Lar vem de lareira. No sistema matriarcal romano, era mantida acesa pela mãe e o pai trazia a lenha. A família reunia-se à volta do fogo. Quando se regressa a casa, o pensamento devia ser, goste-se mais ou menos da casa que se tem, que é o sítio do mundo que está mais à nossa medida. E quem lá está são as pessoas que eu amo mais. É o nirvana. Devia deixar essa luta diária do patrão, do trânsito, que até pode ser estimulante mas também é cansativa, de fora. (...) Ou outra coisa que para as crianças faz uma diferença enorme: cumprimentá-las, brincar, perguntar às pessoas "como te sentes?", que é uma pergunta que não se faz. (...) As redes sociais são um espelho dessas vidas fabulosas. Sim, "fui almoçar aqui", "olha para mim em Nova Iorque". Ninguém mete "olha para mim no trânsito" (...) E não se diz onde é para as pessoas perguntarem, "onde estás, que paisagem tão bonita". E lá vem a resposta: "algures no norte". Depois de se fazer sofrer um bocadinho é que se diz onde é. (...) O ser humano é mauzinho até prova em contrário. Acredito que tem uma possibilidade de ser muito bom, mas tem uma parte narcisista, egocêntrica, uma ganância que se não for domesticada vai crescendo. Se não percebermos o sofrimento dos outros, se não tivermos empatia, se não valorizarmos o que temos, portanto sermos frugais, entramos numa espiral.
Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.23.
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