segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Papa Francisco sobre a teologia da libertação


A teologia da libertação tem carácter de parcialidade, no bom sentido, mas também no mau sentido. É parcial o princípio da luz de Jesus Cristo que nos liberta, tendo como modelo a libertação do Egipto do povo de Israel. Mas, nessa altura, depois do movimento francês de Maio de 68, houve várias interpretações da «teologia da libertação». Uma dessas interpretações adoptava a análise marxista da realidade. Aquilo a que chamamos «teologia do povo» tem no cerne a salvação de Jesus Cristo, mas no seu povo. O povo da Igreja, enquanto povo santo de Deus
Penso que os dois trabalhos que o papa Ratzinger fez quando foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé levaram claramente, primeiro, à condenação da análise marxista e, depois, à demonstração do contributo positivo desse movimento. Existe sempre uma relação com a política. Porque a pastoral não pode não ser política, mas pode ter uma relação com a «grande» política: a Igreja deve, efectivamente, fazer política, mas ater-se à grande política, como disse. No seio da teologia da libertação, alguns elementos acabaram por se desencaminhar, digamos assim, por vias partidárias, com partidos de extrema-esquerda ou com a análise marxista. O sacerdote Pedro Arrupe escreveu uma carta, nos anos 80 do século passado, contra a análise marxista da realidade, afirmando que não era possível fazê-lo em nome de Jesus. Uma carta lindíssima. É por isso que há uma diferença, e aquilo a que se chama teologia do povo - embora este termo também não me agrade - foi a alternativa proposta por certos teólogos para fazer do povo de Deus um protagonista. Foi o que fez o Vaticano II

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.199-200.

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