domingo, 17 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (VI)



Não: As redes sociais permitem, senão favorecem, o anonimato. E, com ele, a desresponsabilização. As reacções a quente e extemporâneas. O grau de animosidade, os insultos, a grosseria que com tanta frequência se encontra nas redes sociais não tem paralelo em outras plataformas, nas quais a pessoa tem que dar a cara, pensa duas vezes antes de escrever, conserva, mesmo se a contragosto, um módico de civilidade. O historiador Timothy Snyder, num manifesto contra a tirania, alertava-nos, muito recentemente, para a importância das palavras: “Estima a nossa linguagem - "Tudo acontece depressa, mas na verdade nada acontece. Cada história que surge nas notícias transmitidas é de "última hora", até ao momento em que é substituída pela seguinte. Assim, somos levados por onda atrás de onda, mas nunca chegamos a ver o oceano (...) Há mais de meio século, os romances clássicos alertavam para o domínio dos ecrãs, para a proibição de livros, para a restrição dos vocabulários e para os consequentes obstáculos ao pensamento. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, os bombeiros descobrem e queimam os livros enquanto a maior parte dos cidadãos ocupa o tempo a ver televisão interativa. Em 1984, George Orwell, publicado em 1949, os livros são interditos e a televisão bidireccional, permitindo ao governo manter uma vigilância apertada dos cidadãos. Em 1984, a linguagem dos meios de comunicação visual é largamente controlada, de modo que o público se ache totalmente privado dos conceitos necessários para reflectir sobre o presente, recordar o passado e ponderar o futuro. Um dos projectos do regime consiste em limitar progressivamente a linguagem ao eliminar cada vez mais palavras a cada edição do dicionário oficial. 
Olharmos fixamente para ecrãs poderá ser inevitável, mas o mundo bidireccional pouco sentido faz se não nos conseguirmos socorrer de um arsenal mental que possamos ter desenvolvido anteriormente noutras circunstâncias. Quando passamos a repetir as mesmas palavras e frases que surgem nos meios de comunicação diária, estamos também a permitir a ausência de uma perspectiva mais ampla das coisas. Dispor de semelhante perspectiva requer mais conceitos, e ter mais conceitos à nossa disposição requer leituras. Por isso, livra-te dos ecrãs que tens no quarto e cerca-te de livros" (pp.50-51).

Sim: podemos encontrar formas mais rigorosas de estabelecer a identidade de cada usuário das redes sociais. Uma vez mais, a responsabilidade não é destas, mas de quem delas faz mau uso. De resto, quer a difamação, quer a penalização de discursos de ódio contra minorias, nomeadamente, são, e devem ser, punidas.


Nota

Há cerca de quatro semanas, Robert Habeck, líder de Os Verdes (alemães), decidiu deixar o Twitter (em protesto com o clima de ódio neste presente). 

A Finlândia foi o primeiro país a punir trolls, isto é, a castigar autores de uma campanha de desinformação dirigida contra terceiros.

(continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário