Não: devíamos
ter direito ao “esquecimento digital”, ao “apagamento das nossas pegadas”. Elas
não deviam perseguir-nos a vida toda. Há muita gente que, de modo inadvertido,
coloca nas redes sociais imagens, fotos, sons, palavras da sua vida íntima de
que mais tarde se vem a arrepender (T.Snyder: “Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do
conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos
os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o
"teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós
próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal
não acontece", p.69). Há quem tenha progenitores a
colar fotos de quem ainda é menor nessas redes
sociais, sem que este última intervenha e, pois, tenha nisso qualquer
responsabilidade. Como é possível que não haja direito ao esquecimento digital?
Como escreve o teólogo António Spadaro, “se a salvação,
teologicamente falando, implicava, de algum modo, o 'apagar', ou 'esquecer', isto
é, pressupunha o perdoar, já "a salvação digital, o «salvamento» é
exactamente o oposto do cancelamento. Se um arquivo é salvo, tudo, até mesmo os
erros permanecem fixados, não esquecidos. A salvação digital, portanto, cancela
o olvido. E, hoje em dia, a Rede é o lugar onde o olvido é impossível" (António Spadaro, Ciberteologia, 34).
Sim: eis um ponto em
que estamos de acordo: se temos direito a saber a informação que os Estados, e
os Governos, têm sobre nós, como não obrigar a Google a dizer o que sabe a nosso respeito? O Facebook tem mais
habitantes do que a China e as suas decisões acabam, muitas vezes, por ser mais
importantes do que as dos governos de Alemanha ou França. E quem guarda estes
guardas? (e que relação deles com as democracias?) Razão, aqui, ao politólogo
Francis Fukuyama: "Até um certo
nível, a regulação é apropriada e também me parece que há grandes problemas
pelo tamanho destas organizações: se elas tentam comportar-se como empresas
de média ou publishers, tomando decisões sobre o que é apropriado ou não, é um
problema, porque estão a tomar decisões para o mundo inteiro!" (Francis Fukuyama, Visão,
27-12-2019).
O problema passa também por, na prática, em vez
de uma única internet, termos uma “Chinanet”, ou uma “Russianet”, por exemplo
(há muitas leis diversas, mas uma só internet).
Concluo, também, com uma das exortações do investigador
Timothy Snyder que mais me tocam: “Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar
outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à
partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo,
legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se leste, se
estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há
que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira
as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo à leitura de artigos longos.
Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de
comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se
encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca
de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos
quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de
informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais
impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso
proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma
série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao
alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar
e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de
desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração
que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é
o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...)
Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável
poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a
publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade
individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos
realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade
de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste
averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias
falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que
consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus
conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações
resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos
jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao
interagires com bots e trolls. Não nos é
possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal
não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)
Sugestão cinematográfica: “A rede social”, de David Fincher (2010)
Encerramento dos trabalhos.
Daniel Sampaio, Do Telemóvel para o mundo – pais e adolescentes no
tempo da internet (2018)
Consideram
o e-mail ultrapassado, e mesmo o tempo de entusiasmo com
o Facebook parece ter ficado para trás - porque nele passou a
haver demasiados adultos, demasiados familiares, demasiados professores. Não terá ficado completamente obsoleto,
porque é utilizado para marcação de eventos, em especial para perceber a adesão
que terão - e se vale a pena realizá-los (ou onde efectivá-los, em função do
número de likes). O Instagram, pelos
vistos, é que está a dar, actualizado sucessivamente, especialmente no feminino
(com o pico das 10 da noite, hora em que a maioria dos adolescentes está na
net). Há pais que entram nas redes sociais dos filhos através de «truques»
tecnológicos "pouco éticos" (p.146). Em havendo, como deve haver, uma
relação familiar de confiança, faz sentido os pais perguntarem o que os filhos
colocam nas redes sociais; no entanto, se os progenitores nada questionam, mas
espiam às escondidas para, a partir de aí, proibirem saídas ou impedirem jogos
na net, não estão a contribuir para esse aumento de confiança mútua.
Os
jovens utilizam a sigla POS (parents over shoulder), para alertar a
presença dos pais «sobre o ombro», quando o computador caseiro se situava na
sala comum. Hoje a sigla foi substituída por PIR (parents in the room)
ou por 99 (parents are gone) para que possam estar mais à vontade.
Daniel Sampaio sugere a ideia de limitação do tempo em que um filho, em idade
precoces, possa estar na internet e sem negociação ("mais dez
minutos..."). Quando esta limitação não é posta em prática, a utilização
da internet tende a ser crescente, podendo mais tarde a vir a causar
dependência (p.138). O autor de Do telemóvel para o mundo, deixa
ainda uma possível sugestão aos pais:
"Serge
Tisseron, no seu interessante livro Computadores, Telemóveis e
Tablets (Lisboa, Gradiva, 2013) faz uma proposta sobre o uso das novas
tecnologias de informação, com etapas progressivas de acordo com a idade:
- aos
3 anos podem começar a ver televisão;
- aos
6 anos podem começar a usar jogos offline;
- aos
9 anos podem ligar-se à net, com supervisão parental;
- aos
12 anos podem entrar nas redes sociais, também com algum controlo por parte dos
pais.
Trata-se
apenas de uma orientação, embora proveniente de um especialista de
reconhecido mérito" (p.147)
Mais:
"as novas formas de comunicação, ao contrário do que por vezes se
afirma, podem ser importantes veículos de aproximação entre pais e filhos. A
partilha de uma foto, um sítio na internet que se acaba de descobrir, um sms ou
mensagem pelo WhatsApp a avisar para onde se vai, são tudo
oportunidades para estar mais perto, para educar e para veicular valores. A
conversa formal entre pais e filhos, típica da juventude dos avós dos adolescentes
de hoje, tem de ceder o lugar aos diálogos de pequena duração, tantas vezes
imprevistos e improváveis, mas que podem ser carregados de significado (...) Segundo
a revista norte-americana Highlights, num inquérito a 1521 crianças
entre os 6 e os 11 anos, estas revelaram achar os pais demasiado distraídos e
pouco atentos às suas necessidades, considerando que os telemóveis dos
progenitores são os principais responsáveis. Era como se os aparelhos
estivessem entre pais e filhos e contribuíssem para uma distância que os mais
novos desejavam transpor. No Brasil, outro inquérito revela que 70% das
crianças entre os 3 e os 5 anos sabe ligar um computador ou tablet e 42% sabe
usar um smartphone" (pp.69-70). O psiquiatra alerta ainda
para um estudo que aponta para 80% de pais que colocam fotos dos filhos
até aos 2 anos de idade destes no facebook, e sublinha que muitos
empregadores vão verificar tudo o que há na net sobre o candidato ao emprego,
pelo que a pegada que fica na net deve ser olhada com grande cuidado: "o
nosso menino vestido de índio pode ficar bem numa reunião social, mas pode
comprometer a criança junto dos seus amigos. Uma festa familiar pode tornar-se
motivo de troça no seu grupo juvenil. Uma angústia desabafada na net, no
contexto de uma depressão juvenil, pode tornar o adolescente alvo fácil
para cyberbullying" (pp.71).
Gustavo Cardoso, A sociedade dos
ecrãs, 2013
A casa organizada sobre a sala (e seus sofás), partilha, controlo (parental), (foco no)
colectivo, autoridade, hierarquia, passividade como valores latentes ou
explícitos (em causa), deu lugar, em uma significativa medida, a uma “cultura
do quarto” como espaço do indivíduo (e do individualismo), autonomia,
emancipação, autoridade (parental) negociada senão desaparecida/diluída,
responsabilidade (responsabilização), participação, liberdade, (auto) fechamento (no sentido, de isolamento no
quarto; não por acaso, de 2003 a 2010, o tempo
médio de uma chamada telefónica diminuiu quase para metade, de três minutos
para um minuto e quarenta e sete segundos, Gore, 2013, 92), mas, igual e
paradoxalmente, de conexão com o mundo (a fluidez público/privado será bem
maior no novo caldo de cultura em que
nos movemos; o adolescente, no quarto, a assinar uma petição em defesa de um
povo geograficamente distante, ou a participar em uma conferência nos antípodas
do globo; estamos, crescentemente, “sozinhos juntos”, no dizer da filósofa da
internet Sherry Turkle).
Na desocultação dos significados simbólicos e sociológicos
da proliferação dos ecrãs (tv, telemóvel, net, tablet, ipad, etc., etc.),
importa, na verdade, compreender que os artefactos tecnológicos que construímos
respondem a demandas que surgem em uma sociedade – a cultura da participação,
da interactividade, da recusa da passividade, do multitasking, da responsabilidade, porventura alimentaram o
surgimento da internet, ou, pelo menos, a sua massificação -, inserem-se em uma
cultura e fazem bascular os marcos sociológicos anteriores à sua presença (com
a comunicação de massas, o centro era
o media, na comunicação em rede, o
centro é o indivíduo; no seio de uma cultura em que a criança ou adolescente
domina melhor que os pais/encarregados de educação os mecanismos informáticos e
da net, o controlo sobre estes, sobre tais mecanismos e, não menos relevante,
sobre os próprios jovens em maturação, tornam-se delicados – em não poucos
casos, a ignorância sobre o fenómeno da internet e, em especial, o das redes sociais, faz com que muitos pais
criem uma verdadeira mitologia acerca
destas: um estudo de
2007, com jovens norte-americanos, mostra que a motivação destes, quando
utilizam as redes sociais é
exactamente a mesma de quando enviam sms
ou fazem chamadas telefónicas: prolongar a conversação com o grupo de pares. Uma outra investigação
com adolescentes norte-americanos, realizada no mesmo ano, conclui que 91%
destes jovens utilizava as redes para
falar com amigos. De 2011 a pesquisa que mostrou possuir cada utilizador do facebook, a rede social mais utilizada no mundo ocidental, mas
também em inúmeros países da Ásia e América Latina, em média, 229 “amigos”,
sendo que apenas 7% destes nunca ‘conhecidos’ fora do mundo online. Não se assistiu, pois,
à profecia pessimista – diminuição do contacto rosto a rosto, entre as pessoas,
em geral, e os mais novos, em especial; nem aos amanhãs (tecnologicamente) cantantes – não se regista o previsto aumento
de sociabilidade; antes, o reforço do contacto com aqueles que já eram os
nossos próximos; em conclusão, e nas sábias palavras de Nélson Ribeiro, quanto mais próxima, ou intensa, a relação de mais
meios procura servir-se. Mais do que digitais, o que temos são amizades com
existência tanto online quanto offline (Ribeiro, 2013); registe-se como, ainda agora, os media mais controlados são a
televisão e o telefone [Cardoso, 2013, p.151]). Na socialização actual da
pessoa, o possível choque de valores entre grupos
de pertença – a família, ab initio
– e grupos de referência – os media,
e a net em especial – pode fazer sentir-se com acuidade.
Pedro
Miranda
(conclusão)
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