segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência? (III)


b) o argumento de que as redes sociais são um instrumento (?). Ou um meio (?). Ou ambas as coisas (?).

Sim: as redes sociais não podem ser vistas como más (em si mesmas). Permitem divulgar acontecimentos muito positivos que estimularão a sensibilidade de muitos humanos que os poderão replicar; facultam a convocatória para voluntariado; têm sido instrumento privilegiado para angariação de fundos para acorrer os mais necessitados, por vezes longínquos (vítimas de catástrofes naturais, com doenças para as quais não encontram meios de tratamento, etc.). Devemos afirmar, pois, a neutralidade moral das redes sociais: “não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade para fazer bom uso dos meios ao seu dispor", escreveu o Papa Francisco. De resto, este líder espiritual da religião com mais crentes no mundo, apela a que "não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital", até porque "nas estradas congestionadas" do digital há "homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança". O Papa considerou determinante a presença online da Igreja. Podemos, pois, servir a causa da esperança e da paz, da não violência com as redes sociais.

Não: A internet não é mais um instrumento, mas um ambiente. Que nos molda tanto quanto o moldamos. Ecologia que, rigorosamente, se oferece como "novo contexto existencial" e que eclodiu e permanece, porque foi desejada/forjada, um centro como outrora (haviam sido) a catedral, ou a estação. Lá, onde as hierarquias mais rígidas se quebram, o sujeito adquire preeminência, e no qual o humano tem que ser, nesta hora, um "descodificador face a respostas múltiplas" (Antonio Spadaro, 2013, 52).
Mais do que um misto de ferramenta e espelho, o computador, procurado, não raramente, pelo humano como “máquina intimista”, “objecto no limiar entre o eu e o não-eu”, na medida em que sendo, simultaneamente, “interactivo e reactivo, proporciona a ilusão da companhia sem as exigências da amizade” (Sherry Turkle, 1997, 43), propicia “novos modelos da mente” e a internet, em particular, está a alterar “a forma como pensamos, a natureza da nossa sexualidade, a organização das nossas comunidades e até mesmo a nossa identidade” (Ibidem,11). O contexto da internet é o da “erosão das fronteiras entre o real e o virtual, o animado e o inanimado, o eu unitário e o eu múltiplo” (Ibidem, 12); “inventamo-nos a nós mesmos à maneira que [nela] progredimos”. Se, tempos pretéritos, se concebia que os computadores expandiam a presença intelectual de alguém, hoje considera-se, igualmente, a dimensão física nesse prolongamento do estar-aí pessoal. Mais, ainda: “as velhas distinções entre o que é especificamente humano e o que é especificamente tecnológico tornaram-se complexas. Estaremos a viver a vida no ecrã ou dentro do ecrã?” (Ibidem, 30). Radicalmente: até que ponto não seremos já cyborgs, “misturas transgressivas de biologia, tecnologia e código de computador?”
Se o paradigma de inteligibilidade da comunicação assentou, durante algumas décadas, no último quartel do século XX, na pré-compreensão de Marshall McLuhan (1997) de que os media são a mensagem, isto é, todo e qualquer media induz comportamentos, e cria ligações psicológicas e mudanças de mentalidade nos indivíduos receptores, independentemente do conteúdo transmitido, já com (a teorização de) Castells assistimos a uma mudança coperniciana, com a relação organizacional dos media actuais a ser entendida como baseada em «message being the media» (Castells, 2002), ou seja, os media são escolhidos de acordo com a mensagem que se pretende transmitir, sendo possível seleccionar o media que melhor se adequa, e à audiência a que se destina, a mensagem (Cardoso, 2013, 35). Passávamos, então, de um contexto em que os media são a mensagem para um outro, de sentido inverso: a mensagem são os media. Hodiernamente, todavia, e mais propriamente, nova mutação comunicacional se nos impõe: os media precedem a mensagem (Eco, 2001), quer dizer, os canais existem antes (mesmo) de se saber o que se irá transmitir. A discussão sobre mensagem e media torna-se, desta sorte, obsoleta, “porque uma vez que entra a mensagem na rede chegará ao destinatário e se o formato não for o indicado será recriada” (Cardoso, 2013, 36).
Ora, qual é a ecologia – que tanto nos molda como nós moldamos – das redes sociais? De acordo com o politólogo Francis Fukuyama, "as redes sociais estão desenhadas na perfeição para promover a política da identidade. Ali as pessoas podem anichar-se em grupos que pensam exactamente como elas, e onde se sentem mais à vontade para dizer coisas que noutros sítios seriam consideradas polémicas” (Francis Fukuyama, entrevista à revista Visão, 27-12-2018, p.39) e o investigador, em matéria de Educação, António Sampaio da Nóvoa, corrobora: a internet (…) [é] lugar de fragmentação e isolamento e onde apenas vamos à procura dos nossos iguais, nos reforçam numa dada identidade” (António Sampaio da Nóvoa, Nova Ágora, Braga, 09-03-2018). Para o discernimento do valor das novas capacidades técnicas, o Papa João Paulo II propunha o seguinte teste: estas novas capacidades técnicas tornam o Homem "verdadeiramente melhor, isto é, mais amadurecido espiritualmente, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberto para com os outros, em particular com os mais necessitados e os mais fracos, e mais disponível para proporcionar e prestar ajuda a todos?". Será que, em consciência, poderíamos responder afirmativamente a esta pergunta? Creio que não.


Posição de experts:

No Facebook pedem-nos uma resposta emotiva: gosto, adoro, isto irrita-me, isto choca-me. São as reacções por emoji que a plataforma propõe. Quando Mark Zuckerberg anunciou mudanças no feed de notícias em Janeiro, disse que o Facebook não valoriza a informação com base na sua utilidade mas sim no número de conversas e interacções que provoca. Quem quiser tirar proveito das vantagens do algoritmo do feed de notícias do Facebook, precisa de ter muita gente a comentar as suas publicações; e se é isso que valoriza a informação em detrimento de outro tipo de conteúdos, estamos, acho eu, a mexer com instintos ancestrais da humanidade. Gostamos de provocar e gostamos que nos provoquem, e não é difícil conseguir ambas as coisas nestas plataformas que criámos.

Joshua Benton, investigador do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, entrevistado por Cristina MargatoO irreversível declínio dos media tradicionais, Electra nº4, Dezembro 2018, p.52.


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