Dominique Wolton: A Igreja é muitas vezes acusada de condenar com maior firmeza a violência do que as desigualdades, de ter dois pesos e duas medidas.
Papa Francisco: Pode acontecer dessa forma, mas, no que me diz respeito, falo clara e veementemente de uma e de outra.
Dominique Wolton: Mas, na sua história, a Igreja foi mais sensível aos governos conservadores e inquietou-se mais com os governos de esquerda. Ou progressistas...
Papa Francisco: Ambos fizeram boas coisas, e ambos erraram. Mas, no Evangelho, é muito claro: somos filhos de Deus, e aquele que se acreditava ser o menos justo torna-se o mais justo. Jesus eleva o maior dos pecadores. Restabelece a igualdade desde o início.
E a violência...Pensemos nos grandes ditadores do século passado. Na Alemanha, houve cristãos que não viram Hitler com maus olhos, mas houve outros que perceberam o que ele era. Foi como aqui em Itália. São incontáveis as violências das ditaduras...Mas eu tenho mais receio da violência de luvas brancas do que da violência directa. A violência de todos os dias, como a que é inflingida aos trabalhadores domésticos, por exemplo!
Dominique Wolton: Como evitar que a mundialização seja sinónimo de desigualdades, de aumento de riqueza para alguns?
Papa Francisco: No mundo de hoje, 62 privilegiados são detentores da mesma riqueza que 3,5 mil milhões de pobres. No mundo de hoje 871 milhões de pessoas passam fome. Há 250 milhões de migrantes que não têm nada, nem para onde ir.
O tráfico de droga ascende hoje a, sensivelmente, 300 mil milhões de dólares. Nos paraísos fiscais, estima-se que 2400 mil milhões de dólares circulem por aí, de um lado para o outro.
Dominique Wolton: Há muito que a Igreja condena o capitalismo selvagem - os textos e declarações são prova disso..Por que será que esta mensagem não se faz ouvir no mundo com mais intensidade? Será que as pessoas não o sabem, ou não querem ouvir e compreender? O que poderia ser feito para condenar esta expansão do capitalismo selvagem, exacerbado pela mundialização?
Papa Francisco: Pense nos movimentos de trabalhadores que hoje existem. Por todo o mundo há movimentos populares. Por vezes, essas pessoas são excluídas pelos próprios sindicalistas, porque os sindicatos podem vir das classes dominantes, as classes médias-altas, no mínimo. É um movimento forte que reclama os seus direitos. Mas existe também uma repressão brutal em certos países, em que essa expressão tem um limite, sob pena de pôr a vida em risco. Na América Central, uma das dirigentes de um movimento popular, que participou no primeiro movimento popular expresso no Vaticano, foi assassinada...
É difícil, e é por isso que, quando os pobres se unem, têm em conjunto uma grande força. E também uma força religiosa.
[a partir de Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.62-64]
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