
Han Van Meegeren nasceu, na Holanda, em 1889, numa família de classe média. O seu amor pela arte surgiu cedo mas o seu pai não aprovava, o que o obrigava a pintar às escondidas. Quando o pai o apanhou, obrigou-o a repetir: "Não sei nada. Não sou nada. Não sou capaz de nada". O professor da escola incutiu-lhe o amor pelo pintor (holandês) Vermeer. Este odiava estilos impressionistas arrojados contemporâneos. E ensinou Van Meegeren a pintar ao estilo da era dourada holandesa. Depois da escola, o pai insistia para que ele estudasse arquitectura. O que fez, tendo, contudo, aulas de arte às escondidas. Nunca terminaria o curso, ele que adorava fazer corrida de barcos nos canais. Pouco depois de casar com a sua primeira mulher, foi estudar artes a tempo inteiro. Saiu de lá com todo o tipo de prémios. Em 1917 fez a sua primeira exposição pública e nos anos 20 tornou-se num popular e respeitado pintor. Depois, vieram as críticas negativas. Os críticos de arte estavam mais interessados no cubismo, no surrealismo e outros movimentos artísticos da época. Um crítico apontou que o único talento de Van Meegeren era copiar os outros. Outro afirmou que ele tinha todas as virtudes...menos a originalidade. Como retaliação, Van Meegeren escreveu uma série de artigos furiosos. A raiva crescia no seu interior por não ser reconhecido como um génio da arte. Propôs-se, então, provar que conseguia não apenas igualar, mas ultrapassar os grandes génios holandeses da pintura. Com isso em mente, e já com a sua segunda mulher, em 1932, muda-se para o sul de França. "Han Van Meegeren é, mais ou menos, o protótipo do falsificador", afirma Arthur Brand. Ele começou por vingança. Quando era novo fez retratos fantásticos de pessoas e as pessoas gostavam do seu trabalho. Mas faltava convencer os críticos. Durante 5 anos estudou afincadamente os estilos, técnicas e vidas dos grandes mestres holandeses. Vermeer era o candidato óbvio a seguir. Homem de Delft, teve um período da sua vida, supõe-se que em Itália, do qual não há registo de obras. Assim, Van Meegeren propôs-se criar o período religioso da obra de Vermeer. A sua primeira oferta foi "A ceia de Emaús". Quando o primeiro Vermeer de Meegeren foi exibido, houve grande surpresa na Holanda. O Dr.Abraham Bredius, talvez o crítico mais reputado da altura, elogiou-o. Disse que era uma obra da arte. Que era uma maravilha encontrar este quadro que "estava desaparecido". Disse que em nenhum outro quadro do grande mestre havia tanto sentimento. Um diretor de um museu holandês comprou o quadro, para esse mesmo museu, por 5 milhões de euros. Meegeren usou-o para comprar um imóvel extravagante em Nice, a partir do qual fez as grandes falsificações da sua obra. No início da guerra (II WW), ele voltou para a Holanda e, em realidade, em 1940, ele valia uma fortuna. Usou o dinheiro para comprar propriedade atrás de propriedade, em alguns dos distritos mais exclusivos de Amesterdão. Mas também bebia muito e acomodara-se a comprimidos para dormir. A qualidade do seu trabalho começa a declinar. Segundo J.Keats, Meegeren aproveitou-se da teorização de Bredius de que havia um período religioso de Vermeer - sem que houvesse disso qualquer indício -, criando-o por consequência. Mas, segundo Keats, a sua obra era "abominável" e nada do que se esperaria de um Vermeer.
Goring, o segundo homem mais importante, a seguir a Hitler, na Alemanha nazi, era também um grande amante e colecionador de arte, a maioria da qual roubada. Aceitou trocar 137 das suas obras por um "Vermeer do período religioso" que considerou a sua jóia da coroa. Julgado em Nuremberga, Goring viu um soldado passar-lhe cianeto para a mão, de modo a poder suicidar-se antes de ser executado. Contudo, um outro soldado disse-lhe: "A propósito, o teu Vermeer era falso". Depois da guerra, a preciosidade de Goring foi encontrada em sua casa. Foi indicado o nome do negociante alemão que deu o nome de Van Meegeren. Este, às tantas, estava a ser julgado por ter colaborado com os nazis e ter roubado propriedade cultural holandesa. Enfrentava uma condenação à morte. "Eu pintei o quadro! Não é um Vermeer; é um Van Meegeren", disse ele. Ninguém acreditou nele. Para provar a sua inocência, fez uma proposta ao tribunal: ele falsificaria um Vermeer à frente de um júri de especialistas e testemunhas. O tribunal concordou e, nas seis semanas seguintes, Van Meegeren pintou o seu último Vermeer, "Jesus Among The Doctors". E fê-lo embriagado e sob influência de drogas. Dizia que só assim conseguia trabalhar. Os especialistas disseram que a qualidade era tão alta que Meegeren não podia estar a mentir e a acusação foi retirada. Morreu de ataque cardíaco, aos 58 anos. Disse que não fez o que fez pelo dinheiro, mas pela arte. Terá sido um herói? Um vilão? Uma vítima? Fica em branco.
Quando um falsificador é apanhado todos os mecanismos de autoridade são garantidos. O falsificador só quando falha ascende a um plano superior. Durante o seu julgamento Van Meegeren disse algo profundo: "Ontem, este quadro valia milhões e especialistas e amantes da arte vinham de todo o mundo e pagavam para o verem. Hoje, não vale nada e ninguém atravessa a rua para o ver gratuitamente. No entanto, a imagem não mudou. O que mudou?".
De qualquer modo, houve quem quisesse comprar originais de Van Meegeren; a sua obra teve certa repercussão e prestígio. Mas, para autenticar as suas obras, só o seu filho tinha a palavra. E este, por sua vez, pensou: "por que não falsificar" algumas obras (fazendo-as passar como sendo do pai)? Os grandes falsificadores são quase sempre artistas especializados que se sentem rejeitados pelo mundo artístico. A falsificação da arte, como qualquer outro crime, tem múltiplas motivações, entre indivíduos diferentes e, por vezes, no interior do mesmo indivíduo. Já em 200 a.C. o mercado estava cheio de falsificações. Na Roma antiga, as estátuas da Grécia antiga adquiriram grande popularidade e procedeu-se a falsificações. Na Idade Média, não havia um grande interesse pela arte, a peste, a guerra centrava atenções. Não havia muito dinheiro. Coleccionar não era importante na altura, mas muita gente coleccionava relíquias como ossos de santos. Eram tantos os ossos coleccionados que cada santo devia ter tido dois ou três ossos. Claro que havia muitas falsificações. O falso tem uma qualidade muito importante: questionar o original. O que é muito mais profundo do que a homenagem. O Renascimento criou uma nova classe média próspera. Muito interessada em estátuas da Roma Antiga, teve que ter essas estátuas, limitadas na sua quantidade, por meios alternativos. Coleccionar arte tornou-se um negócio: mercadores, reis, Papas começaram a coleccionar arte. Nesta altura, pela primeira vez na História, artistas tornavam-se famosos. Antes, não interessava o artista, mas a obra de arte, a maioria das quais eram religiosas. Inspiradas por Deus e dedicadas a Deus, não interessava o autor. Mas...mesmo algumas estrelas do Renascimento podem ter começado como falsificadores. Pensemos nas estátuas romanas de Miguel Ângelo. E, de resto, e assim, uma falsificação poderia valer mais do que o original.
Miguel Ângelo tinha uma espécie de agente em Milão, Baldassare del Milanese.
Muitas vezes, o falsificador não decide, a priori, que ia ser falsificador. Acontece, é um acaso, às vezes é uma dificuldade económica que o impele.
[episódio 5, "The sense of beauty", Rai 5, transmissão RTP2, Massimo Brega]
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