terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência? (IV)



Não: A busca incessante de likes para as publicações que cada um introduz nas suas redes sociais induz a um certo (senão, a muito) histrionismo. Quanto mais polémica a opinião, quanto mais extremada e capaz, não raramente, de ir ao arrepio dos valores civilizacionais, relativamente consensualizados nas nossas sociedades, mais “gostos”, mais “partilhas”, mais “ruído” terá. Não por acaso, se fala na “indignação do dia” nas redes sociais, ou que “as redes sociais estão a arder”. É como se as redes sociais funcionassem, apenas, num registo de um exacerbamento emocional, que tudo divide entre “nós e eles”, fazendo com que um possível adversário de opinião seja visto não enquanto tal, mas como um desqualificado moralmente. Numa sociedade adulta, madura, a racionalidade tenderia a imperar, seriam os argumentos substantivos – e não ad hominem ou ad terrorem, ou, mesmo, a reductio ad hitlerum – a predominar. Conclusão: vivemos numa sociedade infantilizada, dada a brigas perigosas.
O filósofo Jurgen Habermas tem refletido sobre esta realidade, chamando a atenção para o facto de que uma democracia e um espaço público apenas serão robustos caso neles meios de comunicação de massas remetam os cidadãos para temas relevantes, haja um amplo conjunto de cidadãos que frequente assiduamente esses meios de comunicação e, assim, possa haver espaço, ainda, para o intelectual tomar lugar na cidade – com o seu conhecimento/perícia/sabedoria - e uma deliberação informada, conhecedora, livre. A internet veio fragmentar ainda mais o tecido social e, cúmulo, assistimos ao furto de dados pessoais que cada um deixou nas suas redes sociais (vide, entrevista a ElPaís, 10-05-2018).

Sim: em muitos países, as redes sociais estiveram ao serviço dos direitos humanos, denunciando a sua postergação. Foram instrumentos ao serviço da democracia e da paz. Vários conflitos internacionais estão aí para o demonstrar.
: o fenómeno das fake news está indissociavelmente ligado às redes sociais (uma das exortações do intelectual público norte-americano Timothy Snyder: “Acredita na verdade. Há factos. Não há só opiniões. Não há apenas diferentes narrativas. Há verdade, não há só verdades. Procura, investiga, consolida o que é factual e só depois interpreta. Um espaço público onde não se conseguem estabelecer factos incontroversos leva demasiado longe a noção de sociedade fragmentada). As pessoas não distinguem factos de notícias inventadas. Houve comprovadas interferências de potências estrangeiras/rivais em eleições democráticas (e, acerca desse fenómeno, escreveu Madeleine Albright: “O Facebook tem dois mil milhões de utilizadores activosQuais são as motivações da Rússia? Provavelmente, desacreditar a democracia, dividir a Europa, enfraquecer a parceria transatlântica e castigar os governos que se atrevem a enfrentar MoscovoEsta agenda não é ideológica; é sobre poder, pura e simplesmente(Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, 2018, p.201).  Mais: a criação deliberada de notícias falsas tem servido para testar o perfil dos eleitores para, de seguida, adaptar a mensagem ao que cada utilizador pretende ouvir (veja-se o caso das falsas denúncias de violência contra mulheres em Espanha, na realidade 0,0070% dos casos, e o eco que tiveram no discurso do partido VOX em Espanha, o que serviu, segundo o L’Express (16-01-2019), como modo de chegar a mais públicos disponíveis para essa mensagem). Há, aqui, na fabricação destas news, sem necessidade de recorrermos a profissionais que verifiquem a autenticidade das mesmas, ou sem que contextualizem uma dada realidade, como que uma reivindicação de uma democracia direta – talvez digitalmente exercida -, sendo que esta recusa de mediação/representação pode levar populistas ao poder e, com eles, ao fim do pluralismo (respeito pelas minorias, cheque aos “checks and balances”, independência dos tribunais em causa, etc.). Como assinalou Daniel Innerarity, da democracia fazem parte órgãos como tribunais de contas ou outras entidades periciais – instituições que, de certa forma, não estão sujeitas a regras (ou ditadura) da maioria. As redes sociais estão a revelar-se um perigo para a democracia.

Sim: O que está a dar cabo da democracia não é o Facebook, são as formas mais predatórias do capitalismo, as desigualdades, os monopólios, a precariedade, uma economia de mercado distorcida pelos mais poderosos para obter vantagens para si próprios à custa dos mais frágeis, ou seja, uma rede - também ela social - de interesses a quem convém que tudo se mantenha como está e que se manifesta nos mais diversos planos, entre eles também no Facebook.
Há quem saia das redes sociais pensando que essa é a forma de contrariar forças antiprogressistas. Mas isso apenas criará vazios que serão ocupados por essas forças nocivas que se pretende iludir. Ontem como hoje, offline ou online, a opção é compreender onde nos situamos. É não idealizar. É ver limites, mas também potencialidades”. (Vítor BelancianoEstá-se mesmo a ver que a culpa é das redes sociais, Público, 13-01-2019, P2, p.2).
Como Daniel Innerarity há muito compreendeu, o (novo) espaço público desterritorializou-se, podemos assistir e participar, agora, numa conferência em Nova Iorque, em tempo real, o mesmo se dizendo quanto à assinatura de uma petição para libertar um preso político no Egipto de El-Sissi. Este alargamento do espaço público a uma escala global só promove os direitos humanos e obsta às autocracias.


(continua)

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