Não: A comparação com os outros, potenciada pelas redes sociais (os outros que, nessas redes, parecem sempre levar
uma vida mais interessante, bem-sucedida, atractiva, divertida, melhor do que a
que "eu" levo), também ajuda ao mal-estar hoje muito sentido em todas as gerações, mas, de modo
especial, entre os mais novos/estudantes universitários. Interacções simples, como falar com o
empregado do café ou com alguém na rua melhora mais o bem-estar do que aquilo
que se pensava. Não devíamos prescindir do face a face, antes criar
rotinas para estar mais vezes com os amigos. E o mesmo se diga, para a
democracia, da importância da “política corporal”: “pratica uma política
corporal - não chega a denúncia cibernética, nem a indignação de sofá.
Muitas vezes, a rua é necessária para haver mudança. E, ainda nela, criar
novos amigos políticos capazes de a concretizarem. "Ao
poder convém que o teu corpo apodreça na poltrona e as tuas emoções se dissipem
num ecrã. Sai à rua. Leva o teu corpo para lugares desconhecidos e envolve-te
no meio de estranhos. Faz amigos novos e participa em manifestações na sua
companhia" (T.Snyder, p.67)
Sim: A tecnologia está a eliminar as interacções sociais normais. Não surpreende, desta sorte, que Jean
Pierre Casey nos proponha "desenvolver métodos de 'desintoxicação' digital
global”, bem como a "redescoberta do silêncio (...)
e redescoberta das virtudes. (...) Numa era digital de ritmos acelerados, a
virtude da paciência é provavelmente uma das mais vulneráveis. Toda a nossa
espera salvífica é uma história de espera (...) Ora, a paciência está intrinsecamente
ligada à virtude teológica da esperança" (Jean Pierre Casey, Brotéria). E
o destacado intelectual Nuccio Ordine acrescenta: “Quando pergunto a 500
estudantes quantos não têm facebook, no primeiro ano da faculdade, há cinco que
levantam timidamente a mão. Então e porque têm facebook?, pergunto. E
respondem-me: porque lá temos 1500 amigos. E eu digo: fica a saber que um
homem, no fim da vida, se teve 3 amigos pode gabar-se de ter sido muito rico” (Nuccio Ordine,
Conferência FFMS). Não é com relações
superficiais que nos construímos, realizamos e erguemos a paz.
Sim: eis uma crítica fácil e muitas vezes repetida às redes
sociais, mas que não tem acomodação na realidade (verificada e estudada). No ano de 2011, em Portugal, cerca de 94%
dos utilizadores de redes sociais tinha perfil no facebook; assim, aquilo que foi possível verificar é que uma esmagadora maioria daqueles que são frequentadores das redes sociais as utilizam para se manterem em
contacto com o seu habitual grupo de amigos (offline); isto é, as redes sociais, são o
prolongamento, em uma plataforma diferente, das conversas com, genericamente,
as mesmas pessoas com quem estamos no café, no restaurante, no trabalho, na
escola, na universidade, no teatro ou no cinema.
(continua)
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