sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

"Não-reconciliado"


Houellebecq é um sismógrafo de alta precisão (...) Mas e se a maior provocação fosse mesmo a felicidade? Houellebecq diz, por interposta personagem, que já não há "condições históricas" para a felicidade, projecto antigo agora condenado à obsolescência (...) É assim que argumenta que entre o ocaso das sociedades tribais e a solidão generalizada das grandes cidades se inventou o modelo do casal, corpo intermédio, alternativa sã, esperança em aberto. Acontece que, à imagem da agricultura, o casal deixou de ser viável. A vida moderna, "líquida" como diria Bauman, conspira contra o casal. (...) Houellebecq tem sido muitas vezes classificado como o melhor romancista francês da actualidade. É uma asserção duvidosa, sobretudo para os fãs de Emmanuel Carrère. (...) "Serotonina" pode sugerir a ideia de um homem reconciliado, mas é preciso ter em conta que ele se reconcilia com hipóteses que considera extintas, da identidade nacional ao "amor incondicional". Por isso, é mais seguro dizer que Houellebecq continua, agora e sempre, "não-reconciliado" (...) Pós-apocalíptico, mesmo quando teológico, macambúzio, patético, o seu engenheiro agrónomo acredita no amor, mas no amor enquanto possibilidade que fracassou

Pedro Mexia, Uma questão de química, Expresso, Revista do Expresso, 26-01-2019, p.69.

Sem comentários:

Enviar um comentário