
O ódio causa-me sofrimento. Incluindo o ódio que eu, enquanto pecador, tantas vezes senti em relação aos outros. (...) A injustiça [o que mais o enfurece]. As pessoas egoístas. Eu próprio, quando me vejo nessa situação. E a injustiça, sempre. Quando me acontece ser injusto para com alguém, é preciso muito tempo até que me convença de que o Senhor me perdoou, e depois para pedir perdão a essa pessoa e fazer alguma coisa para reparar a injustiça. (...) [O pior defeito que tem] Não sei como dizê-lo, mas...é um pouco o oposto da imagem que dou de mim. Tenho uma certa tendência para a facilidade e a preguiça. Dir-se-ia que é o contrário. (...) [A maior qualidade que tem] Diria apenas que gosto de ouvir os outros. Porque descubro que cada vida é diferente e que cada um tem o seu caminho. Ouvir. Não por bisbilhotice nem para julgar, mas para me abrir a estilos de vida e soluções diferentes. E depois há a paciência (...) É uma paciência que me vem naturalmente. (...) [Sobre a preguiça] Desde a infância, desde muito cedo, sem dúvida: se pudesse passar um exame ou um teste no colégio estudando o menos possível...(...) [Sobre o talento para encontrar fórmulas que as pessoas fixam, palavras que toda a gente entende] É a minha forma de ser...É de família. Somos uma família grande e, aos sábados, com os avós, éramos trinta e seis à mesa e falávamos muito! Talvez venha daí, não sei. (...) Aos 20, 21 anos, estive à beira da morte. Abriram-me daqui aqui e retiraram-me uma parte dos pulmões. (...) Por duas ou três vezes, errei na forma de dizer as coisas [desde que é Papa] (...) Mas aquilo que posso dizer, digo. E alguns ficam escandalizados, é verdade. (...) Penso que é o estilo pastoral. Não pretendo falar como um professor, mas sim como um pastor. (...) Sim, sou feliz. Sou feliz. Não por ser papa, mas foi o Senhor que mo deu, por isso rezo para não fazer disparates...Porque faço! (...) [O que o faz mais feliz?] Encontrar-me com as pessoas. (...) Nunca senti angústia, mas, quando subo para o avião com os jornalistas, parece que estou a descer para o fosso dos leões. Nessas alturas, começo por rezar e depois procuro ser muito rigoroso. A pressão é muita. Mas houve alguns deslizes. (...) No tempo em que eu era estudante, um velho jesuíta deu-me um conselho: «ouve, se queres ir em frente, pensa com clareza e fala de forma obscura». No entanto, eu esforço-me por falar com clareza. (...) Eu detesto a hipocrisia. (...) [Sobre o dia da eleição papal] Ao meio dia, nem considerava essa hipótese e, de um momento para o outro...puf! Tudo veio naturalmente, com muita paz, essa paz nunca mais me abandonou. Não pensei no que iria dizer. Vi aquelas pessoas à minha frente...tive um certo receio. «Boa noite»: é o que se diz quando se quer cumprimentar educadamente. (...) Senti o meu chamamento, a minha vocação, num dia 21 de Setembro, dia de São Mateus. Foi uma experiência forte. (...) As minhas avós eram muito diferentes, mas ambas eram grandes mulheres. Eram mães, trabalhavam, passavam tempo com os seus netos...(...) O meu pai tinha um emprego bom, era contabilista, mas o seu salário dava para chegarmos ao fim do mês, não mais. Eu vi aquela mãe e a forma como afrontava os problemas uns a seguir aos outros...E tenho uma imagem bonita: todos os sábados, a família da minha mãe, que gostava muito de ópera, ouvia a rádio nacional argentina, que transmitia uma ópera às duas da tarde. A minha mãe era uma conhecedora, porque o seu pai, que era carpinteiro, sempre cantou árias de ópera enquanto trabalhava. Ela transmitiu-nos isso, aos quatro mais velhos...(...) E depois as minhas irmãs...É importante um homem ter irmãs (...) Depois houve as amigas da adolescência, as «noivas»...O contacto permanente com mulheres foi algo que me enriqueceu (...) Um cardeal de idade disse-me: «não desanimes, que o caminho da reforma é difícil. E a Cúria não deve ser reformada, deve ser suprimida!? [Risos] Na brincadeira, é claro! (...) [Sobre a eleição papal] Para mim, não havia a mínima hipótese, nem pensava nisso. Havia três ou quatro «grandes» nomes...Para os correctores de apostas em Londres, eu era o 42º ou 46º. Diziam que era apenas um kingmaker, um «fazedor de reis».
Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.266-288.
P.S.: e, falando sobre Charles Peguy, chega a dizer que "era mais cristão do que eu" (p.87)
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