domingo, 10 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (II)?



Sim: o que estava apenas acessível a uma elite, encontra-se agora disseminado; o conhecimento, levando ao fim, ou, pelo menos, mitigando a ignorância, permitirá a emancipação dos indivíduos, em várias zonas do globo, deixando para trás distorções da realidade acerca do mundo e dos outros circundantes. As redes sociais, se não produzem, elas mesmo, esse conhecimento, podem torná-lo muito mais próximo/acessível. Em vez de uma sociedade extremamente hierárquica - em que só alguns podiam falar e ter opinião em televisões, jornais, rádios, com separação em castas, permitindo uma excessiva desigualdade de poder entre pessoas – com a consequente possibilidade de, respectivamente, arrogâncias e humilhações desmedidas – reforça-se o sentimento de pertença à mesma comunidade; acentua-se a coesão social.
A internet, com as redes sociais, pode ajudar a forjar, mesmo, como refere o filósofo Pierre Levy, uma “inteligência colectiva”:

“O que é a inteligência coletiva? É uma inteligência globalmente distribuída, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que conduz a uma mobilização efetiva das competências. Acrescentemos à nossa definição  este acompanhamento indispensável: o fundamento e o fim da inteligência colectiva é o reconhecimento e o enriquecimento mútuo das pessoas, e não  o culto de comunidades fetichisadas ou hipostasiadas” (Levy, 1997, 38)



Não: A ideia de que quando emitimos uma opinião acerca d’Os Maias no facebook, quando lemos a crítica que um amigo publicou sobre o último filme na mesma rede social, de aí resulta um acréscimo de conhecimento, e de que, com a produção desses comentários, estamos ao mesmo nível, no mesmo patamar de quem estudou, afincadamente, ao longo de anos, Os Maias, leu as edições críticas, ouviu os melhores especialistas na matéria, o mesmo sucedendo com o background do crítico de cinema, do Professor de Cinema quando nos ensina a ler um plano, ou o significado do último travelling – face à nossa apreciação do filme, essa ideia de que estamos na mesma dimensão (horizontalidade) é, apenas, uma falácia. Não é por vivermos o “culto do amadorismo” (Andrew Keen) que as diferenças de conhecimento deixam de lá estar, com as suas hierarquias. Das redes sociais não emerge qualquer coisa a que possamos chamar “inteligência colectiva”.

Não: A promessa de (aparente) democraticidade que a internet trouxe, nomeadamente, ao nível do conhecimento e o modo como essa democraticidade não se tem observado na prática é bem ilustrada no que tem sido a abertura de cursos massivos online, muitas vezes grátis, e com os melhores professores de algumas das mais prestigiadas universidades do mundo: quem os realiza, como indica Martin Ford, é quem já possui um conjunto de bases e ferramentas, muitas vezes já com um diploma académico; quem não tem background (prévio), ao fim de algumas semanas, desiste.
Em concreto, as redes sociais, ademais, costumam contribuir, no seu número limitado de caracteres, em alguns dos casos, na escassa leitura que um tópico com 4 parágrafos granjeia, para a simplificação de ideias, para a “gramatização do pensamento”(Bernard Stiegler), para a esquematização. O conhecimento degenera em informação. Sem capacidade de elaboração teórica, sem reflexão nem radicalidade ninguém se encontra apto para poder ler o mundo, nem munido da complexidade bastante para evitar ou minorar conflitos. Bem ao invés, a simplificação, os slogans, os soundbites são susceptíveis de gerar mais atritos.

Como refere Bernardo Carvalho, “nas redes sociais não cabe a excepção nem o devido, nem cabe a ambiguidade, nem a contradição e sem isso não há reflexão. (...) Pode ser que a literatura tenha um efeito de reação contrária, o lugar protegido contra esse mundo. Para mim, a literatura é isso, o lugar da resistênciaNo sentido político, ela é o lugar do real, o lugar da resistência, da ambiguidade, da contradição, da reflexão(Bernardo Carvalho, entrevistado por Isabel LucasO desejo não acaba mas o corpo acaba, para a Ler, nº150, Verão 2018, p.62).


(continua)

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