sábado, 2 de fevereiro de 2019

Formas de comunicação


Da minha experiência, posso dizer-lhe que não consigo comunicar sem silêncio. Nas experiências mais autênticas de amizade, mas também de amor, de amor paternal, maternal, e fraterno, os momentos mais bonitos são aqueles que misturam a palavra, os gestos e o silêncio. Na semana passada, recebi a visita de um amigo. «Como vai isso?». «Bem». Estávamos aqui os dois...Falámos de algumas coisas, ele falou-me da mulher, dos filhos e netos. Foi bom. E depois, a certa, altura, ficámos em silêncio. Em paz. Foi bonito. Depois ele fez-me uma pergunta e eu fiz-lhe outra a ele. Estivemos uma hora juntos, e penso que, durante esse tempo, não falámos mais de metade do tempo. Havia uma comunicação de paz, de amizade. Foi bonito. Eu fiquei contente e ele também. Este silêncio não é como o amido com que se trata as camisas para as enrijecer: o silêncio formal já não é silêncio, mas rigidez. (...) O silêncio é terno e afectuoso, é quente e amistoso. Também é penoso nos momentos difíceis. Não é possível uma comunicação de qualidade sem a capacidade de silêncio. É no silêncio que nasce a capacidade de ouvir, de compreender, de procurar compreender e de sentir que custa quando não se consegue compreender. Não compreendo e isso custa-me. Mas a verdadeira compreensão é humana. 
Falemos agora de Deus. A comunicação é uma trindade, um mistério na forma como é transmitido. Porém, a Bíblia diz que Deus fez o homem e a mulher à sua imagem. Dir-se-ia o mesmo em relação à forma como eles comunicam entre si, através da palavra, do carinho, da sexualidade, do silêncio...Tudo isso é sagrado. A comunicação não se compra, não se vende. Dá-se. (...) 
Pessoalmente, quase não bebo. Quase nunca. No entanto, humanamente, não podemos conceber uma comunicação de qualidade sem beber ou comer ou fazer alguma coisa em conjunto. Tocar, comer, beber. O vinho simboliza isso mesmo. O vinho, como diz a Bíblia, alegra o coração do homem. Neemias, no Livro de Esdras, vendo as pessoas a chorar no templo depois de ouvirem as palavras da lei, diz-lhes: «Não chorem, vão para casa, comam, bebam, preparem uma refeição a quem não o fez». É assim que termina a festa de Deus...(...) Na Argentina, há uma expressão muito bonita: quando se quer falar com alguém, diz-se «Vamos tomar um café». É evidente que, com o convite, se pretende falar de assuntos, comunicar...mas não deixa de ser um «café». Neste contexto, penso que o arquétipo é o vinho. (...)
O povo comunica através da dança. O que significa que comunica com o corpo, com todo o seu corpo. Outra forma de comunicar é o choro, chorar em conjunto. Quando uma mulher e o seu marido cuidam de um filho doente, choram em conjunto, na esperança de que ele se cure. Dançar, dar as mãos, beijar, comer e beber em conjunto, chorar...Não fazendo estas coisas, não há comunicação possível. Já me aconteceu algumas vezes, e digo-o sinceramente, estar a pregar e ter de parar por ter vontade chorar. Quando mergulhava totalmente num sermão, comunicava com o povo. Termino este assunto das formas de comunicação com outro aspecto essencial, sem o qual não há qualquer comunicação: o jogo. As crianças comunicam através do jogo. O jogo tem a particularidade de desenvolver a capacidade inventiva. E as crianças são criativas! 


Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.134-139

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