Sim: o que estava apenas
acessível a uma elite, encontra-se agora disseminado; o conhecimento, levando
ao fim, ou, pelo menos, mitigando a ignorância, permitirá a emancipação dos
indivíduos, em várias zonas do globo, deixando para trás distorções da
realidade acerca do mundo e dos outros circundantes. As redes sociais, se não
produzem, elas mesmo, esse conhecimento, podem torná-lo muito mais
próximo/acessível. Em vez de uma sociedade extremamente hierárquica - em que só alguns podiam falar e ter opinião em televisões, jornais, rádios, com
separação em castas, permitindo uma excessiva desigualdade de poder entre
pessoas – com a consequente possibilidade de, respectivamente, arrogâncias e
humilhações desmedidas – reforça-se o sentimento de pertença à mesma
comunidade; acentua-se a coesão social.
A internet, com as
redes sociais, pode ajudar a forjar, mesmo, como refere o filósofo Pierre Levy, uma “inteligência
colectiva”:
“O que é a inteligência coletiva? É uma inteligência globalmente
distribuída, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que conduz a
uma mobilização efetiva das competências. Acrescentemos à nossa definição este acompanhamento indispensável: o
fundamento e o fim da inteligência colectiva é o reconhecimento e o
enriquecimento mútuo das pessoas, e não
o culto de comunidades fetichisadas ou hipostasiadas” (Levy, 1997, 38)
Não: A ideia de que quando
emitimos uma opinião acerca d’Os Maias no
facebook, quando lemos a crítica que
um amigo publicou sobre o último filme na mesma rede social, de aí resulta um
acréscimo de conhecimento, e de que, com a produção desses comentários, estamos
ao mesmo nível, no mesmo patamar de quem estudou, afincadamente, ao longo de
anos, Os Maias, leu as edições
críticas, ouviu os melhores especialistas na matéria, o mesmo sucedendo com o background do crítico de cinema, do
Professor de Cinema quando nos ensina a ler um plano, ou o significado do
último travelling – face à nossa
apreciação do filme, essa ideia de que estamos na mesma dimensão (horizontalidade) é, apenas, uma falácia.
Não é por vivermos o “culto do amadorismo” (Andrew Keen) que as diferenças de conhecimento deixam de lá estar,
com as suas hierarquias. Das redes sociais
não emerge qualquer coisa a que possamos chamar “inteligência colectiva”.
Não: A promessa de (aparente) democraticidade que a
internet trouxe, nomeadamente, ao nível do conhecimento e o modo como essa
democraticidade não se tem observado na prática é bem ilustrada no que tem sido
a abertura de cursos massivos online, muitas vezes grátis, e com os melhores
professores de algumas das mais prestigiadas universidades do mundo: quem os
realiza, como indica Martin Ford, é
quem já possui um conjunto de bases e ferramentas, muitas vezes já com um
diploma académico; quem não tem background (prévio), ao fim de algumas semanas,
desiste.
Em
concreto, as redes sociais, ademais, costumam contribuir, no seu número
limitado de caracteres, em alguns dos casos, na escassa leitura que um tópico
com 4 parágrafos granjeia, para a simplificação de ideias, para a “gramatização
do pensamento”(Bernard Stiegler),
para a esquematização. O conhecimento degenera em informação. Sem capacidade de
elaboração teórica, sem reflexão nem radicalidade ninguém se encontra apto para
poder ler o mundo, nem munido da complexidade bastante para evitar ou minorar
conflitos. Bem ao invés, a simplificação, os slogans, os soundbites são
susceptíveis de gerar mais atritos.
Como refere Bernardo Carvalho, “nas
redes sociais não cabe a excepção nem o devido, nem cabe a ambiguidade, nem a contradição
e sem isso não há reflexão. (...) Pode ser que a literatura tenha um efeito de
reação contrária, o lugar protegido contra esse mundo. Para mim, a literatura é
isso, o lugar da resistência. No sentido político, ela é o lugar do real, o lugar da resistência, da
ambiguidade, da contradição, da reflexão. (Bernardo Carvalho, entrevistado por Isabel
Lucas, O desejo não acaba mas o corpo acaba, para a Ler,
nº150, Verão 2018, p.62).
(continua)
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