b) o argumento de que as redes sociais são um instrumento (?). Ou um meio (?). Ou ambas as coisas (?).
Sim: as redes sociais não
podem ser vistas como más (em si mesmas). Permitem divulgar acontecimentos
muito positivos que estimularão a sensibilidade de muitos humanos que os
poderão replicar; facultam a convocatória para voluntariado; têm sido
instrumento privilegiado para angariação de fundos para acorrer os mais necessitados,
por vezes longínquos (vítimas de catástrofes naturais, com doenças para as
quais não encontram meios de tratamento, etc.). Devemos afirmar, pois, a neutralidade
moral das redes sociais: “não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica
ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade para fazer bom uso dos meios
ao seu dispor", escreveu o Papa
Francisco. De resto, este líder espiritual da religião com mais crentes no
mundo, apela a que "não tenhais
medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital", até porque "nas
estradas congestionadas" do digital há "homens e mulheres que
procuram uma salvação ou uma esperança". O Papa considerou
determinante a presença online da Igreja. Podemos, pois, servir a causa da
esperança e da paz, da não violência com as redes sociais.
Não: A internet não é mais um instrumento, mas um
ambiente. Que nos molda tanto quanto o moldamos. Ecologia que,
rigorosamente, se oferece como "novo contexto existencial" e que
eclodiu e permanece, porque foi desejada/forjada, um centro como outrora (haviam sido) a catedral, ou a estação. Lá,
onde as hierarquias mais rígidas se quebram, o sujeito adquire preeminência, e
no qual o humano tem que ser, nesta hora, um "descodificador face a
respostas múltiplas" (Antonio
Spadaro, 2013, 52).
Mais do que um
misto de ferramenta e espelho, o computador, procurado, não raramente, pelo
humano como “máquina intimista”, “objecto no limiar entre o eu e o não-eu”, na
medida em que sendo, simultaneamente, “interactivo e reactivo, proporciona a
ilusão da companhia sem as exigências da amizade” (Sherry Turkle, 1997, 43), propicia “novos modelos da
mente” e a internet, em particular, está a alterar “a forma como pensamos, a
natureza da nossa sexualidade, a organização das nossas comunidades e até mesmo
a nossa identidade” (Ibidem,11). O contexto da internet é o da “erosão das
fronteiras entre o real e o virtual, o animado e o inanimado, o eu unitário e o
eu múltiplo” (Ibidem, 12); “inventamo-nos a nós mesmos à maneira que [nela]
progredimos”. Se, tempos pretéritos, se concebia que os computadores expandiam
a presença intelectual de alguém, hoje considera-se, igualmente, a dimensão
física nesse prolongamento do estar-aí
pessoal. Mais, ainda: “as velhas distinções entre o que é especificamente
humano e o que é especificamente tecnológico tornaram-se complexas. Estaremos a
viver a vida no ecrã ou dentro do ecrã?” (Ibidem, 30). Radicalmente: até que
ponto não seremos já cyborgs, “misturas transgressivas de biologia, tecnologia
e código de computador?”
Se o paradigma de
inteligibilidade da comunicação assentou, durante algumas décadas, no último
quartel do século XX, na pré-compreensão de Marshall McLuhan (1997) de que os
media são a mensagem, isto é, todo e qualquer media induz comportamentos, e
cria ligações psicológicas e mudanças de mentalidade nos indivíduos receptores,
independentemente do conteúdo transmitido, já com (a teorização de) Castells assistimos a uma mudança coperniciana, com a relação
organizacional dos media actuais a
ser entendida como baseada em «message
being the media» (Castells, 2002), ou seja, os media são escolhidos de acordo com a mensagem que se pretende
transmitir, sendo possível seleccionar o media
que melhor se adequa, e à audiência a que se destina, a mensagem (Cardoso, 2013, 35). Passávamos, então,
de um contexto em que os media são a
mensagem para um outro, de sentido inverso: a mensagem são os media. Hodiernamente, todavia, e mais
propriamente, nova mutação comunicacional se nos impõe: os media precedem a mensagem (Eco,
2001), quer dizer, os canais existem antes (mesmo) de se saber o que se irá
transmitir. A discussão sobre mensagem
e media torna-se, desta sorte,
obsoleta, “porque uma vez que entra a mensagem na rede chegará ao destinatário
e se o formato não for o indicado será recriada” (Cardoso, 2013, 36).
Ora, qual é a ecologia
– que tanto nos molda como nós moldamos – das redes sociais? De acordo com o
politólogo Francis Fukuyama, "as redes
sociais estão desenhadas na perfeição para promover a política da identidade. Ali as pessoas podem anichar-se em
grupos que pensam exactamente como elas, e onde se sentem mais à
vontade para dizer coisas que noutros sítios seriam consideradas polémicas” (Francis
Fukuyama, entrevista à revista Visão,
27-12-2018, p.39) e o investigador, em matéria de Educação, António Sampaio
da Nóvoa, corrobora: “a internet (…) [é] lugar de fragmentação e isolamento e onde apenas
vamos à procura dos nossos iguais,
nos reforçam numa dada identidade” (António Sampaio
da Nóvoa, Nova Ágora, Braga, 09-03-2018). Para o
discernimento do valor das novas capacidades técnicas, o Papa João Paulo II propunha
o seguinte teste: estas novas capacidades técnicas tornam o Homem "verdadeiramente
melhor, isto é, mais amadurecido espiritualmente, mais consciente da dignidade
da sua humanidade, mais responsável, mais aberto para com os outros, em
particular com os mais necessitados e os mais fracos, e mais disponível para
proporcionar e prestar ajuda a todos?". Será que, em consciência,
poderíamos responder afirmativamente a esta pergunta? Creio que não.
Posição de experts:
No Facebook pedem-nos uma resposta emotiva: gosto, adoro, isto irrita-me,
isto choca-me. São as reacções por emoji que a plataforma
propõe. Quando Mark Zuckerberg anunciou mudanças no feed de
notícias em Janeiro, disse que o Facebook não valoriza a informação
com base na sua utilidade mas sim no número de conversas e interacções que
provoca. Quem quiser tirar proveito das vantagens do algoritmo do feed de
notícias do Facebook, precisa de ter muita gente a comentar as suas
publicações; e se é isso que valoriza a informação em detrimento de outro tipo
de conteúdos, estamos, acho eu, a mexer com instintos ancestrais da humanidade.
Gostamos de provocar e gostamos que nos provoquem, e não é difícil conseguir
ambas as coisas nestas plataformas que criámos.
Joshua Benton,
investigador do Nieman Journalism Lab, da Universidade de Harvard, entrevistado
por Cristina Margato, O irreversível declínio dos media
tradicionais, Electra nº4, Dezembro 2018, p.52.
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