Muito pouco se sabe de Fernão de Magalhães antes da viagem que o celebrizou. O mesmo sucede à maioria dos navegadores do seu tempo, como Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e outros mais. Só Cristóvão Colombo é parcial excepção, pois era oriundo da República de Génova, ou seja, de uma sociedade mais mercantil e urbanizada do que as da nossa Península, onde, até para pequenas transacções, se recorria frequentemente aos notários, cujos arquivos são para nós um bom manancial de informações. Os nobiliários ou livros de linhagens, que só registam os nobres, pouco mais, em regra, nos ensinam que sua genealogia, raramente dando datas. Registos paroquiais, não os havia ainda ao tempo, pois foi só o Concílio de Trento (1545-63) que os tornou obrigatórios. É por isso assaz difícil determinar as datas e lugares de nascimento da maior parte das personagens, e Magalhães não é excepção. (...)
Tampouco se conhece com segurança absoluta o lugar da sua naturalidade. Aventou-se Lisboa, o Porto, Figueiró dos Vinhos, Tolões (perto de Amarante), Ponte da Barca, Braga, Aveiro e Sabrosa. (...) Sabrosa é a hipótese que goza de mais popularidade, mas assenta em documentos falsos: o testamento que Fernão de Magalhães teria feito em Belém, em 1504, e o que o neto de uma sobrinha sua teria feito em Pernambuco em 1578, de ambos os quais haveria cópia num cartório notarial de Fafe! Nem um nem outro resistem à crítica histórica, tornando-se evidente que foram ambos forjados em 1796 por António Luís Álvares Pereira que se pretendia descendente do navegador (de quem não há descendência directa) com direito à sua herança, e passou a assinar-se desde então António Luís Álvares Pereira Coelho da Silva Castelo-Branco de Magalhães. Residente em Madrid, este António Luís (...) apresentou as suas pretensões ao Consejo Real de Índias, para obter de Carlos IV não só a vintena dos bens trazidos das Filipinas, nos termos das capitulações celebradas por Carlos I com Fernão de Magalhães em 1518, mas também uma indemnização por todo o tempo em que aquela não fora entregue à família.
É desse testamento falso que consta a menção a Sabrosa, não como lugar da naturalidade do célebre navegante, mas da residência de supostos antepassados do requerente de 1795: Teresa de Magalhães, irmã daquele, e o marido desta, João da Silva Teles, «senhor da casa de Pereira de Sabrosa». De qualquer maneira, a casa que em Sabrosa é mostrada como berço do navegador não seria jamais a de seus pais, mas a de seu futuro cunhado, onde a probabilidade de ele ter nascido é praticamente nula.
A hipótese apresenta maior de probabilidade é a da naturalidade portuense do nosso navegador. Com efeito, num documento notarial conservado em Sevilha e recentemente publicado por Juan Gil (a doação de certas propriedades herdadas da família, sitas em Gaia, feita pelo navegador poucos dias antes de largar para a sua viagem, a sua irmã Isabel, «vizinha do Porto»), o nosso homem identifica-se como «el comendador Fernando de Magallaes, capitán de Sus Altezas, fijo legítimo de Rodrigo de Magallaes e de Alda de la Mezquita, su muger, vezinos que fueron de çibdad del Puerto de Portugal, defuntos, que santa gloria ayan...». A sua ligação ao Porto ressalta também de uma verba do seu testamento, em que institui um legado a favor do «convento de Santo Domingo de las Dueñas», da mesma cidade.
Luís Filipe F.R. Thomaz, O drama de Magalhães e a volta ao mundo sem querer, Gradiva, 2018, pp.21-24.
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