quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

As redes sociais promovem a não violência (VII)



Não: devíamos ter direito ao “esquecimento digital”, ao “apagamento das nossas pegadas”. Elas não deviam perseguir-nos a vida toda. Há muita gente que, de modo inadvertido, coloca nas redes sociais imagens, fotos, sons, palavras da sua vida íntima de que mais tarde se vem a arrepender (T.Snyder: “Estabelece uma vida privada - não deixes que tudo quanto te diz respeito seja do conhecimento público, não te exponhas (demasiado) na rede. Os tiranos de todos os tempos jogaram com o conhecimento do domínio privado para anularem o "teu" protesto. "Somos livres apenas quando somos nós próprios a delimitar as ocasiões em que somos vistos e os momentos em que tal não acontece", p.69). Há quem tenha progenitores a colar fotos de quem ainda é menor nessas redes sociais, sem que este última intervenha e, pois, tenha nisso qualquer responsabilidade. Como é possível que não haja direito ao esquecimento digital? Como escreve o teólogo António Spadaro, “se a salvação, teologicamente falando, implicava, de algum modo, o 'apagar', ou 'esquecer', isto é, pressupunha o perdoar, já "a salvação digital, o «salvamento» é exactamente o oposto do cancelamento. Se um arquivo é salvo, tudo, até mesmo os erros permanecem fixados, não esquecidos. A salvação digital, portanto, cancela o olvido. E, hoje em dia, a Rede é o lugar onde o olvido é impossível" (António Spadaro, Ciberteologia, 34).

Sim: eis um ponto em que estamos de acordo: se temos direito a saber a informação que os Estados, e os Governos, têm sobre nós, como não obrigar a Google a dizer o que sabe a nosso respeito? O Facebook tem mais habitantes do que a China e as suas decisões acabam, muitas vezes, por ser mais importantes do que as dos governos de Alemanha ou França. E quem guarda estes guardas? (e que relação deles com as democracias?) Razão, aqui, ao politólogo Francis Fukuyama: "Até um certo nível, a regulação é apropriada e também me parece que há grandes problemas pelo tamanho destas organizações: se elas tentam comportar-se como empresas de média ou publishers, tomando decisões sobre o que é apropriado ou não, é um problema, porque estão a tomar decisões para o mundo inteiro!" (Francis Fukuyama, Visão, 27-12-2019).
O problema passa também por, na prática, em vez de uma única internet, termos uma “Chinanet”, ou uma “Russianet”, por exemplo (há muitas leis diversas, mas uma só internet).
Concluo, também, com uma das exortações do investigador Timothy Snyder que mais me tocam: “Investiga - o que dizes e escreves pode sempre influenciar outros. Nem o que dizes ao café, no facebook, no twitter ou num email é, à partida, isento dessa possibilidade. Em assim sendo, o teu gesto só será justo, legítimo, ético se investigares o que envias, o que publicas. Se leste, se estudaste. Não bastam as "letras grandes" ou a manchete do jornal, há que ir em profundidade para não manipularmos, nem sermos manipulados: "tira as tuas próprias conclusões. Dedica mais tempo à leitura de artigos longos. Subsidia o jornalismo de investigação através da subscrição de meios de comunicação social na sua forma impressa. Compreende que parte do que se encontra na Internet é divulgado com o intuito de prejudicar. Informa-te acerca de websites que investigam campanhas de propaganda (alguns dos quais chegam-nos do estrangeiro). Responsabiliza-te pelas tuas trocas de informação com outras pessoas (...) Os melhores jornalistas dos jornais impressos dão-nos a oportunidade de ponderar o significado (tanto para nosso proveito como do nosso país) daquilo que de outro modo pareceria apenas uma série de fragmentos isolados de informação. Contudo, ainda que esteja ao alcance de qualquer pessoa republicar um artigo online, a verdade é que investigar e escrever é um trabalho árduo que requer tempo e dinheiro. Antes de desdenharmos dos 'meios de comunicação de massas', devemos ter em consideração que estes já não são efetivamente para as massas. Fácil e próprio das massas é o desdém, sendo o verdadeiro jornalismo o que é de facto ousado e difícil (...) Se nos decidirmos a procurar os factos, a Internet concede-nos um invejável poder no sentido de divulgá-los (...) Tendo em conta que na idade da Internet a publicação é possível a todos, cada um de nós tem uma responsabilidade individual para com a noção de verdade difundida entre o público. Se estamos realmente determinados a procurar os factos, cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona. Se decidiste averiguar as informações por ti mesmo, é certo que não irás enviar notícias falsas a outras pessoas. Se optaste por seguir o trabalho de repórteres que consideras merecedores da tua confiança, poderás assim transmitir os seus conhecimentos aos outros. Se republicares no Twitter apenas as informações resultantes do trabalho de seres humanos que respeitaram os protocolos jornalísticos, menos provável será que acabes por conspurcar o teu cérebro ao interagires com bots e trolls. Não nos é possível vermos as mentes que prejudicamos ao publicarmos falsidades, mas tal não significa que não lhes façamos mal algum" (pp.59 e 62-64)

Sugestão cinematográfica: “A rede social”, de David Fincher (2010)

Encerramento dos trabalhos.

Daniel Sampaio, Do Telemóvel para o mundo – pais e adolescentes no tempo da internet (2018)           

Consideram o e-mail ultrapassado, e mesmo o tempo de entusiasmo com o Facebook parece ter ficado para trás - porque nele passou a haver demasiados adultos, demasiados familiares, demasiados professoresNão terá ficado completamente obsoleto, porque é utilizado para marcação de eventos, em especial para perceber a adesão que terão - e se vale a pena realizá-los (ou onde efectivá-los, em função do número de likes)Instagram, pelos vistos, é que está a dar, actualizado sucessivamente, especialmente no feminino (com o pico das 10 da noite, hora em que a maioria dos adolescentes está na net). Há pais que entram nas redes sociais dos filhos através de «truques» tecnológicos "pouco éticos" (p.146). Em havendo, como deve haver, uma relação familiar de confiança, faz sentido os pais perguntarem o que os filhos colocam nas redes sociais; no entanto, se os progenitores nada questionam, mas espiam às escondidas para, a partir de aí, proibirem saídas ou impedirem jogos na net, não estão a contribuir para esse aumento de confiança mútua.
Os jovens utilizam a sigla POS (parents over shoulder), para alertar a presença dos pais «sobre o ombro», quando o computador caseiro se situava na sala comum. Hoje a sigla foi substituída por PIR (parents in the room) ou por 99 (parents are gone) para que possam estar mais à vontade. Daniel Sampaio sugere a ideia de limitação do tempo em que um filho, em idade precoces, possa estar na internet e sem negociação ("mais dez minutos..."). Quando esta limitação não é posta em prática, a utilização da internet tende a ser crescente, podendo mais tarde a vir a causar dependência (p.138). O autor de Do telemóvel para o mundo, deixa ainda uma possível sugestão aos pais:
"Serge Tisseron, no seu interessante livro Computadores, Telemóveis e Tablets (Lisboa, Gradiva, 2013) faz uma proposta sobre o uso das novas tecnologias de informação, com etapas progressivas de acordo com a idade:

aos 3 anos podem começar a ver televisão;
aos 6 anos podem começar a usar jogos offline
aos 9 anos podem ligar-se à net, com supervisão parental;
aos 12 anos podem entrar nas redes sociais, também com algum controlo por parte dos pais.

Trata-se apenas de uma orientação, embora proveniente de um especialista de reconhecido mérito" (p.147)

Mais: "as novas formas de comunicação, ao contrário do que por vezes se afirma, podem ser importantes veículos de aproximação entre pais e filhos. A partilha de uma foto, um sítio na internet que se acaba de descobrir, um sms ou mensagem pelo WhatsApp a avisar para onde se vai, são tudo oportunidades para estar mais perto, para educar e para veicular valores. A conversa formal entre pais e filhos, típica da juventude dos avós dos adolescentes de hoje, tem de ceder o lugar aos diálogos de pequena duração, tantas vezes imprevistos e improváveis, mas que podem ser carregados de significado (...) Segundo a revista norte-americana Highlights, num inquérito a 1521 crianças entre os 6 e os 11 anos, estas revelaram achar os pais demasiado distraídos e pouco atentos às suas necessidades, considerando que os telemóveis dos progenitores são os principais responsáveis. Era como se os aparelhos estivessem entre pais e filhos e contribuíssem para uma distância que os mais novos desejavam transpor. No Brasil, outro inquérito revela que 70% das crianças entre os 3 e os 5 anos sabe ligar um computador ou tablet e 42% sabe usar um smartphone" (pp.69-70). O psiquiatra alerta ainda para um estudo que aponta para 80% de pais que colocam fotos dos filhos até aos 2 anos de idade destes no facebook, e sublinha  que muitos empregadores vão verificar tudo o que há na net sobre o candidato ao emprego, pelo que a pegada que fica na net deve ser olhada com grande cuidado: "o nosso menino vestido de índio pode ficar bem numa reunião social, mas pode comprometer a criança junto dos seus amigos. Uma festa familiar pode tornar-se motivo de troça no seu grupo juvenil. Uma angústia desabafada na net, no contexto de uma depressão juvenil, pode tornar o adolescente alvo fácil para cyberbullying" (pp.71).


Gustavo Cardoso, A sociedade dos ecrãs, 2013

A casa organizada sobre a sala (e seus sofás), partilha, controlo (parental), (foco no) colectivo, autoridade, hierarquia, passividade como valores latentes ou explícitos (em causa), deu lugar, em uma significativa medida, a uma “cultura do quarto” como espaço do indivíduo (e do individualismo), autonomia, emancipação, autoridade (parental) negociada senão desaparecida/diluída, responsabilidade (responsabilização), participação, liberdade, (auto) fechamento (no sentido, de isolamento no quarto; não por acaso, de 2003 a 2010, o tempo médio de uma chamada telefónica diminuiu quase para metade, de três minutos para um minuto e quarenta e sete segundos, Gore, 2013, 92), mas, igual e paradoxalmente, de conexão com o mundo (a fluidez público/privado será bem maior no novo caldo de cultura em que nos movemos; o adolescente, no quarto, a assinar uma petição em defesa de um povo geograficamente distante, ou a participar em uma conferência nos antípodas do globo; estamos, crescentemente, “sozinhos juntos”, no dizer da filósofa da internet Sherry Turkle).


Na desocultação dos significados simbólicos e sociológicos da proliferação dos ecrãs (tv, telemóvel, net, tablet, ipad, etc., etc.), importa, na verdade, compreender que os artefactos tecnológicos que construímos respondem a demandas que surgem em uma sociedade – a cultura da participação, da interactividade, da recusa da passividade, do multitasking, da responsabilidade, porventura alimentaram o surgimento da internet, ou, pelo menos, a sua massificação -, inserem-se em uma cultura e fazem bascular os marcos sociológicos anteriores à sua presença (com a comunicação de massas, o centro era o media, na comunicação em rede, o centro é o indivíduo; no seio de uma cultura em que a criança ou adolescente domina melhor que os pais/encarregados de educação os mecanismos informáticos e da net, o controlo sobre estes, sobre tais mecanismos e, não menos relevante, sobre os próprios jovens em maturação, tornam-se delicados – em não poucos casos, a ignorância sobre o fenómeno da internet e, em especial, o das redes sociais, faz com que muitos pais criem uma verdadeira mitologia acerca destas: um estudo de 2007, com jovens norte-americanos, mostra que a motivação destes, quando utilizam as redes sociais é exactamente a mesma de quando enviam sms ou fazem chamadas telefónicas: prolongar a conversação com o grupo de pares. Uma outra investigação com adolescentes norte-americanos, realizada no mesmo ano, conclui que 91% destes jovens utilizava as redes para falar com amigos. De 2011 a pesquisa que mostrou possuir cada utilizador do facebook, a rede social mais utilizada no mundo ocidental, mas também em inúmeros países da Ásia e América Latina, em média, 229 “amigos”, sendo que apenas 7% destes nunca ‘conhecidos’ fora do mundo online. Não se assistiu, pois, à profecia pessimista – diminuição do contacto rosto a rosto, entre as pessoas, em geral, e os mais novos, em especial; nem aos amanhãs (tecnologicamente) cantantes  – não se regista o previsto aumento de sociabilidade; antes, o reforço do contacto com aqueles que já eram os nossos próximos; em conclusão, e nas sábias palavras de Nélson Ribeiro, quanto mais próxima, ou intensa, a relação de mais meios procura servir-se. Mais do que digitais, o que temos são amizades com existência tanto online quanto offline (Ribeiro, 2013); registe-se como, ainda agora, os media mais controlados são a televisão e o telefone [Cardoso, 2013, p.151]). Na socialização actual da pessoa, o possível choque de valores entre grupos de pertença – a família, ab initio – e grupos de referência – os media, e a net em especial – pode fazer sentir-se com acuidade.

Pedro Miranda


(conclusão)

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