terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Discutir um livro


Tive a sorte de fazer parte do meu estágio em Inglaterra. O ensino inglês não era aquele género de encher um anfiteatro de 100, 200 ou mil alunos e depois estar ali alguém a debitar. Era tutorizado. Cheguei a dar aulas lá e tínhamos grupos de cinco, seis alunos. Obviamente havia aulas mais teóricas e eram mais expositivas. Mas no final da aula o professor lançava o desafio de estudar ou pensar sobre alguma coisa. (...) Um professor (...) dizia: "daqui a dois dias vamos discutir este livro no Brown's", que era um café ali perto. Às cinco da tarde lá estávamos e não era dizer que tínhamos lido o livro e desbobinar, perguntava o que achávamos da estrutura, coisas assim. (...) Pergunto quantos professores de português do 11º ano aqui da região de Lisboa disseram aos alunos que até dia 18 está uma exposição gratuita na Gulbenkian sobre "Os Maias" ou organizaram uma visita. Se fosse 100% seria perfeito, suspeito que não. Às vezes, convidam-me para ir dar umas aulas ao Liceu Filipa de Lencastre onde andam os meus filhos - um está no 11º e os gémeos estão no 10º - e oiço aquele comentário "'Dos Maias já há o filme, que bom". O objectivo não é saber a história, conta-se num minuto. É o prazer de ler Eça, as palavras, a descrição dos lugares. Gostei muito do filme, mas quando li fantasiei o Carlos da Maia e a Maria Eduarda à minha maneira e é essa fantasia que se tem na leitura que é importante.

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.22.

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