fizeram mais do que o que deviam". Às vezes, irritava-me, via os meus amigos com isto e aquilo, mas fez-me muito bem. O meu pai era muito solicitado até para a vida social e nunca fez nada disso. Gostava de estudar, fazia consultório [pediatria] porque precisava, tinha oito filhos, mas eram só três dias por semana entre as três e as seis da tarde. (...) São as memórias que ficam e que depois reproduzimos, são os tais arquétipos de opções de vida: mesmo quando estava a trabalhar na faculdade, fazia tudo por ir almoçar a casa. Gostava de estar ali aqueles dez minutos e nós todos fazíamos um esforço para ir almoçar. Depois íamos tomar café. O meu pai ia sempre dormir um quarto de hora antes d ir apanhar o metro para ir para o consultório e pedia sempre a um de nós que escolhesse um disco para pormos a tocar. Não tocava nenhum instrumento mas era um melómano e contava sempre alguma coisa sobre as músicas. (...) Enganar e repetir não sei quantas vezes. Uma das coisas que aprendi mais com ele foi que não somos perfeitos, longe disso. O que devemos pensar é que somos imperfeitos mas isso é uma vantagem: é um estímulo a aprender, a melhorar, a aperfeiçoar. Voltamos ao início: leva-nos a pensar no que podemos fazer para que amanhã seja melhor do que o hoje.

Mário Cordeiro, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.22.

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