Dominique Wolton: A Igreja é mais severa com os católicos de esquerda, os padres operários e a teologia da libertação do que com os católicos de direita, a congregação de São Pio XI e, muitas vezes, com as ditaduras. Porquê?
Papa Francisco: Não sei ao certo aonde quer chegar. Por que é a Igreja mais severa com os católicos de esquerda do que com os da direita?
Dominique Wolton: Sim, historicamente, ao longo do século XX...
Papa Francisco: Poderá ser no sentido em que a esquerda procura sempre novas vias. No entanto, quando se mantém o statu quo e há uma tendência para a rigidez, não existe uma ameaça, pode-se viver tranquilamente...Mas, assim, a Igreja não cresce. Para mim, isso não constitui uma ameaça. Mas a esquerda - chamemos-lhe assim, embora não seja a esquerda, mas sim a esquerda de Jesus Cristo - era uma grande ameaça para eles. Muitas vezes a esquerda...Mas é uma palavra de que não gosto.
Dominique Wolton: Talvez, mas é o vocabulário político em democracia, em que, geralmente, existem dois campos.
Papa Francisco: O Evangelho...A Igreja identificou-se muitas vezes com os farisaicos. E não com os pecadores. A Igreja dos pobres, dos pecadores...
(...)
Dominique Wolton: A mensagem mais radical da Igreja desde sempre, desde o Evangelho, é a condenação da loucura do dinheiro. Por que será que esta mensagem não é ouvida?
Papa Francisco: Nunca passa? Porque alguns preferem falar da moral, nas homilias ou nas cadeiras de teologia. Os pregadores correm um grande risco, que é o de caírem na mediocridade. De apenas condenarem a moral - desculpe a expressão - «da cintura para baixo». No entanto, os outros pecados, que são os mais graves - o ódio, a inveja, o orgulho, a vaidade, matar o outro, tirar a vida -, desses já não se fala tanto. Fazer parte da máfia, fazer acordos clandestinos...«És um bom católico? Então passa-me um cheque».
[in Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.116-118]
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