Não: As redes sociais permitem, senão favorecem, o
anonimato. E, com ele, a desresponsabilização. As reacções a quente e
extemporâneas. O grau de animosidade, os insultos, a grosseria que com tanta
frequência se encontra nas redes sociais
não tem paralelo em outras plataformas, nas quais a pessoa tem que dar a cara,
pensa duas vezes antes de escrever, conserva, mesmo se a contragosto, um módico
de civilidade. O historiador Timothy Snyder, num manifesto contra a tirania,
alertava-nos, muito recentemente, para a importância das palavras: “Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na
verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de
"última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte.
Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano
(...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio
dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para
os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray
Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros
enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa.
Em 1984, George Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos
e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância
apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de
comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache
totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente,
recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em
limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada
edição do dicionário oficial.
Olharmos fixamente
para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz
se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter
desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as
mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos
também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor
de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa
disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e
cerca-te de livros" (pp.50-51).
Sim: podemos encontrar formas mais rigorosas
de estabelecer a identidade de cada usuário das redes sociais. Uma vez mais, a
responsabilidade não é destas, mas de quem delas faz mau uso. De resto, quer a
difamação, quer a penalização de discursos de ódio contra minorias,
nomeadamente, são, e devem ser, punidas.
Nota
Há cerca de quatro semanas, Robert Habeck, líder de Os
Verdes (alemães), decidiu deixar o Twitter (em protesto com o clima de
ódio neste presente).
A Finlândia foi o primeiro país a punir trolls,
isto é, a castigar autores de uma campanha de desinformação dirigida contra
terceiros.
(continua)
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